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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

A donzela correu com os olhos toda a casa, como se esperasse a presença de mais alguém; foi ao terreiro da casinha e frustrada em sua esperança, dirigiu-se à ama com uma carinhosa exprobração: 

— Que é feito de Arnaldo, mamãe Justa? Há três dias que chegámos e ainda ninguém o viu. 

— Arnaldo? Minha filha não sabe? É verdade que eu nem me lembrei de contar-lhe. 

— O que? perguntou a moça inquieta. Que lhe aconteceu. 

— Nada de mal. Foi que, no mesmo dia da saída do senhor capitão-mór, êle veio despedirse de mim, que também ia fazer uma viagem. 

— Aonde? 

— Não disse; mas eu cuido que é para as bandas da Serra Grande, atrás de uns barbatões que o vaqueiro Inácio Góis pediu-lhe para agarrar. Nisso de campear não há quem lhe ganhe. Em todo êste sertão não havia vaqueiro como o sr. Louredo, meu defunto que Deus tem. Pois o filho ainda passa. Minha Flor não se lembra daquele novilho que êle foi pegar lá no fundo do Piauí? Gastou três meses; mas trouxe o mocambeiro amarrado à argola da cilha. 

A donzela prestava à ama vaga atenção, distraída por uma idéia que a notícia suscitara em seu espírito. Mas, desprendendo-se dessa cisma interior, tornou à conversa. 

— E mamãe não tem mêdo que lhe aconteça alguma coisa, aí por êsses desertos? 

A sertaneja abanou a cabeça com um gesto de confiança, e o rosto banhado de um ingênuo orgulho: 

— Que lhe há de acontecer? 

— Eu sei? algum perigo. 

— Está defendido. Enquanto tiver no pescoço o bentinho, não lhe acontece mal. 

— Aquele relicário vermelho? 

— Ninguém sabe quem deitou, respondeu a sertaneja afirmando com a cabeça. No mesmo dia de nascido, apareceu com êle e não se viu entrar em casa viva alma, nem a criancinha saíu da minha rede. Só quando eu acordei, ainda assim como sonhando, sentí um cheiro de incenso e vi uma alvura que me cegou. Havia de jurar que eram asas de anjo. Quando olhei para o pequenino êle estava rindo-se e a brincar com o relicário, como se já tivesse juízo para entender. 

— Nunca me contou isso, mamaãe Justa! observou a menina surpresa. 

— Meu homem não gostava que eu falasse nestas coisas, e então ficou no esquecimento o milagre do bentinho. Mas o senhor capitão-mór e a dona sabem tudo. 

— Então êsse relicário tem a virtude de livrar a pessoa de qualquer risco e desastre? 

— De todo o perigo, seja do fogo ou d’água, de ferro ou veneno, respondeu a ama com o tom da mais profunda convicção. 

— Esta certeza que você tem, mamãe Justa, é que eu não vejo. Só por que não se sabe donde veio o relicário? 

— Pois não está se vendo, meu bem, que foi um anjo que o pôs ao pescocinho da criança, mandado por Nossa Senhora da Penha de França? Porque eu o tinha oferecido à Mãe Santíssima para seu devoto, quando ainda o trazia nas minhas entranhas, e então ela quis protegê-lo. Agora repare que, saindo Arnaldo um menino tão travêsso que ninguém podia com êle, nunca lhe aconteceu nada, mesmo nada; nem um arranhão de unha de gato, ou uma queda da goiabeira. Sumia-se um dia inteiro, metia-se no mato, ou andava cercando os magotes para montar nos poldros bravos, e estava mais seguro por lá, do que se eu o guardasse aquí junto de mim, no terreiro. Não se lembra daquela pobre, aí para as bandas de Russas, que enquanto ensaboava uma roupinha, os porcos lhe comeram o filho, mesmo dentro de casa? 

— Coitada! Esqueceu-se de fechar a porta. 

— Se tivesse proteção do céu pdia deixar aberta, ainda que lhe andassem as onças no terreiro. Era o mesmo que se um benzedor lhe fizesse o signo Salomão no batente: ninguém entrava. 

— Agora por falar nas travessuras de meu colaço, mamãe Justa, lembrou-me de uma coisa que me sucedeu na viagem. 

— Pois conte, meu querubim, que estou mesmo ansiosa de saber como lhe foi por lá pelo Recife, se achou muito bonita a cidade e teve festas e regozijo? 

— Depois contarei tudo. Agora é só o que sucedeu na ida.

— Pois sim. 

— Estávamos já perto do Recife e tínhamos atravessado um rio chamado das Tabocas, onde se deu uma grande batalha no tempo dos Flamengos. 

— Sei; o velho Anselmo sempre falava nessa guerra que também êle andou por lá pelejando. 

— Eu ia adiante equipando, quando um cavalo bravio, que andava pela várzea a pastar, ocorreu furioso para brigar com o lazão. 

— Jesús! Que perigo! 

— Foi apenas o susto. Quando o cavalo se atirou como uma onça para morder o lazão, um homem apareceu não sei donde que o agarrou pelas orelhas e saltou em cima. 

— Bravo! Já estou-lhe querendo bem sem o conhecer. 

— O cavalo corcoveava pela várzea, que parecia uma cabra; mas o sujeito meteu-lhe as esporas e lá se foram os dois aos trancos, pela várzea fora. Foi então que me lembrei de Arnaldo quando montava em pêlo nos poldros bravos, e andava a escaramuçar pelo campo até amansá-los. 

— É verdade; era um capetinha. Mas o susto não fez mal à minha filha? perguntou a ama com terno desvêlo, como se falasse de um perigo recente. 

(continua...)

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