Por José de Alencar (1870)
Quando ele sumia-se com os companheiros, o amansador expirava nos braços da mulher.
Manuel em pé, ao lado daquele grupo fúnebre, segurava maquinalmente a lança assassina, que tinham acabado de arrancar da ferida. Foi nessa posição, com os dentes rangidos e os lábios crespos de cólera, que ele recebeu a extrema bênção do pai.
III
O PADRASTO
Nunca soube-se com certeza da causa por que os quatro castelhanos perseguiam Loureiro. Mais tarde este deu algumas explicações, a instâncias dos amigos; porém notava-se na história por ele contada sensível lacuna, e muita confusão.
Estabelecido com negócio de fazenda em Alegrete, fora Loureiro até o Salto para comprar um sortimento de mercadorias de que precisava sua loja. Aproveitou a ocasião para ver Concórdia, cidade argentina que fica na margem ocidental do Uruguai.
Demorando-se alguns dias na pousada, se travou de razões com um sujeito de nome Barreda, capataz de uma estância de Entre-Rios, que aí estava também de volta de Buenos Aires. Resultou da altercação desafiar o castelhano a Loureiro, que achou mais prudente mudar de ares.
Voltou imediatamente ao Salto, e mandando sua bagagem por Uruguaiana, tomou em direção a Bagé, onde tinha umas cobranças que fazer. Seguia seu caminho quando, chegando ao alto de uma coxilha, disse o peão:
— Aqueles vêm com pressa!
Referia-se a alguns cavaleiros que despontavam ao longe, e se aproximaram rapidamente. Loureiro lembrou-se do desafio e estremeceu. Como escapar? Na campanha não é fácil achar um refúgio; por toda a parte o horizonte aberto e descortinado.
— Queres ganhar uma dobra? Veste o meu pala, e deita a correr diante daqueles sujeitos.
O camarada compreendera: apenas uma ondulação do terreno o escondeu, trocou pelo pala vermelho seu ponche azul; recebeu as moedas e despediu-se a correr. Entretanto o Loureiro contornou a coxilha, cuidando sempre de manter-se fora da vista dos cavaleiros.
Sucedeu o que ele esperava. Os castelhanos, pois eram eles, vendo fugir ao longe o homem de pala vermelho a quem perseguiam, não repararam na falta do outro cavaleiro, e o deixaram à esguelha abrigado pela rampa do terreno.
Apenas os viu passar, Loureiro deitou a correr não mais para Bagé, nem para o Salto de onde saíra, e sim para Ponche-Verde, que era a fronteira mais próxima do ponto onde se achava.
Essa era a história contada por Loureiro. Mais tarde, porém, falou-se de um namoro da mulher do Barreda com o negociante, que se apaixonara pelos belos olhos da espanholita. O marido, tendo-os surpreendido, desafiara o continentista, que fugira naquela mesma noite.
A notícia da morte de Canho chegou ao Loureiro em Alegrete, dois meses depois. Penalizou-o em extremo aquela desgraça a que ele dera causa. Lembrou-se da viúva que ficara ao desamparo com dois filhos menores; e sentiu-se obrigado a amparar a família órfã.
Fez uma viagem a Ponche-Verde com essa intenção.
Francisca era ainda muito bonita; as roupas de luto realçavam sua tez fina e delicada; e as lágrimas, derramadas pela perda do marido, tinham acendido em seus lindos olhos um fulgor irresistível.
Loureiro não foi insensível a esses encantos. Rendido à beleza da viúva, teve um impulso generoso, que o fez refletir por muitos dias, antes de tomar qualquer resolução definitiva. Afinal, aproveitando um momento em que estava só com a viúva, disse-lhe:
— Fui eu, sem querer, a causa da desgraça que a senhora sofreu, perdendo seu marido. Se pudesse restituí-lo, sem dúvida que o faria. Não podendo, faço quanto está em mim: ofereço-lhe, para o substituir, outro que há de estimá-la tanto ou mais.
Francisca chorou, e não respondeu. As palavras do Loureiro foram repetidas por toda aquela redondeza, como um trecho eloqüente. Não houve quem não aplaudisse o seu ato, como um rasgo admirável de generosidade. Vieram os vizinhos em chusma a felicitar a viúva; as amigas se desfizeram em elogios à bondade e mais prendas do noivo.
Francisca aceitou sem repugnância a mão que lhe ofereciam. O casamento foi marcado a princípio para o fim do luto; porém tanto insistiram sobre a necessidade de abreviar o ato, tanto falaram da satisfação d’alma do defunto, por ver sua esposa e filhos amparados, que se antecipou a época.
Uma pessoa não fora ouvida, que, entretanto, acompanhava com ansiedade o desenvolvimento do drama da família. Era Manuel, então na idade de nove anos. Sombrio e taciturno desde a morte do pai, o menino gastava o tempo com os arreios, o cavalo, as roupas e armas do amansador, o que ele considerava sua exclusiva e também única herança. Podiam dispor do mais, da casa e do campo; daquilo não, que lhe pertencia, como insígnia ou brasão de família.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.