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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Nesta matéria de casamento, meu caro doutor, eu sou a coroa, a Guida é o parlamento. Ela tem o direito de votar o projeto; eu limito-me à sanção do veto. Assim o pretendente, quero dizer, o ministro, se quiser orçamento, deve usar de toda a sua eloqüência no parlamento para derrotar a oposição. 

O comendador era pois um pai constitucional representativo. Assistia com imparcialidade à luta dos partidos, reservando-se contudo o direito de ensaiar habilmente o governo pessoal, quando fosse indispensável ao bem público. Além das três pretensões confessadas, havia no círculo do Soares um grande número de esperanças em botão, que não ousavam desabrochar; mas também não se resolviam a murchar. Ah! a esperança é uma das plantas mais vivazes que eu conheço; quando uma vez brotou no coração, não há meio de extirpá-la: é como a urtiga. Embora o ferro a corte, rebenta de novo. Só morre quando lhe esmigalham as raízes. 

Assim, apesar de reconhecerem a impossibilidade de sua realização, essas esperanças pululavam em torno da moça, como um bando de besouros verdes nas pétalas de uma rosa. Quando à noite, depois de algumas horas passadas na casa de Soares, se recolhiam, ao deitar-se balbuciava cada uma em seu aposento, por este gosto mais ou menos: 

- Este bigodinho!... pensava um, alisando diante do espelho o fino buço. Têm-se visto coisas! 

- O caso é que ela gosta bem de cantar comigo! sonhava outro, recordando um dueto do Hernani. 

- No fim de contas a elegância é o fraco das moças, murmurava o terceiro, requebrando o talhe bem torneado.

- Um homem que valsa como eu, chama atenção num baile. E o que é um baile senão a batalha campal, onde se conquista a beleza? exclamava um jovem oficial que fez a campanha do Paraguai nas tertúlias de Montevidéu.

- Que ela me acha engraçado, não há dúvida; ora, o riso é o caminho do coração, dizia um repetidor de pilhérias, espécie de bobo de sala, esfregando as mãos. 

Estas e outras esperanças viviam de ar, como os camaleões, e como eles, mudavam constantemente de cor: ora tinham o verde risonho da folha que nasce, ora o amarelo bronzeado da folha mirrada pelo sol, que o vento leva de envolta com o pó. 

 

IX 

 

Guida animava com a sua graça e gentileza os diversos grupos que se tinham formado na sala.  

No sofá, onde se conversava, ia sentar-se um instante para ouvir e interromper, excitando a réplica e provocando o riso com suas travessuras. No piano aparecia de repente, tocava ou cantava alguma coisa às pressas, e aproximando-se da mesa, mostrava às pessoas, que folheavam álbuns, lindas vistas da Suíça, da Escócia, de Sintra e da Tijuca. O Guimarães, que estava naquele dia em veia de felicidade, acompanhava a moça nessas evoluções com um certo ar pretencioso que não escapava às outras pessoas. Decididamente parecia que a preferência se manifestava pelo mais jovem e mais elegante dos pretendentes; tal foi pelo menos a opinião das senhoras que nesta matéria falam de cadeira. O Dr. Nogueira, despeitado com o remoque da Guida, na ocasião do almoço e a propósito da flor, conservava-se arredio; estava ainda no jardim fumando o seu charuto. Entretanto, quem o observasse com atenção conhecia que através das folhas das árvores ele não perdia de vista as janelas da sala. 

Bastos estava indeciso; não se animava a entrar em combate, nem se resolvia a abandonar o campo. Recostado à sacada pela parte de fora, mas completamente voltado para dentro, observava a moça, sem contudo esforçar-se por atrair-lhe a atenção. Bem desejava obter aquela ventura; mas sua imaginação ingrata não lhe suscitava um meio de realizar seu desejo. 

Teria decorrido cerda de uma hora depois do almoço, quando Mrs. Trowshy  mostrou a Guida a figura esguia do Daniel em pé na porta do interior. A moça aproximou-se do criado, que lhe disse: 

- Dei o recado; respondeu que há de escrever ao Sr. Comendador agradecendo.

- Escrever? Perguntou Guida. 

- Sim, senhora. 

- Então não vem? 

- Pode ser. 

- Bem! 

Guida herdara do pai certa impetuosidade do desejo, que foi a origem da riqueza do capitalista, e devia exercer na vida da filha notável influência. 

Depois do último encontro com Ricardo, naquela manhã, teve desejo de conhecer o advogado; desejo que revelou com franqueza na ocasião do almoço, pedindo a Guimarães que o apresentasse. Não confiando porém na promessa do moço, ao levantar-se da mesa, tomou o braço do pai e preveniu-o de sua intenção de mandar Daniel convidar a Ricardo da parte dele, Soares. 

- Manda! respondeu o pai com indiferença, habituado a confiar todas essas minúcias domésticas a mulher, que as abandonava à filha. 

O Daniel partiu imediatamente; e o resultado de sua incumbência  acabava ele de comunicá-lo à moça, com a sua imperturbável gravidade. 

- Is he coming? (Vem?), perguntou Mrs. Trowshy. 

Guida disse que não, com um ligeiro aceno de cabeça. 

- Why not? (Por que não?) 

(continua...)

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