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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

Uma vez, e já então o rochedo estava todo traspassado pelas lágrimas da virgem selvagem, uma vez veio Aoitin e, como das outras, não olhou para Ahy, nem lhe escutou as sentidas cantigas; entregou-se a seus prazeres e, quando se sentiu fatigado, entrou na gruta e adormeceu num leito de verde relva; mas, ao tempo que em mais sossego dormia, duas gotas das lágrimas de amor, que tinham passado através do rochedo, caíram-lhe sobre as pálpebras, que lhe cerravam os olhos. Aoitin despertou; e tomando suas flechas, correu para o mar, mas, saltando dentro de sua piroga e afastando-se da ilha, ele viu sobre o rochedo a jovem Ahy e disse bem alto:

— Linda moça!

No outro dia ele voltou e já então olhou para a virgem selvagem, mas não ouviu ainda o canto dela; depois de caçar veio, como sempre, adormecer na gruta; e, dessa vez, a gota de lágrimas lhe veio cair no ouvido; e na volta não só admirou a beleza da jovem, como, ouvindo a terna cantiga, disse bem alto:

A voz sonora!

Terceiro dia amanheceu e Aoitin viu e ouviu Ahy, caçou e cansou, veio repousar na gruta e dessa vez a gota de lágrima lhe caiu no lugar do coração e, quando voltava, disse bem alto:

— Sinto amar-te!

Ora, parece que nada mais faltava a Ahy, e que a ela cumpria responder a este último grito de Aoitin, confessando também o seu amor tão antigo; mas a natureza da mulher é a mesma, tanto na selvagem, como na civilizada. A mulher deseja ser amada, fingindo não amar; deseja ser senhora do mesmo de quem é escrava: e pois Ahy nada respondeu; mas riu-se, e suas lágrimas secaram; porém já a esse tempo as muitas que havia derramado tinham dado origem a esta fonte, que ainda hoje existe.

No dia seguinte veio Aoitin, e viu a sua amada, que já não cantava, nem chorava: mesmo antes de abicar à praia, foi clamando:

— Sinto amar-te!

E Ahy não respondeu, e só sorriu-se.

Nada de caça... nada de pesca... já o insensível era escravo e não vivia longe do encanto que o prendia: correu, pois, para a gruta, deitou-se mas não dormiu. Quem ama não dorme; sentiu que em suas veias corria sangue ardente, que seu coração estava em fogo: era a febre do amor... Aoitin teve sede, e a dois passos viu a fonte que manava; correu açodado para o pé dela e, ajuntando as suas mãos, foi bebendo as lágrimas de amor. A cada trago que bebia, um raio de esperança lhe brilhava, e quando a sede foi saciada já estava feliz: a fonte era milagrosa.

As lágrimas de amor, que haviam tido o poder de tornar amante o insensível mancebo, não puderam esconder a sua origem e fizeram com que Aoitin conhecesse que era amado.

Então ele não mais buscou sua piroga. Saindo da gruta, fez um rodeio e foi, de manso, trepando pelo rochedo, até chegar junto de Ahy, que, com os olhos na praia do lado oposto, esperava ver partir o seu amante e ouvir o seu belo grito:

— Sinto amar-te!

Mas de repente ela estremeceu, porque uma mão estava sobre seu ombro; e quando olhou, viu Aoitin, que, sorrindo-se, lhe disse de um tom seguro e terno:

— Tu me amas!

Ahy não respondeu, mas também não fugiu dos braços de Aoitin, nem ficou devendo o beijo que nesse instante lhe estalou na face.

Desde então foram felizes na vida, e foi numa mesma hora que morreram ambos.

A fonte nunca mais deixou de existir, e há ainda quem acredite que por desconhecido encanto conserva duas grandes virtudes...

Dizem, pois, que quem bebe desta água não sai da nossa ilha sem amar alguém dela e volta, por força, em demanda do objeto amado; e em segundo lugar, querem também alguns que algumas gotas bastam para fazer a quem bebe adivinhar os segredos de amor.

— Terminei aqui a minha história, disse a sra. d. Ana, respirando.

— E eu sou capaz de jurar, disse Augusto, que pela terceira vez sinto o ruído de alguém que se retira correndo.

— Pois examine depressa.

Augusto correu à porta e voltou logo depois.

— E então?... perguntou a sra. d. Ana.

— Ninguém, respondeu o estudante.

— E vê alguém no jardim?...

Apenas a sra. d. Carolina, que vai apressadamente para o rochedo.

— Sempre minha neta!...

E eu, minha senhora, tenho que pedir-lhe uma graça.

— Diga.

— Rogo-lhe que, por sua intervenção, me facilite o prazer de ouvir sua linda neta cantar a balada de Ahy, que tanto me interessou com o seu amor.

— Oh! ... Não carece pedir: não a ouve cantar sobre o rochedo?... É a balada.

— Será possível?!

— Adivinhou o seu pensamento.

CAPÍTULO X

A balada do rochedo

A hóspeda e o estudante deixaram então a gruta e, tomando o do jardim para vencer a altura do rochedo, viram a bela Moreninha em pé e voltada para o mar, com seus cabelos negros divididos em duas tranças que caíam pelas espáduas, e cantando com terna voz o seguinte:

I

Eu tenho quinze anos

E sou morena e linda!

Mas amo e não me amam

E tenho amor ainda.

E por tão triste amar,

Aqui venho chorar.

II

O riso de meus lábios

Há muito que murchou;

Aquele que eu adoro

Ah! Foi quem matou;

Ao riso, que morreu,

O pranto sucedeu.

III

O fogo de meus olhos

De todo se acabou,

Aquele que eu adoro

Foi quem o apagou:

Onde houve fogo tanto

Agora corre o pranto.

IV

A face cor de jambo

Enfim se descorou,

Aquele que eu adoro

Ah! Foi quem a desbotou:

A face tão rosada

De pranto está lavada!

V

O coração tão puro

Já sabe o que é amor,

Aquele que eu adoro

Ah! Só me dá rigor:

O coração no entanto

Desfaz o amor em pranto.

VI

Diurno aqui se mostra

Aquele que eu adoro;

E nunca ele me vê,

E sempre o vejo e choro;

Por paga a tal paixão

Só lágrimas me dão!

VII

Aquele que eu adoro

E qual rio que corre,

Sem ver a flor pendente

Que ti margem murcha e morre:

Eu sou u pobre flor

Que vou murchar de amor.

VIII

São horas de raiar

(continua...)

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