Por José de Alencar (1878)
Hermano era o mesmo cavalheiro fino e elegante, que seus amigos tinham conhecido dez anos antes. Se a flor da primeira mocidade passara, a fisionomia, como o porte, ganhara em distinção e naturalidade.
O Sr. Veiga festejou o casamento da filha com um baile suntuoso. Às duas horas começou uma dessas intermináveis quadrilhas que servem de remate ordinário a semelhantes reuniões dançantes.
A alegria era geral; e os noivos foram dos que mais se divertiram. Ambos eles renasciam para a vida brilhante dos salões da qual se tinham por algum tempo afastado; ela durante a sua tristeza, ele durante a sua viuvez.
Já o nascente bruxuleava, quando o baile formou-se em procissão para acompanhar os noivos à casa.
Capítulo 15
Voltando de reconduzir os seus hóspedes, Hermano aproximou-se do sofá onde Amália sentara-se.
— Estou caindo de sono, disse a moça conchegando-se com um gesto gracioso na longa capa de casimira que lhe cobria as espáduas, e as vestes de noiva.
— Por que não se recolhe? perguntou o marido.
Ela hesitou um instante; mas afinal, erguendo-se com um faceiro assomo para romper o casto enleio, dirigiu-se ao toucador e ali achou sua criada.
Às pressas açodadamente, como costumava quando recolhia-se tarde e fatigada dos divertimentos, trocou as sedas e atavios por um alvo e fresco roupão de cambraia com fitas escarlates, delicioso traje no qual ela parecia vestida de sua candidez e de seu pudor.
Sentou-se então no divã.
Estava tão fatigada! Tinha dançado como uma menina de colégio que vai ao seu primeiro baile. Não sentia o cansaço do corpo somente; o espírito também havia sofrido as emoções daquela noite e dos dias anteriores. Era feliz, tão feliz, que sua alma carecia de repouso.
Reclinou a cabeça no recosto do divã, e insensivelmente o seu lindo talhe descaiu lânguido. As pálpebras cerravam-se a seu pesar; mas ela fazia um esforço para abri-las. Tinha um vago susto de abandonar-se ao sono ali, sozinha; e também vexame de que Hermano viesse encontrá-la a dormir.
O marido entrou no toucador e chegando uma cadeira sentou-se defronte cautelosamente, para não perturbar o repouso da noiva. Ela não o sentira entrar; mas abrindo os olhos viu-o em face a contemplá-la com enlevo.
Sorriu-se, e dando-lhe a mão que ele guardou entre as suas, adormeceu como uma criança. A presença de Hermano inspirou-lhe nesse momento a mesma confiança, que outrora o afago materno; o amor a ninou.
Hermano demorou-se algum tempo a admirar a graça de Amália assim adormecida. Involuntariamente seu pensamento enleando-se nas reminiscências o transportou ao passado, à noite de seu primeiro casamento.
De repente, tornando daquele recordo ao presente, volveu o olhar em torno e ficou atônito de ver ali em face dele a mulher que pouco antes admirava, a esposa a quem se ligara havia poucas horas.
Ergueu-se pálido, demudado, espavorido, e afastou-se.
No dia seguinte, eram dez horas da manhã quando um raio de sol brilhante e alegre entrou pelo aposento de Amália como para festejá-la. Durante a noite, a moça acordara, e tonta do sono, buscara no próximo aposento o leito, onde refugiou-se.
Pela manhã a mucama abriu a janela do toucador; e uma réstia de sol batendo no espelho refrangera, acariciando o rosto mimoso da moça pousado em um ninho de rendas.
Ela abriu os olhos e saltou da cama, alegre como um passarinho.
— Sinhá quer tomar alguma coisa? perguntou-lhe a mucama.
— Eu quero almoçar, que estou com muita fome.
— Mando pôr na mesa?
— Não; aqui mesmo, no toucador.
Amália teve então uma idéia que lhe sorriu. Sentou-se à sua secretária, um mimo de marcenaria, e escreveu a seguinte carta em papel que ali achou, com o seu monograma:
"D. Amália Veiga de Aguiar tem a honra de convidar seu marido Carlos Hermano de Aguiar para almoçar em sua companhia, hoje, às onze horas, no seu toucador. O ménu fica por conta do convidado."
A moça fechou o seu convite e mandou-o entregar a Hermano, de quem sentia a falta perto de si. Ela não o censurava pela ausência; mas parecia-lhe que ele devia ter-se apressado em saudá-la logo pela manhã, e sobretudo nesse primeiro dia em que dormira na sua casa.
Hermano acudiu pressuroso ao convite; e os dois noivos almoçaram jovialmente perto de uma janela, que dava para o jardim, ouvindo cantar os passarinhos e aspirando a fragrância das flores, que o vento, soprando nas roseiras, esparzia sobre a mesa.
O resto do dia passaram nesse mesmo devaneio amoroso, lendo, recitando versos, recordando a breve história de sua afeição, e estremecendo ainda dos incidentes que os ameaçaram tantas vezes de uma separação eterna.
No meio destes lirismos, Amália escreveu à mãe uma carta cheia de ternuras; e D. Felícia veio fazer à filha uma rápida visita que a encheu de júbilo por ver seu contentamento.
O jantar foi a reprodução do almoço. Comeram ali mesmo no toucador em uma mesa volante, servidos pela mucama. Amália achava encanto nessa solidão a dois, em que nenhum olhar estranho e indiscreto vinha perturbar a sua casta felicidade.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.