Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Se tal não foi a razão do seu procedimento, teve este por origem motivo diverso, mas correlativo. Bezerra, depois da última visita, por ocasião da qual Maurícia se negara a aparecer-lhe, não tornara ao engenho. Maurícia suspeitou que ele viria aquela tarde; e, pois não tinha ainda as forças que semelhante recepção exigia, aproveitou-se da aludida circunstância, no pressuposto, talvez falso, de diminuir uma dor que o espaçamento antes aumentava. O capricho natural da mulher, achou, então, ocasião para exercitar seu predomínio. Maurícia escolheu um dos seus melhores vestidos. Ao cabelo, que há três dias andava quase despenteado, deu ela forma graciosa que, ostentando a sua opulência, lhe deixou livre a ampla fronte, e descoberto o pescoço claro e esbelto. Maurícia estava encantadora.

Ângelo alcançou-a tanto que ela entrou na quadra deserta do caminho.

— Não podendo esquecer-me da senhora, vim pessoalmente receber suas ordens.

Maurícia não soube a princípio o que dizer. A sua surpresa fora grande. Confusão de prazer e descontentamento, de confiança e temor foi a primeira impressão do seu gesto, que ela não pode ocultar.

— Como eu estava longe de esperá-lo por aqui! — disse revelando com franqueza toda a sua violenta impressão.

A esse tempo Ângelo tinha-lhe oferecido o braço, e caminhavam juntos.

— Sabendo que todos aqueles de quem a senhora devia esperar auxílio tinha tomado o partido de seu marido, julguei do meu dever vir oferecer-lhe os meus serviços. Está tudo pronto. A viagem já está contratada. Nada nos há de faltar. Embarcaremos hoje mesmo, se o quiser. Tenha confiança em mim. Meu coração está com a senhora. Defendê-la-ei em toda parte. Sacrificar-me-ei, se tanto for preciso, por lhe ser agradável. Oh! nada me agradeça, nada me agradeça. Nada me deve. Eu, sim, tudo lhe devo. Não obstante as apreensões, as preocupações que me dominaram durante esta semana. tenho vivido mais nestes últimos dias do que vivi em todos os meus vinte e dois anos. Não percamos tempo. A senhora não tem uma pessoa por si, a não ser eu. Se demorar mais um dia no engenho, já não lhe será possível, talvez, escapar, às garras de seu marido.

Para que Maurícia ajuizasse do estado moral do bacharel não era preciso mais do que acabava de ouvir. Estas palavra veementes e desconexas acusavam tal excitação em seu amigo que produziam nela certa impressão de pavor. Conheceu que a paixão que inspirara a Ângelo tinha nascido com força descomunal como a criança mitológica que sufocava no berço as serpentes. Esta grandeza lisonjeou o seu amor próprio, e, ao mesmo tempo, assustou-a. A lembrança da sua última resolução, ela ainda a trazia na memória como sombra agoureira, e foi motivo para que os seus temores aumentasse ainda mais. Procurou em si forças para revelar-lhe esta decisão, e não as encontrou. Que não faria Ângelo, quando fosse sabedor de semelhante desenlace, que importava o aniquilamento da fé imensa que enchia os eu espírito e dava ao seu afeto as proporções de um poder sobrenatural?

Maurícia não teve coragem para derruir com algumas palavras o risonho castelo que o poeta levantara no coração.

“Não serei eu, disse ela consigo, repassada em amargura, não serei eu quem destrua este grande amor, esplêndida ilusão, que é obra minha; que eu própria gerei.”

Obedecendo a esta ordem de idéias, julgou prudente ocultar a verdade; e o fez, dando nova direção ao pensamento capital da prática encetada por Ângelo.

— Senhor, eu não posso deixar de agradecer-lhe tanta solicitude.

— Por que não dá o devido nome ao que chama de solicitude? Por que não lhe chama antes de amor?

— Tem razão. Posso eu ser indiferente a estas demonstrações do amor, que me vota? Este amor me cativa. Dá-me prazer e orgulho. Nunca tive quem manifestasse tão afervorado afeto por mim. Encontro, enfim, a felicidade no meio da maior desventura. Não o duvide: a desventura é o meu estado atual, não obstante a grandeza que seu coração me oferece, e que é um tesouro que não tem preço. Mas o que o senhor propõe é atualmente impossível. Para escapar a companhia do meu marido há meios mais convenientes do que a fuga. Martins não lhe disse que eu lhe falara de divorciar-me por justiça.

— Neste sentido, nada me disse; mas para que há de pedir a senhora aos tribunais a separação que já uma vez levou a efeito, e se pode realizar agora mesmo sem intervenção de ninguém?

— Não concorramos para um resultado que a precipitação pode tornar fatal.

— Não há precipitação. Uma carruagem poderá vir em menos de meia hora receber a senhora e D. Virgínia, e conduzi-las para o lugar do embarque. Ao amanhecer, estaremos longe, e dentro de trinta horas poderemos aportar no cantinho feliz, onde tenho meus pais que hão de receber-nos com o mais vivo contentamento, como se todos fôssemos seus filhos.

Tinham chegado a certo ponto, onde a estrada formava um ângulo. Havia aí uma grande árvore. A estrada estava deserta. As sombras da noite estendiam-se rapidamente. A paisagem parecia lançar nos espíritos vagas confianças, misturadas de pavores — contradição gerada pela luz que fugia e pelas sombras que adiantavam.

Diante dessa natureza, que era uma incitação muda, posto que irresistível, ao que as paixões oferecem veemente e embriagante, Ângelo parou tomado de delicioso sentir.

Pegando as mãos de Maurícia, pousou nela os olhos que despediam grandes brilhos azulados como as estrelas. Maurícia estava pálida e abalada. Nada disse. Recebeu, não sem prazer, na face o fulgor dessa inspeção, que o bacharel parecia querer levar-lhe no íntimo da alma.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2324252627...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →