Por Bernardo Guimarães (1872)
muito bem! pois deixe-os andarem juntos... que mal faz isso?... deixe-os e espere pelo resultado.
— Cale-se, senhor Luciano! — bradou Umbelina roxa de cólera e batendo com o pé. — Pensa o senhor que por ter na algibeira uma pataca mais do que os outros pode dizer o que lhe vem à boca, e chegar a ponto de querer governar as filhas alheias?
Luciano quis responder, mas uma multidão de vozes aplaudindo Umbelina abafaram-lhe as palavras.
— Muito bem! muito bem, tia Umbelina!
— Tem carradas de razão, e aqui estamos para punir pela senhora.
— Saia! saia o desmancha-prazeres! — Fora o rusguento!
A filáucia e o tolo orgulho do rapaz arredavam dele todas as simpatias, e portanto, achou-se só no meio da tormenta que ele mesmo suscitara. Fulo de raiva, Luciano pegou no chapéu.
— Vou-me embora! — disse bufando — a culpa tenho eu de me meter no meio de gente baixa e sem educação. Adeus, senhora Umbelina!... pode estar certa que Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade nunca mais há de cruzar a soleira da porta de sua casa.
— Oh! oh! oh! senhor Luciano! replicou Umbelina com riso de mofa. — É pena que não tivesse essa lembrança há mais tempo.
Um coro de aplausos a Umbelina e de apupadas a Luciano acolheu estas palavras.
Enquanto rugia toda esta trovoada, Eugênio e Margarida, trêmulos e espavoridos, tinham-se retirado para um canto, cosendo-se à parede da casa postaram-se bem junto à janelinha de balaústres, que tantas vezes tinha ouvido seus suspiros e amorosas falas no mistério da solidão.
CAPÍTULO XIII
Esta pendência, que teria passado a vias de fato, se as mulheres, que formavam a grande maioria daquela reunião, não interviessem com os seus gritos e choradeiras, esfriou completamente o folguedo, que daí em diante perdeu toda a animação e pouco durou.
Dissolvida a reunião, Eugênio partiu para a vila, em companhia do amigo, que havia tão generosamente tomado a sua defesa contra Luciano. Receando algum desacato da parte deste, não quis que o filho de Antunes partisse só, e acompanhou-o até a vila, onde também morava.
Eugênio repousou o resto da noite em casa de seu protetor, e apenas rompeu o dia foi para a casa do primo, que servira de pretexto à sua escapula da fazenda paterna. Utilizando-se da autorização que o pai lhe dera, aí ficou dois dias.
Um negro fugido não tem mais medo de comparecer perante o seu senhor, como Eugênio se arreceava da presença, de seu pai depois do desaguisado do mutirão. Estava certo que aquele fato tarde ou cedo lhe chegaria aos ouvidos.
Se Umbelina e os outros convivas eram capazes de guardar silêncio e abafar aquela desagradável ocorrência, outro tanto não se podia esperar de Luciano, que por vingança seria o primeiro a tocar a caixa do pregão e até seria capaz de ir pessoalmente denunciar a Antunes todo o acontecido.
Passados dois dias o próprio Antunes foi à vila buscar seu filho.
Quando o algoz munido de baraço e cutelo se apresenta na masmorra do condenado, não produz mais horrível impressão do que a presença de Antunes produziu no ânimo do filho.
Levou-o todavia para casa sem dar mostras de que sabia alguma do negócio do mutirão. Eugênio resfolegava; mas a tormenta estava reservada para quando chegassem em casa.
— Agora, senhor Eugênio, assente-se aí, e vamos conversar um pouco — disse Antunes fazendo sentar seu filho diante de si. — Creio que já é tempo de parar um pouco em casa e ir-se arranjando para voltar ao seminário; ou ainda não estará farto de súcias?
Este tom de severa ironia aterrou Eugênio.
— Eu não estive em nenhuma súcia — respondeu timidamente. — Meu pai não me deu licença, para, ficar na vila, os dias que eu quisesse?
— Mas porventura dei-lhe licença para ir em mutirão algum?
— Eu!... "em" mutirão?... quem lhe disse isso? — Ora quem me disse!,.. quer acaso negar?...
O filho viu que estava perdido; calou-se, e de cabeça baixa esperou o desabar da tempestade.
— Com efeito1 senhor Eugênio! — continuou o pai sempre no mesmo tom; — vm.cê., pela maneira que vai, vem a dar um excelente padre! Enganar-me a mim para sair de casa e ir-se meter em suciadas e bebedeiras no meio de uma corja de peraltas e vadios! nunca tal esperei.... isto vai às mil maravilhas! E a tal senhora Umbelina com o chamarisco da sua boa filha, que anda-me aqui a desinquietar os filhos alheios, dando funçanatas e descantes! não cuida ela em rezar e dar educação à menina!... Deixe-a estar, que se não mudar de vida, terá de arrependerse; não estou mais para aturá-la em minhas terras. Se continuar assim, ponha a trouxa às costas, e procure seu rumo, ou case a filha e mande-a tratar da vida. Vm.cê., senhor criançola, com essa carinha de santo, já metido em tafularias altas, fazendo volta às raparigas, e metendo-se em rusgas por amor delas... se lhe tivessem moído os ossos a pau não era bem feito?... e eu e tua mãe com que cara havíamos de ficar?... ah! velhaquete!... que lindo padre se não está preparando aqui!....
Eugênio, trêmulo, confuso e de olhos no chão deixou cair sobre sua cabeça toda esta tremenda trovoada.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.