Por José de Alencar (1860)
Carolina – Vê se dão alguma coisa por ela... e compra-nos água de flor! Tenho uma sede!...
Luís – Vai sair?...
Helena – Vou à botica; volto já.
CENA XI
(Luís e Carolina)
Luís - Está sofrendo muito, Carolina?
Carolina – Muito!... Mas enquanto sinto a dor não penso... Não me lembro!...
Luís – Incomodam-lhe as recordações do passado?
Carolina – Envergonho-me do que sou, Luís! Creio que não há martírio como este a que me condenei. Agora é que entendo as palavras que me disse naquela noite.
Luís – Procure esquecer, Carolina...
Carolina – Não é possível. Seria preciso arrancar a alma deste corpo, e ainda assim ela se lembraria.
Luís – O tempo há de acalmar essa excitação.
Carolina – Duvido!... Se soubesse, Luís, que mistérios profundos encobre esta vida! Quem vê uma dessas mulheres, sempre alegre e risonha, vestida ricamente, zombando de todos e de tudo, não adivinha o que se passa dentro daquele coração, não sabe que miséria se esconde sob essa aparência dourada!... É o desprezo do mundo, começando pelo desprezo de si mesma! O vício a torna incapaz de qualquer afeição, até mesmo do egoísmo!...
Luís – Compreendo!...
Carolina – Mas o que não compreende, nem pode compreender, é a tortura que sofre essa mulher por causa de seu próprio erro. Para ela a beleza é tudo! É o luxo, é a estima, é a vaidade, é o sustento, é a existência enfim! Com que susto lança ela os olhos para o espelho a todo o momento para interrogá-lo!... E com que ansiedade espera a resposta muda desse juiz implacável que pode dizer-lhe: "Tu já não és bonita!" A menor sombra, a palidez, o cansaço de uma noite de vigília, lhe parecem a velhice prematura que vem destruir assuas esperanças, e condená-la à miséria.
Luís – Com efeito deve ser cruel!
Carolina – E quando chega o dia em que a moléstia lhe rouba as cores, a formosura, a mocidade, e da moça bonita que todos admiravam faz uma múmia; quando vem a pobreza, e é preciso, para não morrer de fome... vender-se!... Oh!... É horrível!.. Prefira, Luís, vender o meu sangue gota a gota.!...
Luís – Sossegue, Carolina! Esse horror que lhe causam as faltas que cometeu, é já o sinal do arrependimento, ele lhe dará a força para repelir essa existência.
Carolina – Se fosse possível!...
Luís – Como? Que diz?
Carolina – Por mais forte que seja a vontade, Luís, há ocasiões em que a necessidade a subjuga! Quem sofre privações não reflete, não pensa...
Luís – Então é isso que a aflige?
Carolina – Como deve ser amargo o sustento ganho com tanta vergonha e tanta humilhação!...
Luís– Mas, Carolina... A minha presença deve tranqüilizá-la.
Carolina – Obrigada, Luís. Não posso... É um orgulho ridículo, bem o sei. Porém nunca aceitarei...
Luís – Nem de mim, Carolina?
Carolina – De meu primo, menos do que dos outros!...
Luís – Por que razão?
Carolina – Não se lembra?
Luís – De quê?... Não... Não me lembro!...
Carolina – Não lhe disse uma vez!... No meio dessa existência louca não perdi de todo a minha alma. Uma afeição a salvou. Supliquei-lhe um dia que a aceitasse. Depois que a suportasse apenas! Recusou e eu lhe agradeço! Conservei puro e virgem esse amor!... Não me obrigue a fazer dele um dever.
Luís – Pois bem, Carolina, não quer aceitar de mim, aceite de sua mãe.
Carolina – De minha mãe?...
Luís – Não deseja vê-la?
Carolina – Queria pedir-lhe, mas não me animava.
Luís – Adivinhei o seu peso.
Carolina – E me perdoará ela, Luís?
Luís – Já perdoou.
Carolina – Ah!... (Recosta-se extenuada)
CENA XII
(Os mesmos e Helena)
Helena – Demorei-me, porque a botica é longe.
Carolina – Dá-me; tenho uma sede!
Helena – estás com febre! Não tomes em água fria. Vou fazer-lhe um chá. Sim?
Carolina – Como quiseres... A cabeça arde-me!...
Luís – Veja se consegue dormir um pouco.
Carolina – Antes acordada! Se durmo tenho sonhos horríveis! Vejo meu pai como naquela noite! Minha mãe que chora... Dê-me a sua mão, Luís... Deite-a sobre minha cabeça... assim... Talvez me tire este fogo... (Pausa) A vela apagou-se?
Luís – Incomoda-lhe a falta de luz?
Carolina – Tenho medo!... No escuro é que me aparecem as visões...
Luís – Espere um momento.
Carolina – Onde vai? Não me deixe!
Luís – Volto já; vou ver luz. Não quer?
Carolina – Sim!... Sim!...
Luís – Helena!
Helena – Chamou-me?
Luís – Levou a vela?
Helena – Para fazer o remédio.
Luís – Não tem outra?
Helena – Esqueci-me comprar. Mas a venda é aqui junto; vou num momento.
Luís – Deixe estar; irei eu mesmo. Faça o que ela lhe pediu.
Helena (à Carolina) – Não te agonies; já está quase pronto.
CENA XIII
(Carolina e Antônio)
Antônio – Ó de casa! Menina!... Deixaste a porta aberta? Ah! Ah! Ah!
Carolina – Quem anda aí?
Antônio – Sou eu. Onde estás?
Carolina – Mas quem é?
Antônio – Tu não
me conheces, mas é o mesmo! Por que estás no escuro?
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.