Por Visconde de Taunay (1872)
Riu-se Pereira do equívoco e, explicando-o, continuou a discutir com o seu interlocutor, que não discrepava uma linha dos seus princípios de método e escrupulosa polidez.
—Pode o senhor falar um ano inteiro, disse o mineiro para concluir; mas quanto a mim, não entendo patavina das suas contas e jigajogas. Quem me tira da tabuada, bota-me no mato... E agora, vamos agradecer a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo o ter-nos dado esta comida, ainda que insuficiente e mal temperada.
E, unindo o exemplo à palavra, levantou-se e, de mãos postas ao peito, orou em voz baixa com unção, no que foi imitado pelos dois hóspedes.
—Esteja convosco o Senhor, disse ao terminar, em voz alta, persignando - se. —Amém, responderam Cirino e Meyer.
—Agora, anunciou o mineiro saindo da mesa, vou dar um giro pela minha roga, onde estão na capina três negros cangueiros, um dos quais é o meu fazendeiro; depois, hei de visitar uns conhecidos meus, avisando-os da sua chegada, doutor. Ah! acrescentou todo desfeito em amável sorriso, falta-lhe mostrar minha filha, Senhor Meyer.
—Sua filha! exclamou o alemão. Então tem filhos?
—Sim, senhor. Não se lembra que o seu vulto é o do mano Chiquinho? Pois então? Que maior prova lhe posso dar de confiança e amizade?... Não é verdade, Senhor Cirino?
—Sem dúvida, balbuciou a custo o mancebo.
—Minha filha chama-se Nocência e só hoje é que se levantou da cama... Esteve doentinha... Assim mesmo, não sei se as maleitas a deixaram... O corpo é às vezes caroável dessas malditas e...
—Isto está ao meu cuidado, atalhou Cirino com alguma pressa. Ainda ao meio-dia há de tomar quina...
—Vosmecê faça o que for melhor... Quer vir, Senhor Meyer?
—Pois não! pois não! respondeu amavelmente o alemão.
— É a única pessoa da família que tenho aqui, além de um marmanjão que está agora na carreira por essas estradas, agenciando a vida... Então, vamos! Venha também, continuou ele voltando-se para Cirino, um cirurgião é quase de casa.
Saíram, pois, os três. Pereira na frente, seguiu o oitão da direita, e, abrindo uma tranqueira do cercado dos fundos, entrou pela cozinha, onde a velha preta Conga estava lavando pratos e arrumando louça numa prateleira.
CAPÍTULO XII
A APRESENTAÇÃO
Quem, porém, mostrava mais surpresa o admiração era Sancho Pança. Nunca, em dias de sua vida, vira perfeição Igual.
(Cervantes, Dom Quixote, CXXIX)
Ao bálsamo, fazem as moscas. que nele morrem, perder a suavidade do perfume. Uma parvoíce, ainda que pequena e de pouca dura, da motivo a não se ter em conta nem sabedoria nem glória
(Eclesiástes, X).
Depois de atravessarem um quarto bastante escuro, chegaram os visitantes a sala de jantar, vasto aposento ladrilhado, mas sem forro, a um canto do qual estava a filha do mineiro, mais deitada do que sentada numa espécie de canapé de taquara.
Tinha os pés sobre uma bonita pele de tamanduá-bandeira, onde se acocorara, conforme o hábito, o anão a quem Pereira chamara Tico.
Ao ver chegar tanta gente, abriu a formosa menina uns grandes olhos de espanto; quis toda enleada erguer-se, mas não pôde e, corando ligeiramente, teve como que um delíquio de fraqueza.
Aproximara-se logo Cirino com vivacidade.
—A dona, disse ele para Pereira, esta tão fraca que mete do.
Chegou-se o pai juntamente com Meyer e, tomando as mãos da filha, perguntou-lhe com voz meiga e inquieta:
—Sente-se pior, meu benzinho?
—Nhor-não, respondeu ela.
—Pois então!... preciso não entregar o corpo à moleza... Abra os olhos... Olhe... esta aqui este homem (e apontou para Meyer) que é alamão e trouxe uma carta do tio de mecê, o Chico, lá da Mata do Rio. Quero mostrar que, para mim, vale tanto como se fosse esse próprio parente tão a nós chegado. Por isso é que venho apresentá-lo...
Ela nada articulou.
—Vamos, diga... Tenho muito gosto em lhe conhecer... diga.
Com vagar e acanhamento, repetiu Inocência estas palavras, ao passo que Meyer lhe estendia a mão direita, larga como uma barbatana de cetáceo, e franca como o seu coração.
—Gosto, muito gosto tenho eu, disse ele com três ou quatro sonoros arrancos de garganta. Só o que sinto é vê-la doente... Mas o doutor não nos deixará ficar mal; não é, Senhor Cirino?...
E apoiou esta pergunta com um hem? que ecoou por toda a sala.
—A senhora, respondeu o interpelado, precisaria tomar por alguns dias um pouco de bom vinho do Porto, em que se pusesse casca de quina do campo... Mas, onde achar agora vinho? Só na Vila de Sant'Ana . . .
—Vinho? perguntou Meyer.
—Sim.
—Vinho do Porto?
—Melhor ainda.
—Pois tudo se arranja, na minha canastra tenho uma garrafa do mais superfino e com a maior satisfação a ofereço à filha do meu pom amigo o senhor Pereira.
—Oh! Senhor Meyer, agradeceu este com efusão, não sabe quanto lhe fico . .
.
—Qual! não tem obrigação, não, senhor. Além do mais, sua filha é muito bonita, muito bonita, e parece boa deveras... Há de ter umas cores tão lindas, que eu daria tudo para vê-la com saúde...
Que moça! . . . Muito bela!
Estas palavras que o inocente saxônio pronunciara ex abundantia cordis produziram extraordinário abalo nas pessoas que as ouviram.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.