Por José de Alencar (1870)
Enquanto lhe preparavam a ceia, foi Manuel agasalhar com a maior solicitude a Morena e o filho, não esquecendo os outros cavalos. Consumiu nesse mister uma boa hora; não obstante os repetidos chamados da irmã, só deixou seus camaradas, quando os viu bem acomodados, feita a cama de palha, e distribuída a ração da noite.
Então decidiu-se a cear; contando porém visitá-los antes de dormir.
A refeição era parca: churrasco, bocado clássico das campanhas sulinas, queijos, origones ou passas de pêssego. Manuel comia rapidamente e de cabeça baixa; seu olhar uma só vez não procurou o semblante das duas mulheres, para colher ali um vislumbre de prazer por sua chegada.
Francisca de seu lado, cochilando na costumada pachorra, com as mãos cruzadas sobre o regaço, olhava o filho sossegada. Não assim Jacintinha.
Com os lindos pregados no semblante de Manuel, meio reclinada sobre a mesa, cintilante de vivacidade, espiava ela o menor desejo do irmão par servi-lo prontamente. Se porém o gaúcho erguia a cabeça, ela se enleava trêmula, não tanto de receio, com do prazer de ser olhada.
Terminada a refeição, preparou Jacintinha o chimarrão; enquanto Manuel chupava a bomba, trocaram-se entre as três pessoas da família algumas palavras, calmas e compassadas, sem efusão, mas também sem o mínimo ressentimento.
— A mãe não teve novidade? Vai passando bem?
— Assim, assim, Manuel; já me sinto pesada. A gordura é demais.
— Mãezita não gosta de andar, observou a menina.
— Como vai a bragadinha, Jacinta?
— Ah! Morreu, Manuel!…
— Coitadinha! Como? … perguntou o gaúcho enternecido.
— A mãe deu-lhe um coice! respondeu Francisca rindo.
Manuel ergueu-se de mau modo, dando as boas-noites, e saiu para o terreiro, donde ganhou a estrebaria. A Morena e o filho o receberam com mil carícias, que ele retribuiu; arranjoulhes de novo a cama, com receio de que não estivesse bem macia, escolhendo-lhes alguns molhos do capim mais tenro; depois do quê, recolheu a seu aposento, que ficava numa espécie de sótão por cima da manjedoura.
II
O PAI
Que anomalia era a fibra cardíaca desse homem?
Coração para uma raça bruta, músculo apenas para sua própria espécie e até para sua família.
Quanto se expandia em amor e dedicação com os animais, seus prediletos, tanto se retraía com frieza e indiferença ante as mais doces afeições de sangue que o cercavam.
Não se explica semelhante aberração. Talvez que algumas particularidades da infância de Manuel aventem a razão desse teor d’alma tão avesso da natureza.
Eis o que referiam sobre a família e a infância do gaúcho.
João Canho, pai de Manuel, era o primeiro amansador ou peão de toda aquela campanha; à sua destreza em montar e governar o animal com qualquer das mãos deveu ele o apelido que adotou por nome.
Servira o amansador com Bento Gonçalves na campanha da Cisplatina; pelejara corajosamente em vários combates; e depois de feita a paz, viera estabelecer-se com sua mulher e dois filhos em Ponche-Verde, onde vivia pobremente de sua arte, à qual juntava a perícia de ferrador e alveitar.
Aos oito anos já sentia-se Manuel orgulhoso das proezas do pai. Quando ouvia o antigo soldado recordar suas campanhas e contar as valentia que praticara com um camarada de nome Lucas, do qual sempre se lembrava com saudades; quando sobretudo via o potro mais terrível subjugado em um momento pelo destemido peão, o gauchito enchia-se de admiração.
Não fossem falar de façanhas de heróis, que ele as desdenharia por certo. Não havia para o menino outra glória senão aquela; nada no mundo se podia comparar, no espírito do filho, à fama do pai.
A alma do menino foi-se moldando naturalmente pelo que admirava. A vida de peão inspirava-lhe entusiasmo. O baguá era para ele o símbolo da força e da fereza; domar o cavalo selvagem, o filho indômito dos pampas, significava o maior triunfo a que podia aspirar o homem. O amansador era o rei do deserto.
Ao mesmo tempo, sempre em contato com a raça eqüina, revelava-se a seu espírito infantil as grandes qualidades desse animal de paixões nobres e generosas, capaz das maiores dedicações, intrépido, sóbrio, leal, paciente na ocasião do sacrifício, impetuoso no momento do perigo.
O menino sentia em si essa mesma natureza, o germe daquelas virtudes, e assim gradualmente ia-se operando em seu caráter uma espécie de identificação entre o cavalo e o cavaleiro. Era a misteriosa formação do centauro.
No meio dessa existência tranqüila, a asa negra da desgraça roçou pela casa de João Canho.
Foi em maio de 1820.
Estava o amansador uma tarde pitando no alpendre, enquanto a mulher ninava ao colo o Juquinha, o último filho. Viu João aproximar-se um cavaleiro à disparada, e pouco depois esbarrar no terreiro. apeou-se rápido e correu para o gaúcho.
— Não me conhece, amigo?
O Canho surpreso respondeu:
— Pode ser; mas não me recordo.
— Sou o Loureiro, de Alegrete. Venho do Salto; os castelhanos juraram empalar-me, e me vêm no encalço. Estou perdido se o amigo não me der um abrigo.
— Entre, senhor; esta casa está a seu dispor.
— Mas se eles souberem que eu me refugiei aqui, não lhes poderei escapar.
— Fique descansado.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.