Por José de Alencar (1872)
Novo aceno exprimiu a ignorância da moça a respeito do motivo por que Ricardo não vinha. Contudo o tato de sua alma de mulher lhe indicava, embora vagamente, a natureza daquele motivo.
- Ele é pobre, pensava ela, muito pobre; há de ser suscetível portanto.
Talvez Ricardo se ofendesse com o convite, feito por intermédio de um criado; e a sua resposta de que havia de “escrever agradecendo”, manifestava bem seu pensamento: era mais do que um simples criado: era um homem da confiança de seu pai. O convite por este intermédio parecia-lhe tão delicado, como por carta, sem a solenidade que ela justamente não lhe queira dar.
Se Guida desejava anteriormente a presença do moço em sua casa, agora mais que nunca. Duas razões atuavam em seu espírito. A contrariedade do obstáculo e a vontade de desvanecer uma ofensa involuntária. O que fora até então uma lembrança delicada apenas, mudava-se em capricho.
Capricho? Quem não sabe o que isso é? A palavra o está dizendo. É a alma da mulher que se precipita sobre uma idéia, com a mesma temerária vivacidade e petulância da cabra selvagem a arremessar-se pelas arestas do despenhadeiro.
Guida sentou-se ao piano e começou a preludiar. Não tardou que o Guimarães se aproximasse, atraído pelo ímã, e bordasse sobre o tema da música uma dessas falas que parecem um crochê de palavras de diversas cores. A moça tomou interesse na conversa, e prolongou-a por algum tempo; mas interrompeu-se de repente como se lhe ocorresse uma idéia:
- Não pretende apresentar hoje seu amigo, Sr. Guimarães?
- Como? Que amigo?
- Já se esqueceu? Com efeito!
- Ah! lembro-me. O Nunes. Mas hoje?
- Então quando há de ser?
- Qualquer outro dia.
- Se não for hoje, que ele está na Tijuca, nunca mais o senhor achará uma ocasião para apresentá-lo. Amanhã estou certa que já nem se lembrará disso!
- Sou esquecido, é verdade; mas da senhora, D. Guida, lembro-me até demais.
- Pois lembre-se menos de mim, para se lembrar mais do que prometeu a meu pai. Vá buscar o amigo!
- Agora?
- Neste momento, disse Guida levantando-se.
- Mas se não sei onde ele está!
- Daniel há de saber. Vou dizer-lhe que sele o seu cavalo e o acompanhe.
Chegando à porta, a moça deu as ordens necessárias.
- Mas, D. Guida, confesso-lhe que poucas relações tenho com o Nunes; depois que nos formamos há seis anos, é a primeira vez que nos encontramos. Mesmo em São Paulo, nunca fomos amigos; apenas conhecidos. Chegou à corte, não o visitei. Não me julgo pois com direito a procurá-lo assim de repente...
- Tudo isto o senhor devia ter pensado antes de se comprometer: agora tenha paciência. Seu pai costuma dizer que dívidas não se perdoam.
- Ainda há uma razão. Eu sei que o Nunes pôs aqui um escritório de advocacia, porque vi o anúncio; mas se procede bem, se é homem fino, capaz de entrar na primeira sociedade, ignoro. Não posso portanto tomar sobre mim a responsabilidade de trazer à casa do comendador um moço que pode praticar algum ato...
Guida sorriu.
- Esse receio não tenha: eu o absolvo da responsabilidade.
- Mas o comendador?
- Fica por minha conta.
- Não! não devo abusar.
Guida olhou o moço com ar resoluto:
- O senhor não vai?
- A senhora fica zangada comigo?
- Oh! não; muito agradecida ao contrário!
Soltando essa frase cheia de ironia, a moça deixou o Guimarães atordoado; e voltou-se para sua mestra, que lia nesse momento um número da Illustrated London News.
- Mrs. Trowshy, a senhora hoje há de jantar perto do Sr. Guimarães.
Se ainda restava ainda alguma hesitação no espírito do filho do procurador, desvaneceu-se de súbito e completamente diante daquela terrível ameaça. Jantar perto da inglesa significava o mesmo que ficar-lhe hipotecado pelo resto da tarde e por toda a noite. Para evitar essa calamidade, Guimarães entendeu que não lhe restava outra saída senão obedecer ao capricho da menina partindo em busca do colega.
- Já vou, D. Guida!
- Ah! Esquecia-me dizer-lhe que seu colega tem um amigo, um companheiro; é preciso convidar a ambos.
- Sim, senhora; cumprirei a sua ordem. Mas não me condene a jantar perto da mestra.
- Se trouxer quem o substitua! disse Guida rindo.
- Fica a meu cuidado!
Guimarães montou a cavalo e partiu com o Daniel. Todo esse episódio não escapou, nem ao Bastos recostado à janela, nem ao Nogueira que passeava no jardim. O último não vira o diálogo trocado entre a Guida e o Guimarães; mas bastou a partida deste, acompanhado pelo criado da casa, para excitar-lhe apreensões.
Animado pela ausência dos dois competidores, só em campo, o Bastos, mais desassombrado de espírito, descobriu afinal o meio de solicitar a atenção da filha do milionário:
- D. Guida! disse ele com a voz um pouco trêmula.
- Chamou-me? Perguntou-lhe a moça voltando-se.
- Como há de querer então os brincos?
- Que brincos, Sr. Bastos?
- Pois não me pediu no almoço para mandar fazer-lhe uns brincos do feitio dessa flor? Replicou o corretor rubro como um tenor sem voz quando dá um dó de nariz.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.