Por José de Alencar (1878)
No fim do crepúsculo, quando as sombras se condensavam entre as árvores, saíram os noivos à chácara para espairecer. Sem intenção e sem consciência, Amália dirigira o passeio justamente para aquele banco onde outrora Julieta sentava-se todas as tardes com o marido.
Hermano a princípio a tinha acompanhado sem observação, mas visivelmente contrariado, o que a noiva não percebeu por ter volvido os olhos para a casa paterna. Quando, porém, a moça ia sentar-se no banco, ele irrefletidamente impediu-lhe o movimento com o braço, e obrigou-a a afastar-se.
— Não se sente aí Amália.
Amália, surpresa por aquele gesto, que não era um abraço, reconheceu o sítio e adivinhou a razão da repugnância do marido. Sua alma confrangeu-se. O erro, o erro fatal, que ela tanto receou, estava consumado.
Calou-se, porém, e seguiu silenciosamente o marido que, para disfarçar a ocorrência, falava-lhe com volubilidade dos planos que tinha para embelezamento da chácara, a fim de que Amália achasse aí todos os encantos, quando, fatigada da sociedade, se deixasse ficar no seu retiro para repousar.
Notando afinal a mudez e esquivança da moça, compreendeu que a impressão fora profunda; e para serenar-lhe o espírito renovou os protestos tantas vezes repetidos de que ela era sua felicidade, sua vida, sua alma.
— lludiu-se, Hermano, e eu também. A sua felicidade, se alguém lha pode dar neste mundo, não sou eu; e Deus sabe que sacrifícios eu não faria para merecer esta graça!
Amália proferiu estas palavras com uma tristeza maviosa e afastou-se para que o marido, apesar do escuro, não lhe visse as lágrimas.
— Não tem razão, Amália. Se eu me lembrasse de oferecer-lhe uma flor, já usada por outra
senhora, não a rejeitaria ofendida? E me condenaria, se eu procurasse antes para dar-lhe uma destas violetas, abertas agora mesmo com o sereno da noite, cheias de perfume e colhidas por mim em sua intenção? Pois assim deve ser também com as flores d'alma. Eu não pude nascer no dia em que a conheci, para que minha vida começasse com o meu amor. Quero, porém, despir-me do homem que fui, porque esse não lhe pertence, e portanto não existe mais.
— Então é por mim? perguntou a moça com surpresa
— Pois duvidava?!
Amália sorriu. A nuvem se tinha desvanecido; seu céu de amor estava outra vez límpido e sereno.
Entretanto quando, ao recolher, ficou só como na véspera, pensou consigo que se Hermano a amasse tanto quanto ela o amava não teria lembrança para quanto não fosse o seu amor. A filha não esquecia perto dele a mãe de quem nunca se apartara até aquele dia? Por que não esquecia ele também uma pessoa finada desde cinco anos?
Achava alguma razão nas palavras do marido; mas dispensaria de bom grado aquela delicadeza. Desejaria antes ser querida por Hermano com tanto anelo e transporte que tudo para ele fosse novo nessa casa, nesses sítios, cheios do passado.
Apreciava a pureza das flores d'alma recém-abertas ao seu influxo; mas também pensava que em uma alma completamente regenerada pelo amor, já não devia de haver flores murchas e fanadas, como eram essas recordações que pungiam o marido.
Os três primeiros dias depois do casamento, Amália e Hermano os passaram no mesmo delicioso a sós. Comiam no retiro do toucador, não como casados da véspera, mas como namorados em partida campestre, às ocultas.
Esse cunho de improviso e de folia era o que mais encantava Amália. Ela que sempre fora menina e travessa queria descontar agora os dias de tristeza. A solenidade da vida conjugal e a serenidade da posição de dona de casa assustavam a seu gênio faceiro. Assim, esquivando-se a pretexto de recato e acanhamento, retardava o momento de assumir suas graves funções.
Chegou, porém, o dia.
A mesa estava servida para o almoço. Amália tomou a cabeceira e o marido sentou-se ao lado.
— Onde está Abreu? perguntou o dono da casa. Chame-o!
A voz de Hermano tinha uma severidade desusada. Nunca Amália ouvira aquele timbre. Ela fitou o semblante do marido, e notou a expressão áspera de sua fisionomia e o olhar imperativo com que ele recebeu o velho criado.
Abreu aproximou-se da mesa com o passo ríspido dos soldados; dobrou a cerviz por um movimento de engonço, e perfilou-se.
Quando Hermano passou-lhe o prato destinado a Amália, ele o conservou na mão imóvel. Foi preciso que o amo lhe desse ordem terminante:
— Para a senhora!
Então, sem voltar-se, estendeu o braço e pôs o prato na cabeceira. Nem então, nem depois, durante todo o almoço, o seu olhar, que ele tinha sempre levantado, buscou a dona da casa.
Não a queria ver, e não a viu.
Capítulo 16
Tinham decorrido quinze dias depois do casamento.
Amália já não podia esconder a sua tristeza. As apreenções, que a haviam assaltado antes, aí estavam realizadas. Sacrificara-se para fazer a felicidade do homem a quem amava, e essa união ia tornar-se um suplício cruel para ambos.
Nos primeiros dias, a moça, enlevada pelos lirismos do coração virgem, sentiu-se feliz. Em sua inocência, não desejava mais do que possuía. As efusões de Hermano, sua palavra comovida, seu olhar terno e fagueiro sorriso bastavam para encher-lhe a alma e transbordar.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.