Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
ADRIANO (Aflito segue Clarimundo até à porta e volta a um sinal deste, passeia agitado; Úrsula sai, hesitando, do gabinete; silêncio de ambos... luta íntima... Úrsula quer ir-se e volta... olham-se, tremem, ânsia de ambos: não podem mais conterse, atiram-se um ao outro.)
ÚRSULA (Grito abafado.) – Meu filho!...
ADRIANO (O mesmo.) – Minha mãe!... (Abraçam-se.)
ÚRSULA (Abre a camisa de Adriano e examina o peito esquerdo.) – Oh!... é meu filho! é meu filho!... (Abraçam-se: pranto de ambos.)
CENA XIV
ADRIANO, ÚRSULA e CLARIMUNDO
CLARIMUNDO – Helena despertou... o doutor está rindo-se... ah! e os senhores aqui fora faltavam-me ambos à palavra!...
ADRIANO – Que felicidade meu pai!
ÚRSULA – Que seja completa! oh Clarimundo! dá-me o pai de meu filho para que eu o apresente a todos!
CENA XV
ADRIANO, ÚRSULA, CLARIMUNDO, DR. GONÇALVES e logo HELENA, pálida,
cabelos soltos e vestida de branco.
GONÇALVES – Parabéns! a moléstia revelou doce glória! a doente é uma esposa abençoada por Deus; e o marido, se foi leviano como dizem, tem o perdão pela dita, e vai em breves meses ser preso por mais um laço!...
ADRIANO (Correndo.) – Oh, minha Helena!... minha Helena!...
HELENA (Aparecendo à porta e abrindo os braços.) – Adriano!... meu marido!...
ADRIANO (De joelhos.) – Anjo de amor! de perdão! anjo de bem-aventurança na terra!
CENA XVI
ADRIANO, ÚRSULA, CLARIMUNDO, DR. GONÇALVES, HELENA e
CINCINATO
CINCINATO – Tudo feito! perdão, minhas senhoras... mas eu que por aqui arranjaram-se as coisas ainda melhor, do que eu as arranjei lá fora!...
CLARIMUNDO – O doutor fica sendo um amigo da família; Cincinato já o é; saibam pois o que em breve saberá a sociedade: Minha Helena! abraça o pai e a mãe de teu marido!...
HELENA – Ah! como sou feliz!... (Abraçam-se os quatro.)
CINCINATO – Por esta não esperava eu!... mas eis aí como pode ter sua poesia um casamento de velhos... que disse eu?... perdão minha senhora, isto é só com o noivo!
ÚRSULA (Apresentando Helena e Adriano.) – Meu filho! adora-a!... Helena é santa... (Adriano abraça Helena.)
CINCINATO – Se o é!... (Comovido.) Este milagre Deus fez só por ela!... (Soluçando.) Estou fora do meu elemento... declaro-me enternecido e fica declarado: Cincinato Quebra-louça... assinado... por cima de estampilha.
FIM DO QUINTO ATO E DA COMÉDIA
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.