Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– É o mesmo; talhou uma carapuça que me serve às mil maravilhas.
– Pois então sirva-se, disse Mariquinhas.
– Eu confesso que morro por saber um segredo de moça... há sempre tanta graça nos inocentes mistérios de um coração que tem só dezesseis anos!
– Ah! tornou Mariquinhas, e se o senhor soubesse então dos mistérios de um coração como o de d. Felícia, que tem só dezessete anos e meio!
– E desgraçadamente, nem ao menos nutro a esperança de poder sabê-lo um dia!
– E que mistério... era um desejo imenso de...
– D. Mariquinhas! exclamou Felícia.
– Veja como ela cora... não.... não digo. Uma coisa espantosa... que pode produzir conseqüências tão desagradáveis...
– Deveras, minha senhora?...
– O senhor é de segredo?...
– Muito.
– Pois bem: d. Felícia...
– Diga.
– Quer dançar.
O moço não pôde deixar de rir.
– Pois que pensa, minha senhora?... disse ele; mesmo isso é um mistério: quem sabe a razão por que ela quer dançar?...
– Não é por nada, interrompeu Felícia. Eu não disse, eu não desejei coisa alguma; o que me parece é que d. Mariquinhas está doida por uma contradança.
– Lá isso também é verdade...
– Pois é fácil satisfazer seus desejos; eu vou tocar.
O moço dirigiu-se ao piano.
– Ah! d. Mariquinhas! tornou Felícia; você sempre está com disposição para gracejar!...
– Mas agora não foi gracejo, foi cálculo. Eu queria dançar. Olhe, está vendo aquele moço de óculos verdes?... pediu-me uma contradança no último serão e devo pagar-lha neste...
– Como anda você tão adiantada!...
– Qual! pelo contrário, atrasada... estou carregada de dívidas... em três bailes não pago o que devo.
– Bom, lá se tocam os compassos de prevenção... d. Leocádia já está bulindo na cadeira... que maldito costume tem aquela moça!
– Coitada... é com razão. O exercício... o movimento a torna um pouco menos amarela.
As moças foram interrompidas por alguns cavalheiros que a elas se chegaram pedindo contradanças.
Mariana acabava de aproximar-se de uma janela. Salustiano foi ter com ela.
– Uma contradança... a que se vai dançar, minha senhora...
– Esta não é possível, já tenho par.
– A seguinte?...
– Também já a prometi.
– Ao mesmo cavalheiro da primeira, sem dúvida... disse sorrindo Salustiano.
– É verdade, respondeu Mariana sem hesitar.
– O sr. Henrique?...
– Ele mesmo.
– Bem, tornou Salustiano mudando de tom: hei de logo pedir-lhe um obséquio de outra ordem.
Henrique veio dar a mão a Mariana, lançando um olhar de desprezo a Salustiano, que o pagou com seu costumeiro sorrir sarcástico.
Salustiano passou ainda pelo desgosto de achar Celina engajada para lª, 2ª e 3ª contradanças; eram tantas quantas se costumavam dançar em cada serão.
A dança começou. Cândido não se tinha levantado, e conversava então com a velha Irias.
Anacleto chegou-se a eles.
– Que faz aqui, sentado e triste como um velho de setenta anos, este moço que não tem mais de vinte?...
– Estava repreendendo-o por isso, respondeu Irias. É uma cabeça cheia de teias de aranha; sabe cantar, e não se deixa ouvir; dança com graça, e o estamos vendo sentado.
– Pois ele canta?...
– Não o sabia, sr. Anacleto?...
– Disse-nos que pouco entendia de música.
– Olhem só que mentiroso! exclamou a velha: canta, e tem excelente voz.
– Minha mãe, disse Cândido, para que me há de estar comprometendo?
– Canta, sr. Anacleto: o sujeitinho canta...
– Deixe-o estar, que o tomo de agora por diante à minha conta.
Terminara a primeira quadrilha.
– Venha cá, meu caro senhor, disse Anacleto tomando o braço de Cândido, venha cá, e fique sabendo que não gosto de caras tristes em minha casa.
O velho levou o mancebo até junto de sua neta. Cândido sentiu um calafrio geral coar-lhe por todo corpo.
– Celina, disse Anacleto, apanhei este maganão em um crime: é mentiroso, é hipócrita, e tudo quanto há de mau neste mundo. Sabe cantar excelentemente, e veio aqui dizer-nos que nada sabia de música.
– É, senhor, que eu... realmente...
– Adeus, meu caro, já não creio em suas desculpas. Celina, fazes anos daqui a quatro dias; tomaremos sem dúvida chá com nossos amigos na noite desse belo dia:
não queres pedir alguma coisa ao sr. Cândido?
A “Bela Órfã” entendeu o pensamento do velho, e disse ao moço:
– Peço-lhe que nessa noite nos dê o prazer de se deixar ouvir cantar.
– E agora?... responda, meu cavalheiro.
– Cantarei, minha senhora, respondeu o mancebo a tremer.
– Tinha-se formado um círculo à roda de Anacleto, Cândido e Celina.
– Bem, bem, tornou o velho esfregando as mãos; mas resta que de tua parte agradeças de antemão ao nosso mentiroso o sacrifício que vai fazer por teu respeito.
– Mas eu não sei que espécie de agradecimento...
– Sabes o que ele me dizia há pouco? que desejava ardentemente dançar contigo a próxima quadrilha...
– Senhor... balbuciou Cândido.
– Homem, não me venha com novas mentiras; fale, quer ou não quer dançar com minha neta?...
– Minha senhora, disse o mancebo dirigindo-se a Celina; ouso pedir-lhe essa graça...
A moça hesitou primeiro, e enfim respondeu:
– Com muito prazer.
Depois, levantando os olhos, viu diante dela Salustiano, a quem um quarto de hora antes tinha negado a mesma quadrilha que acabava de conceder a Cândido.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.