Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
ADRIANO – Eu não quero a irmã de Fábio junto de minha mulher.
CLARIMUNDO – Mais baixo: que sabes de dª. Úrsula?
ADRIANO – Acabo de abrir os olhos... fui indignamente comprometido e atraiçoado por Fábio; não creio que essa mulher seja alheia...
CLARIMUNDO – Simples desconfiança... eu também desconfiei; mas reconheci que fui injusto. Dª. Úrsula está inocente; deves respeitá-la.
ADRIANO – É irmã de Fábio: rogar-lhe-ei o favor...
CLARIMUNDO – Adriano... quero que ames e veneres essa senhora...
ADRIANO – Oh! mas é impossível!... meu pai... ela deve sair da minha casa.
CLARIMUNDO – Silêncio! És capaz de dominar-te para obedecer-me?...
ADRIANO – Meu pai...
CLARIMUNDO – Tu não podes fechar a porta de tua casa a dª. Úrsula... deves respeitá-la e amá-la, porque... silêncio... domina-te... ela é tua mãe... (Em voz muito baixa.)
ADRIANO – Oh!... minha... (Grande comoção.)
CLARIMUNDO – Silêncio! Há vinte e seis anos que eu a fiz acreditar na tua morte... agora escuta: as emoções do reconhecimento da mãe e do filho poderiam ser fatais a Helena; tu, Adriano, domina-te: filho do amor misterioso, não podes ser o primeiro a romper o segredo do teu nascimento, envergonhando tua mãe e abatendo-a na sociedade. Espera que Úrsula fale... é o seu dever de mãe, e o seu direito de senhora....
ADRIANO (Com esforço.) – Obedecerei... ela porém... (Com doçura.) minha mãe já sabe... que eu sou seu filho?...
CLARIMUNDO (Pronto.) – Não... e portanto bem vês que não podes... oh! sinto rumor lá dentro...
ADRIANO – Eu vou..
CLARIMUNDO – Espera a ordem do médico: o rumor não é de aflição... foi
Helena que despertou... eu volto para levar-te. (Vai-se.)
ADRIANO – Meu Deus...
CENA XIII
ADRIANO e logo ÚRSULA
ADRIANO (Aflito segue Clarimundo até à porta e volta a um sinal deste, passeia agitado; Úrsula sai, hesitando, do gabinete; silêncio de ambos... luta íntima... Úrsula quer ir-se e volta... olham-se, tremem, ânsia de ambos: não podem mais conterse, atiram-se um ao outro.)
ÚRSULA (Grito abafado.) – Meu filho!...
ADRIANO (O mesmo.) – Minha mãe!... (Abraçam-se.)
ÚRSULA (Abre a camisa de Adriano e examina o peito esquerdo.) – Oh!... é meu filho! é meu filho!... (Abraçam-se: pranto de ambos.)
CENA XIV
ADRIANO, ÚRSULA e CLARIMUNDO
CLARIMUNDO – Helena despertou... o doutor está rindo-se... ah! e os senhores aqui fora faltavam-me ambos à palavra!...
ADRIANO – Que felicidade meu pai!
ÚRSULA – Que seja completa! oh Clarimundo! dá-me o pai de meu filho para que eu o apresente a todos!
CENA XV
ADRIANO, ÚRSULA, CLARIMUNDO, DR. GONÇALVES e logo HELENA, pálida,
cabelos soltos e vestida de branco.
GONÇALVES – Parabéns! a moléstia revelou doce glória! a doente é uma esposa abençoada por Deus; e o marido, se foi leviano como dizem, tem o perdão pela dita, e vai em breves meses ser preso por mais um laço!...
ADRIANO (Correndo.) – Oh, minha Helena!... minha Helena!...
HELENA (Aparecendo à porta e abrindo os braços.) – Adriano!... meu marido!...
ADRIANO (De joelhos.) – Anjo de amor! de perdão! anjo de bem-aventurança na terra!
CENA XVI
ADRIANO, ÚRSULA, CLARIMUNDO, DR. GONÇALVES, HELENA e
CINCINATO
CINCINATO – Tudo feito! perdão, minhas senhoras... mas eu que por aqui arranjaram-se as coisas ainda melhor, do que eu as arranjei lá fora!...
CLARIMUNDO – O doutor fica sendo um amigo da família; Cincinato já o é; saibam pois o que em breve saberá a sociedade: Minha Helena! abraça o pai e a mãe de teu marido!...
HELENA – Ah! como sou feliz!... (Abraçam-se os quatro.)
CINCINATO – Por esta não esperava eu!... mas eis aí como pode ter sua poesia um casamento de velhos... que disse eu?... perdão minha senhora, isto é só com o noivo!
ÚRSULA (Apresentando Helena e Adriano.) – Meu filho! adora-a!... Helena é santa... (Adriano abraça Helena.)
CINCINATO – Se o é!... (Comovido.) Este milagre Deus fez só por ela!... (Soluçando.) Estou fora do meu elemento... declaro-me enternecido e fica declarado: Cincinato Quebra-louça... assinado... por cima de estampilha.
FIM DO QUINTO ATO E DA COMÉDIA
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.