Por Visconde de Taunay (1872)
Tornou-se Pereira pálido, franzindo os sobrolhos e olhando de esguelha para quem tão imprudentemente elogiava assim, cara a cara, a beleza de sua filha; Inocência enrubesceu que nem uma romã; Cirino sentiu um movimento impetuoso, misturado de estranheza e desespero, e, lá da sua pele de tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão.
Nem reparou Meyer e com a habitual ingenuidade prosseguiu:
—Aqui, no sertão do Brasil, há o mau costume de esconder as mulheres. Viajante não sabe de todo se são bonitas, se feias, e nada pode contar nos livros para o conhecimento dos que lêem. Mas, palavra de honra, senhor Pereira, se todas se parecem com esta sua filha, é coisa muito e muito digna de ser vista e escrita!
Eu...
—O senhor não quer retirar-se? interrompeu Pereira com modo áspero. —Pois não! replicou o alemão.
E como despedida acrescentou, dirigindo-se para Inocência:
—Chamo-me Guilherme Tembel Meyer, seu humilde criado, e estimo muito conhecê-la por ser a senhora filha de um amigo meu e prender a gente com o seu lindo rosto...
Estendeu então a mão, fez um movimento de cabeça, e acompanhou ao mineiro que já ia saindo, branco de cólera concentrada.—E que me diz o Senhor deste homem? perguntou a Cirino a meia voz e puxando-o de parte.
—Reparei muito nos seus modos, respondeu-lhe o outro no mesmo tom.
—Nem sei como me contenha... Estou cego de raiva... Que presente me mandou o Chico!... É uma peste, este diabo melado... Vê uma rapariguinha e enche logo as bochechas para lhe dizer meia dúzia de pachouchadas e graçolas... Não está má esta!... um perdido. Nada... Isto não me cheira bem: vou ficar de olho nele. .
.
—Faz muito bem, apoiou Cirino.
—Vejam só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar Meyer distanciar-se, em boas me fui eu meter! . . . Se não fosse a tal carta do mano, o cujo dançava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma mulher que daqui a dois dias esta para receber marido... Deus nos livre que o Manecão o ouvisse... Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas... Vejam só, hem?... Sempre é gente de outras terras... Cruz! Também vi logo... um latagão bonito. .. todo faceiro... havéra por força de ser rufião.
Ouvia-o Cirino em silêncio.
—E mulher, prosseguiu o mineiro com raivosa volubilidade, é gente tão levada da breca, que se lambe toda de gosto com ditinhos e requebros desta súcia de embromadores. Com elas, digo eu sempre, não há que fiar... Má hora me trouxe este alamão... Mil raios o rachem!... E logo o Chico... Tenho agora que ficar de alcatéia... meter-me em tocaia e fazer fojos para que o bracaiá não me entre no galinheiro. Ora que tal!
—Também, breve se vai ele embora, lembrou Cirino a modo de consolo.
—Que o demo o leve quanto antes, replicou Pereira. Já estou todo enfernizado com o tal homem...
Neste momento, como que de propósito, voltava-se Meyer para os dois:
—Senhor Pereira, disse ele, ficarei em sua casa talvez umas duas semanas. Os burrinhos vão engordar no seu pasto e eu hei de fazer compridas viagens nesta sua fazenda, apanhando tudo o que nela encontrar... Ouviu?
Reprimiu o interpelado um gesto de viva contrariedade e, levado pelo instinto e dever de hospitalidade, de pronto respondeu, embora secamente:
—Fique duas semanas, ou dois meses ou dois anos. Já lho disse: a casa é sua, e palavra de mineiro não volta atrás. Quem esta aqui, não é o senhor, é meu irmão mais velho.
Agarrando então com força na mão de Cirino, acrescentou em voz surda e angustiada:
—Olhe, doutor; veja só isto! Que lhe dizia eu?... Ah! meu Meyer, quer se engraçar comigo, não é? Mas cá fico... e, uma vez avisado, nem dois, nem três me botam poeira nos olhos... Não é com essa! Nocência nasceu filha de pobre, mas, graças a Maria Santíssima, tem ainda pai com braço forte e muito sangue nas veias para defendê-la dos garimpeiros e cruzadores de estrada... Ele que não brinque com o Manecão; é homem de cabelinho na venta e se lhe bota a mão em cima, esfarela-lhe os ossos, como se fora veadinho do campo enroscado por sucuri...
Ia, contudo, Meyer, de todo ponto alheio ao temporal provocado por suas inconsideradas palavras e, sem dúvida, estimulada em suas reminiscências pela vista da menina que acabava de admirar, cantarolava entredentes uma velha valsa alemã, dançada talvez com alguma loura patrícia em épocas remotas e de menos rigorismo científico.
CAPÍTULO XIII
DESCONFIANÇAS
Muitas vezes, somos iludidos pela confiança: mas a desconfiança faz que sejamos por nós mesmos enganados.
(Príncipe de Ligne)
Quando o nosso saxônio entrou na sala em que estavam as suas cargas, vinha tão contente do agasalho recebido, da firmeza do tempo, das futuras caçadas de borboletas, que despertou a atenção do seu camarada José.
Estava este encostado a uma canastra, a esgaravatar, de faca comprida em punho, a planta dos pés, verificando se alguma pedrinha da estrada não se havia incrustado na grossa e já insensível sola.
—Homem, disse ele com familiaridade, Mochu está hoje muito alegre... Viu passarinho verde ?
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.