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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— Mas, meu pai.... — balbuciou ele — eu não subi com ninguém: havia lá um homem muito malcriado que...

— Cala-te tolo; a culpa é tua. Que foste lá fazer?... e o que esperavas mais, misturando-te com semelhante canalha?... Viste lã algum homem de bem? aposto que não.

Eugênio, acabrunhado de dor e de vergonha, sofria as mais violentas e pungentes torturas; as lágrimas cintilantes lhe dançavam à borda das pálpebras, e os soluços abafados o sufocavam e embargavam-lhe a fala. Uma vez porém que se achava naquela cruel situação, inteiramente perdido no conceito de seu pai, visto que não era possível encolerizá-lo mais do que estava, Eugênio entendeu que não podia achar melhor ocasião de abrir-lhe sua alma e fazer-lhe a mesma confissão que já havia feito a sua mãe.

Mas faltava-lhe o ânimo; fez um violento esforço e balbuciou.

— Mas, meu pai... eu...

Não pôde continuar; as lágrimas e soluços até ali a custo contidos fizeram explosão tempestuosa. As primeiras palavras do menino abriram-lhes franca saída.

— Mas o quê?...

— Mas... eu não...

Nova explosão de soluços afogou-lhe a palavra.

— Eu não, o quê?... acabemos com isto, meu filho. — Eu não... tenho vontade de...

Aqui ainda os soluços abafavam-lhe a voz; a palavra fatal agarrava-se teimosa na garganta, donde um nó de soluços não a deixava escapar-se.

— Mau! acabe com isso — exclamou o pai impacientado; — não tem vontade de quê?... fale... pois um moço, um rapagão, que já anda em tafularias, não tem vergonha de estar aí a chorar como uma criança! vamos com isso; de que é que não tem vontade!

— De ser padre, meu pai.

Estas palavras o estudante as despejou da boca rapidamente, como se fossem brasas que lhe queimavam os lábios.

— Deveras!.. viva isso! muito bem, senhor meu filho! exclamou Antunes com sardônico sorriso. — Então com que não quer ser padre?... e isto sem dúvida porque quer se casar com a Margarida, não é assim, meu filho?

— Meu pai, exclamou o filho com um olhar e um tom de quem pedia compaixão ao desapiedado pai.

— És um tolo ainda, meu pobre filho; não sabes o que é o mundo ainda, e aquela rapariga te anda revirando os miolos.

— Meu pai, não é ela...

— Não me repliques. Estou bem certo que, se não fosse ela, não terias semelhantes caprichos. E pensas tu, que eu hei de consentir que deixes de seguir uma carreira tão bela e tão honrosa, para o que não tenho poupado dinheiro nem cuidados, por amor de uma... miserável?

— Oh, meu pai, não é assim; ela não tem culpa...

— Anda lá!... não cuides que podes enganar-me; bem te conheço e a ela também... mas deixemo-nos disto. Avia-te quanto antes para voltar ao seminário. Bem mal fiz em te mandar buscar contra o conselho dos padres. Basta de férias. Vai-te, e não me voltarás aqui senão ordenado. Depois de amanhã sem falta quero vê-lo pelas costas. Basta de tafularias.

Oh! miserando Eugênio! aquelas palavras esmagaram-lhe o coração. Partir, deixar Margarida, para não voltar senão dai a seis ou sete anos, talvez nunca, quem sabe? Esta idéia lhe gelara o coração como um prenúncio de morte.

Depois de amanhã sem falta! Estas palavras foram horríveis aos ouvidos do mancebo como os clangores da trombeta do arcanjo anunciando o fim do mundo; o presente, o passado, o futuro, o mundo, o espaço, tudo se esvaecia e parecia-lhe que sua alma se ia abismando aniquilada no seio das sombras eternas.

Não era porém mais do que uma vertigem que lhe escurecia os olhos e turbava os sentimentos e que o fez tombar sobre uma cadeira, banhado de suores frios. Seus olhos se cerravam e no meio de um disco de cores inflamadas se lhe apresentou a imagem de Margarida pálida e chorosa, acenando-lhe ao longe um derradeiro e triste adeus.

Antunes, que ao despedir os últimos raios de sua cólera havia voltado bruscamente as costas e se retirara, nada disto havia presenciado.

O delíquio foi passageiro; durou apenas alguns instantes. Com o coração ralado de angústia o mancebo foi procurar sua mãe, a ver se debaixo da asa maternal poderia encontrar abrigo contra os rigores inexoráveis da autoridade paterna, e algum alívio e conforto às amarguras de sua alma.

Achou de feito palavras de consolação e conforto nos lábios maternos; mas se a, mãe o tratou com menos rigor e aspereza, todavia a sua resolução de fazer Eugênio tomar ordens sacras não era menos inabalável que a do pai. A cena fatídica da cobra enleada na Margarida estava altamente gravada em seu espírito, e a senhora Antunes estava intimamente persuadida de que aquela serpente era o demônio, que viera insuflar no seio de Margarida o espírito maléfico para tentar seu filho, e que somente o hábito sacerdotal podia preservá-lo do caminho da perdição.

As doces palavras, as afetuosas exortações e conselhos da mãe trouxeram momentâneo lenitivo às amarguras do filho, mas não conseguiram desvanecer a nuvem sombria, que lhe envolvia o espírito e lhe pesava sobre o coração.

O sopro da brisa matinal pode varrer a névoa ligeira que touca o cabeço da montanha, mas não o vulcão carregado que traz no seio a tempestade.

CAPÍTULO XIV

(continua...)

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