Por Franklin Távora (1879)
Em lugar dessa divindade rutilante, que devesse à arte do toucador a metade dos seus primores e milagres, ele fora achar na praia longínqua e pobre a filha do pescador com seu vestidinho curto e estreito, as chinelas grosseiras, o cabelo desleixadamente atado, uma flor entre as tranças, uma fita na cinta. Convivendo com os pescadores, ouvira referir-se ás novenas na capela, aos fandangos, aos bois, tradicionais brinquedos com que se costumam celebrar o Natal por aquelas praias, onde ainda se observam muitos dos hábitos do tempo do rei velho. Nenhuma dessas belezas rústicas lhe falara, como as jovens praianas das representações teatrais, dos bailes ruidosos, das festas esplêndidas, que ele, mau grado seu, não podia esquecer no meio dos seus desgostos, e cuja lembrança, avivando-lhe a dor de as haver perdido, mais aumentava a intensidade deles. Então, quase descrente, o espírito fatigado de procurar em vão ídolo para seu culto, o coração ermo de amor e só povoado de sombras que aí projetavam as asas negras do infortúnio, voltava-se aos painéis da Natureza, e em contemplá-los achava força e alentos afim de não morrer de todo. Eis porque tornado ao Recife, trouxera a alma desacompanhada, sincera e impressionável.
Às cinco horas da tarde, Ângelo entrou na Estrada Nova. Alugara um cavalo na melhor cocheira do Recife e seguira amparado das primeiras sombras da noite, manto protetor dos namorados.
Era levado ali pela intenção de encontrar-se com Maurícia; mas, podendo acontecer que tal encontro se não realizasse, conduzia a carta que sabemos, e que ele esperava ter meios seguros de fazer que fosse entregue. Não são difíceis nos engenhos mensageiros dos que este serviço requeira.
O engenho ficava antes da povoação; mas Ângelo, ou porque havia ainda muito ar de dia ou porque imaginasse que podia encontrar Maurícia no povoado, passou pelo engenho, e foi parar à porta de uma cocheira, onde devia deixar o cavalo, a fim de ser menos ruidosa a sua excursão.
Ainda nenhum namorado foi melhor favorecido pelo acaso do que o bacharel neste arriscado passo. Mal descavalgava, um vulto simpático, em que ele imediatamente reconheceu Maurícia, passava pelo outro lado da estrada. A cocheira estava na última casa da rua, e entre ela e o engenho metia-se uma centena de braças. Este espaço era despovoado, e ordinariamente deserto. De certo ponto em diante, começava o cercado. Passadas obras de cinqüenta braças, era a pesada porteira. Os espaços que ficavam desta para o Recife e para Caxangá eram numa parte descobertos, mas em outras apresentavam-se protegidos por árvores sombrias.
Maurícia tinha saído a visitar uma discípula que morava no povoado. Era sempre acompanhada de Virgínia que ela se dirigia ao Caxangá para tomar lição a várias alunas que ali tinha; mas Virgínia saíra a passeio com Alice e Paulo para as bandas de Apicucos, quando lhe vieram dizer que aquela discípula estava doente. Os dias que se tinham passado depois das cenas representadas nos aposentos de Maurícia, esta os vivera na mais acerba tristeza. Comunicada a sua heróica resolução a Albuquerque, ela não descera mais do sobrado senão para as refeições. Não tinha olhos, não tinha alma, senão para ver interiormente a sua desventura, e pensar na incerteza do seu destino. Quando uma semana antes voltara de estrada de João de Barros, o pensamento que prevalecia entre outros muitos que lhe tumultuavam no entendimento era o de sacrificar todas as conveniências à manutenção da sua independência. Evidentemente, esta criatura estava fora do seu natural, quando não se dirigia por si mesma, quando era obrigada a aceitar o governo estranho para seus atos. Conhecendo o que valia, viera resoluta a defender a sua liberdade. Seu amor incipiente, mas já grande, fortificara-a neste intento e chegara a inspirar-lhe a carta que escreveu a Martins. Mas as circunstâncias tinham sido mais poderosas do que a sua vontade, tinham imposto cruelmente ao seu espírito a solução que ela mais temia, e que considerava a mais contrária ao seu futuro sossego.
Este golpe enfraqueceu as suas faculdades. Sobreviera o desânimo, e em conseqüência o isolamento. O piano, termômetro do estado dos seu afetos, tornarase silencioso. Enfim, Maurícia caíra nessa atonia moral, que parece indicar um estado mórbido do espírito, quando não passa de uma lenta consunção do coração. Mas aquela tarde uma como reação, proveniente talvez da impressão que produzia nela a notícia de estar enferma aquela amiga para quem tinha grandes preferências, viera dar-lhe novos alentos.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.