Por José de Alencar (1860)
Carolina – Apagou-se a luz. Que me quer?
Antônio – Nada, menina. Vamos conversar!
Carolina – Deixe-me!... Helena!...
Antônio – Tens as mãos tão frias!...
Carolina – Estou doente!... Sinto arrepios!...
Antônio – Por que não tomas um golezinho? A aguardente aquece.
Carolina – A aguardente?
Antônio – Sim; é o melhor remédio.
Carolina – Dizem que faz aquecer... É verdade?
Antônio – Se é!... Queres?
Carolina – Oh! Se houvesse alguma coisa que me matasse esta sede!...
CENA XIV
(Os mesmos, Luís, Margarida, Araújo, Helena, Ribeiro e uma menina)
Antônio – Há de matar!... Mas por que não te curas?
Carolina – Não vale a pena curar-me!
Antônio – Por que, menina?
Carolina – Já sou um cadáver! Pouco me resta de vida!...
Antônio – São cantigas!...
Carolina – Luís... Luís...
Luís – É tua filha! Antônio!
Carolina – Meu pai!
Margarida – Antônio!...
Antônio – Quem és tu?
Margarida – Não conheces tua mulher?
Antônio – Ah!... Minha mulher e minha filha...
Luís – Cala-te!
Antônio – Não me toques!... (A Ribeiro) Também veio ver? Ria-se... ria-se... Não me roubou minha filha?... Eu queria roubar sua amante!... Ah!... Ah!... Ah!...
EPÍLOGO (Em casa de Luís. Sala simples, mas elegante)
CENA I
(Carolina e Margarida)
Carolina – Luís ainda não voltou, minha mãe?
Margarida – Não! Creio que anda muito ocupado.
Carolina – O que será?
Margarida – Não sei. Não lhe perguntei.
Carolina – Não consentiu que eu lá entrasse um instante.
Margarida – Para não interrompê-lo nos seus estudos.
Carolina – E todos os dias, enquanto ele trabalha, não vou arranjar-lhe os livros, endireitar-lhe os papéis e mudar as flores dos vasos?... Nem por isso o perturbo. Às vezes ele mesmo me chama, e conversamos tanto tempo!... Outras, apenas levanta a cabeça, me vê, sorri e continua a trabalhar.
Margarida – Talvez hoje precisasse estar só... Porém mudaste o teu vestido escuro?... Fizeste bem! Assim ficas mais alegre.
Carolina – Nunca mais poderei ter alegria, minha mãe!... Por meu gosto não mudaria! Mas Luís pediu-me que me vestisse de branco.
Margarida – Ah! Foi ele...
Carolina – De manhã quando nos vimos chegou-se a mim muito sério e disse-me que desejava pedir-me um favor. Cuidei que era outra coisa...Não tive ânimo de recusar-lhe.
Margarida – Já o habituaste a fazer-lhe todas as vontades!...E assim deve ser porque ele te estima como um verdadeiro irmão.
Carolina – Infelizmente não mereço essa estima.
Margarida – Não digas isto, Carolina!
Carolina – De que serve negá-lo? Não é a verdade?
Margarida – Não te importes com o que pensa o mundo; não é para ele que vives, e sim para a tua mãe, para aqueles que te amam. O teu mundo, o nosso, é esta casa...
Carolina – E nesta mesma casa não falta alguém?... O amor de minha mãe não me lembra que eu tenho um pai que não me quer ver, que foge de sua filha como de um objeto repulsivo?...
Margarida – Isto te faz sofrer e a mim também! Mas consola-te. Luís me prometeu que havia de trazê-lo...
Carolina – E poderá cumprir essa promessa?
Margarida – Tenho esperança.
Carolina – Há mais de um ano que esperamos!...
Margarida – Por isso mesmo! O único motivo que ainda te separa de Antônio é a vergonha que ele tem...
Carolina – Vergonha?... De que, minha mãe?
Margarida – Do que fez!... bebia... tanto... Como tu viste.
Carolina – Então é só este motivo?...
Margarida – Só. Podes acreditar. Não conserva a menor queixa de ti.
Carolina – Perdoou tudo então?
Margarida – Tudo!
Carolina – Oh! Mas Deus não perdoou, porque a todo momento vejo...
Margarida – O quê?...
Carolina – Nada, minha mãe, nada!
Margarida – Não chores!... Falemos de outra coisa... Luís deve ter voltado. São cinco horas.
Carolina (enxugando os olhos) – Chorar não me entristece, minha mãe, ao contrário me consola.
CENA II
(As mesmas, Luís e Meneses)
Margarida (a Luís) – Chegaste enfim.
Carolina – Ah! Luís!
Margarida – Sr. Meneses...
Meneses – Adeus, Margarida. (à Carolina) Hoje está mais coradazinha!... Só falta o sorriso nos lábios.
Carolina – As lágrimas assentam-me melhor.
Luís – Por que choravas, Carolina?
Margarida – Começou a lembrar-se...
Luís – Não te é possível então esquecer.
Carolina – E que servia que eu esquecesse? Os outros se lembram.
Luís – Como
estás iludida, Carolina! O mundo é inconstante mo seu ódio, como na sua
simpatia. Não tem memória e esquece depressa aquilo que um momento o
impressionou.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.