Por Bernardo Guimarães (1869)
— Em que te pode afligir um fato tão simples, ó bela e mimosa filha do mais poderoso dos caciques? disse-lhe o venerando Andiara, a quem consultou depois.
Essa seta traspassando ao mesmo tempo duas inocentes pombas é o amor unindo para sempre duas almas puras.
Esta engenhosa e consoladora explicação calou no espírito de Guaraciaba, e nesse mesmo dia se desvaneceram todos os seus sombrios pressentimentos.
Gonçalo, que no meio da sociedade civilizada só se tinha afeiçoado por capricho e passageiramente a uma ou outra mulher, agora no meio das selvas sentia brotar com energia em seu coração o gérmen de uma paixão ardente e profunda pela mimosa e encantadora virgem dos Chavantes. Posto que visse que esse sentimento era correspondido de um modo inequívoco pela filha de Oriçanga, nem por isso o futuro se lhe antolhava muito sereno e limpo de tormentas. Sabia que o velho cacique, cioso do lustre de sua descendência, a destinava desde a infância ao jovem e garboso guerreiro Inimá, que também de seu lado a adorava extremosamente, e somente morto renunciaria ao seu amor. E Oriçanga, os pajés, os veteranos da tribo, a nação inteira enfim poderiam ver impassíveis a quebra de tão solenes promessas, e consentiriam de bom grado que a ilustre e formosa noiva de Inimá passasse aos braços de um obscuro estrangeiro, foragido e sem nome? Em outros tempos Gonçalo sem deter-se um momento em nenhuma dessas considerações a teria arrebatado à força de armas e despeito de Oriçanga, de Inimá e dos Chavantes, e teria arrostado o furor da tribo inteira só para possuí-la. Mas os longos infortúnios e reveses por que passara tinham domado um pouco sua índole impaciente e fogosa, tornando-o mais prudente e cauteloso.
Guaraciaba por sua parte ouvia com indiferença desde a infância falar-se em sua futura união com Inimá, e nunca ao nome desse guerreiro sentira palpitarlhe mais rápido o coração. Porém depois que conheceu o jovem estrangeiro, essa idéia tornou-se um peso para sua alma, e não concebia como poderia ser mulher de Inimá amando Itajiba. Mas seu coração, cheio da confiança que a inocência inspira, repousava no porvir e esperava que o céu aplainaria todas as dificuldades, e portanto abandonava-se sem reserva à paixão que a dominava.
Inimá, retraído na profundez das selvas com alguns dos Chavantes que lhe eram mais afeiçoados, continuava a viver afastado das tabas e quase sem comunicação alguma com o resto da tribo, e o desgraçado amante ignorava ainda que nesse mísero forasteiro, que deixara moribundo e crivado de golpes e somente digno de lástima e piedade, surgia contra ele um poderoso e formidável rival de glória e de amor.
Isolado no fundo das solidões procurava disfarçar o seu pesar e abreviar o tempo ansiosamente esperado de lavar sua afronta, cevando o seu furor nos fragueiros exercícios da caça, e perseguindo animais ferozes, como o touro batido e expelido da manada, que desabafa as iras entre rugidos furiosos escorchando troncos e rasgando a terra com as polidas pontas.
Um dia os dois amantes, enlevados em seus entretenimentos, transpondo arroios, descendo grutas e galgando colinas, não dando fé das distâncias que percorriam, nem das horas que se escoavam rapidamente, esquecidos das tabas, do tempo e do mundo, foram-se alargando mais que de costume em seu passeio pela floresta. Quando enfim já fatigados e percebendo-se do tempo, que fugia, lembraram-se de encaminhar seus passos de novo para as cabanas, acharam-se em considerável distância, e com o dia já quase a terminar sua carreira. O sol descambava rapidamente para o ocaso, e nuvens bronzeadas, que de espaço em espaço enchiam-se de fogo como estofos de algodão ardente, anunciavam iminente tempestade. Itajiba, que desconhecia aqueles lugares, onde pela primeira vez penetrava, e que se achava algum tanto confundido pelos giros e voltas que dera pela floresta, subiu a uma eminência a fim de procurar orientar-se; mas o negrume do ocidente, impelido por uma rija ventania, começava a apoderar-se de todo o horizonte; o sol se escondera completamente entre um montão de negras e carregadas nuvens, e Itajiba, cercado por todos os lados de horizontes nublados e morros cobertos de florestas, não podia atinar com o rumo das habitações dos Chavantes.
Por si só nada receava Itajiba, afeito a assoberbar todos os contratempos suscitados pelos homens ou pelos elementos; nem tão pouco sentia-se sem coragem para proteger contra quaisquer azares naquelas solidões a frágil e mimosa criatura que tão cheia de confiança o acompanhava. Ele bastaria para Guaraciaba, como Guaraciaba era todo o seu mundo ou antes o seu céu. Mas a sua longa ausência, o sol que baixava, a tempestade e a noite, que se avizinhava, as suspeitas e susto de Oriçanga e de todos os Chavantes crendo perdida sua Guaraciaba e talvez roubada por ele, em quem tão generosamente se fiara, e sobre quem iam recair ainda que por momentos suspeitas da mais negra deslealdade, tudo isto eram reflexões que o enchiam da mais cruel inquietação.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.