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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Luís– Cale-se, senhor! Se não respeita a fraqueza de uma mulher, respeite ao menos o leito de uma enferma!

Pinheiro – Não é minha intenção ofendê-la; ao contrário... O acaso fez que o homem pobre, mas honrado, encontrasse diante das mesmas testemunhas, reduzida à miséria, a mulher que o arruinou, e que lhe respondeu com uma gargalhada quando ele pedia-lhe que o salvasse da vergonha. Esqueço tudo; e lembro-me que sou cristão. Dou a minha esmola!

Carolina – Toda esmola não pedida é um insulto; e um homem nunca tem o direito de insultar uma mulher!

Pinheiro – Recebeu-as quando eram de brilhantes!...

Carolina – Nunca recebi esmolas; recebia o salário da minha vergonha! Mas fique certo que não há dinheiro no mundo que a pague. Todos os senhores que estendem a uma mulher a mão cheia de ouro; que depois de matarem a alma cobrem o seu corpo de jóias e de sedas para reanimar um cadáver, julgam-se muito generosos!... Não sabem que um dia essa mulher daria a sua vida para resgatar o bem perdido; e não o conseguiria!... Portanto não nos acusemos; o senhor perdeu a sua fortuna, eu perdi a minha felicidade; estamos quites. Se, hoje, sou uma mulher infame, não é o senhor, que concorreu para essa infâmia, que foi cúmplice dela, quem me pode condenar.

Meneses – Aproveite a lição, Sr. Pinheiro; e guarde a sua esmola. Quando tiver passado este primeiro momento de irritação há de reconhecer o que já lhe disse uma vez. Há criaturas neste mundo que se tornam instrumentos da vontade superior que governa o mundo. Não foi Carolina que o arruinou, que do moço rico fez um cocheiro de tílburi; foi, sim, a vaidade, a imprudência, e o desregramento das paixões, sob a forma de uma moça. Incline-se pois diante da Providência ; e respeite na mulher desgraçada a vítima do mesmo erro, e o agente de uma punição justa.

Pinheiro – Sempre respeitei a desgraça, Sr. Meneses; e ainda agora mesmo, se ela precisar de mim... Já não sou rico, mas economias de pobre ainda chegam para aliviar um sofrimento.

Carolina – Aceitei quando tinha que dar! Hoje, não vê?... Sou uma sombra! Só peço aquilo a que os mortos têm direito... Que respeitem as suas cinzas!

Pinheiro – Eu me retiro, Carolina; desculpe se a ofendi!

Carolina – Não conservo o menor ressentimento contra aqueles que encontrei no meu caminho. Corríamos todos atrás do prazer; o acaso nos reuniu; o acaso separou-nos. Hoje que somos um para os outros nas recordações vivas e bem tristes, devemos esquecer-nos mutuamente. Entre nós a estima, a mesma piedade seria irrisão.

Pinheiro – Quer assim?... Pois seja! Adeus. (Sai)

CENA IX

(Carolina, Luís, Meneses, Araújo e Helena)

Meneses – Eis um exemplo de coragem bem raro no Rio de Janeiro.

Luís– Qual?

Meneses – O desse moço. Outros em seu lugar, tendo perdido a sua fortuna, andariam por aí a incomodarem os amigos do seu pai, e o seus antigos conhecidos, para lhe arranjarem emprego, que "não estivesse abaixo de sua posição".

Araújo – Como eu conheço muitos. Não têm vintém, e entendem que se desonram em ser caixeiros.

Luís – É um prejuízo que já vai desaparecendo.

Carolina – Mas, Sr. Meneses...

Meneses – O que é, Carolina?

Carolina – Por que os senhores apareceram todos de repente?... Nem de propósito!...

Meneses – É verdade!

Carolina – Como souberam a casa?

Helena – Escrevi-lhes.

Carolina – Pedi-te tanto, Helena!

Luís – Não queria que viéssemos?

Carolina – Para que afligi-los?...

Meneses – Mais nos afligiríamos se soubéssemos que tinha sofrido privações por falta de amigos.

Carolina – Por isso não! Não preciso de nada.

Araújo – Como!... Não pode ficar nesta casa. É tão úmida...

Carolina – Quem não tem melhor!

Araújo – Para que estamos nós aqui?

Carolina – Não, senhor Araújo!... Não aceito coisa alguma.

Meneses – Deixa-te de caprichos.

Carolina – Já não os posso ter! (Luís e Araújo conversam baixo)

Meneses – Helena, há pouco, me revelou as tuas circunstâncias!...Ontem não teve com que comprar um frango para dar-me um caldo.

Carolina – Oh! Neste ponto é escusado, Sr. Meneses!... Não cedo.

Meneses – Nem eu!

CENA X

(Carolina, Helena, Meneses e Luís)

Luís – Não a contrarie!... Nada obteremos. Deixe-me com ela! Eu conseguirei persuadi-la.

Meneses – Com uma condição, porém.

Luís – Qual?

Meneses – Que me tratará nisso como um amigo.

Luís – Era minha intenção, e a prova... Araújo foi buscar Margarida.

Meneses – A mãe de Carolina?

Luís – Sim; precisava de alguém que fosse à minha casa, e a fizesse preparar para recebê-la hoje mesmo; porque o essencial é tirá-la daqui. Contei com o senhor...

Meneses – E fez muito bem. Vou esperá-lo.

Carolina – Helena!

Meneses – Até logo, Carolina!

Helena – Tu me chamaste?

Carolina (à meia voz) – Toma esta cruz!... É uma lembrança de minha filha! Sinto separar-me dela!... Mas é por pouco tempo.

Helena – Não penses nisto!

(continua...)

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