Por José de Alencar (1864)
—Mas a senhora não sabe então, D. Emília, que estes curtos instantes em que a vejo, são os únicos que vivo? O resto, o tempo que sobra à minha tão rápida felicidade, trabalho com entusiasmo, é verdade! Mas por quê? Porque trabalhar, para mim, é amar ainda, e elevar-me do pó, a fim de poder erguer os olhos para o céu sem ofendê-lo! Eu não era ambicioso, não! Foi o amor que me deu esta sede de poder. Os meus mais belos triunfos, acredite-me, senhora, não os sinto quando os alcanço, mas quando venho depôlos submisso a seus pés. A minha glória é essa unicamente, fazer de quanto o mundo respeita e acata a humildade de meu amor!...
Emília escutava enlevada. As vezes o orgulho vibrava sua fronte nobre com um gesto divino. Oh! que tirânica beleza é a dessa mulher, que até mesmo quando eu a desprezo, me força a admirá-la! Quando a voz que a raptava emudeceu, ela ficou suspensa um instante. Depois fitou os olhos no Chaves.
—E se eu exigisse, o senhor teria a coragem de sacrificar tudo a um capricho meu? —Ordene! —Não tenho esse direito; respondeu sorrindo. Se o tivesse...
não seria assim egoísta. Quisera ao contrário partilhar com o mundo inteiro os seus triunfos! —Mas esse direito... lhe pertence! Tome-o. Eu lhe suplico! —Não me sinto com forças.
—Sempre essa cruel palavra! Como eu sofria, Paulo... Mas não! Sofri depois, ainda agora sofro! Naquele instante, nada, nada absolutamente! O que a revelação cruel produziu então em mim, não foi nem dor, nem indignação, mas um estupor d'alma! Eu ali fiquei, no idiotismo das minhas emoções.
O diálogo do Dr. Chaves fora interrompido pela aproximação do Alvares, que vinha buscar Emília para a prometida quadrilha. O deputado teve de ceder o lugar.
Depois de um curto silêncio, durante o qual o jovem poeta esteve sob a influência do olhar soberano de Emília, ele animou-se a falar-lhe em voz submissa:
—D. Emília... A senhora leu os meus versos? —Li; disse ela. São muito bonitos, mas não são verdadeiros.
—Tem razão! Não dizem nem a sombra do que sinto! Mas sou eu o culpado? O verbo divino do meu amor, não há na linguagem dos homens palavra que o exprima! —Não por certo! Não é possível exprimir o que não se compreende.
—Oh! D. Emília! —Oh! Os poetas! Eu os conheço! O que eles amam neste mundo é unicamente sua própria imaginação, o ideal sonhado: todos têm sua Galatéla , e nós não somos para eles senão estátuas, que os seus versos devem anhnar, como centelhas do fogo sagrado! —Se a senhora tivesse lido a poesia que eu ontem escrevi, não pensaria assim, D. Emília! —Dê-me! Quero vê-la! —Não a trouxe! —Procure bem! disse Emília sorrindo.
O Alvares tirou com efeito do bolso um pequeno papel dobrado; mas com a faceirice dos escritores, recusou entregá-lo, quando Emília estendia a mão para recebê-lo.
O movimento vivo que ele fez soltou-lhe dentre os dedos o papel, que veio cair no jardim. Ela riu e afastou-se exclamando:
—Bem feito! O Alvares correu à, porta da varanda, mas chegou tarde. Não sei que instinto da minha então embrutecida natureza, me fez precipitar ligeiro sobre o papel, como fera sobre a presa.
Fui esconder-me no fim do jardim, e ali passei uma hora palpando aquele papel aveludado, com o sentimento do suicida tateando o punhal que o deve imolar. Nem mais me lembrava do que se passara com o Chaves. A primeira dor envelhecera já.
Quando me supus calmo e senhor de mim, voltei à sala.
Do primeiro olhar, vi Emília sentada na outra extremidade, sempre bela e resplandecente; mais por certo que nunca, pois nesse instante eu a admirava com olhos de maldição. Recostado ao umbral da porta, estava um homem, que a devorava com a vista, esperando impaciente a oportunidade para falar-me. Era o tenente Veiga, de quem já te falei.
—Ainda outro, meu Deus! soluçou minha alma agonizante.
Julga do meu sofrimento, Paulo, pela vileza a que me arrastava o desespero. Acabava de roubar um papel que me não pertencia; não era bastante; fiz-me espião. Dei volta pela varanda de modo a aproximar-me da porta sem que os dous me pressentissem. Não cheguei já a tempo de ouvir, mas vi...
Emília desprendera uma violeta de seu ramo e deixara-a cair aos pés intencionalmente: o oficial curvouse, apanhou rápido a flor, que beijou e prendeu com orgulho ao peito da farda ornada de condecorações.
Tudo isto fora feito com tão delicado disfarce, que ninguém mais na sala o viu, nem suspeitou.
Vaguei pelo salão conversando com um e outro, cumprimentando algumas senhoras de meu conhecimento, procurando assim gastar ao atrito dos indiferentes as emoções dolorosas que me pungiam. Depois sentei-me à mesa do jogo.
Chegou finalmente a quadrilha que eu devia dançar com Emília, a sexta, se não me engano. Uma das finezas que ela me fazia nesse tempo, era não dançar mais em um baile, depois de ter dançado comigo; por isso me reservava sempre a última de suas quadrilhas.
—Como o senhor está pálido, meu Deus! exclamou ela tomando-me o braço.
—Não; há de ser o efeito das luzes sobre este papel escarlate; respondi sorrindo. E o seu acesso? Já passou? —Que acesso? perguntou surpresa.
—Não disse há pouco... que tinha febre n'alma? —Ah!... Sim! Já passou! replicou sorrindo. O senhor é tão bom médico de minha alma, que bastou sua lembrança para curar-me.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.