Por Franklin Távora (1879)
Em vão, esperou Ângelo que Maurícia lhe escrevesse, pedindo-lhe o auxílio dos seus serviços, segundo ajustado entre eles. Decorrera já uma semana depois da festa que os reunira em casa de Martins. Era tempo bastante para uma resolução.
Mas o silêncio de Maurícia sobre o prometido era absoluto.
Indo no domingo à casa do amigo, foi sabedor dos meios empregados por ele, Albuquerque e Eugênia para induzirem a mãe de Virgínia a dar o passo que ela condenava. Eugênia contou-lhe as coisas pelo miúdo; repetiu-lhe trechos da carta que escrevera à irmã; os mais decisivos ela os tinha de memória, e fácil por isso lhe foi reproduzi-los. Não era, porém, ainda conhecida a última resolução de Maurícia, e os parentes desta mostravam-se inquietos e apreensivos. Em sua opinião ela havia de usar a maior tenacidade, antes de decidir-se pela solução que eles indicavam e tinham por justa e conveniente.
Ângelo não pode ocultar o seu espanto ao vê-los assim mudados. Pediram o seu parecer sobre o ponderoso objeto que os trazia preocupados; ele habilmente fugiu de se declarar a semelhante respeito.
Voltou à casa inteiramente entregue ao seu violento afeto, mau conselheiro, mas absoluto senhor das suas ações. D. Rosalina conheceu-lhe a diferença, e atribuindo o estado da excitação moral, que notou no sobrinho, a uma paixão passageira tão comum na mocidade, dirigiu-lhe gracejos para os quais ele só teve em resposta o silêncio.
Ângelo inclinou-se sobre a chaise-longue, que tinha no seu quarto, ao pé da janela que dava para o jardim. Seus olhos azulados volveram-se para o arvoredo contíguo em demanda de uma idéia decisiva. Os raios de sol ajudados da viração brincavam coma folhagem dos cajueiros e das mangueiras, vertendo sobre a solidão os vivos tons da sua luz. Havia aí serenidade e paz, que contrastavam com o desvairado da vista e o revolto dos pensamentos do bacharel. Este contraste foi uma como advertência para que no fogo do seu cérebro, e não na suave tepidez da Natureza buscasse ele caminho por onde devia dirigir-se a próximo e inevitável abismo.
De feito, o caminho, para não dizer os desvios, por onde a razão se perde em demanda do desconhecido, depressa se lhe mostrou, não coberto de puas traiçoeiras e mortais, mas juncado de rosas esquisitas, que a sua imaginação tingia com as cores afogueadas da sua exaltação.
Passados alguns instantes, Ângelo levantou-se. Tinha tomado uma resolução. Ao pé da estante, que olhava para o jardim, estava o baú onde era guardada a sua roupa branca. Ângelo abriu-o, tirou de dentro uma caixinha de pau-cetim, e de dentro vários bilhetes de banco. Eram as suas economias. Contou-os um por um. “É pouco, disse consigo, mas basta para as despesas urgentes”. Tirou alguns desses bilhetes, que meteu na carteira, e guardou o restante no lugar onde estavam antes.
Sentou-se depois à mesa de estudo, e escreveu uma longa carta à Maurícia. A pena correra no papel nervosamente. Nessa carta, havia um poema ou antes um corpo de delito; mas os seus olhos não viram nela o delito, senão a poesia, que o coração em febre vertia como revelação de altos intuitos.
— Maurícia irá comigo, disse ele, terminando a leitura da carta. Havemos de ser felizes. Meu pai e minha mãe hão de ficar satisfeitos de me ver voltar. Dir-lhe-eis que Maurícia vai refugiar-se no seio deles para escapar à sanha de um tirano; que é parenta de um meu amigo; que merece a benevolência das suas almas carinhosas. A intimidade há de proporcionar-lhe ocasião de reconhecerem as insignes qualidades das suas hóspedes. Hão de ter para Maurícia e Virgínia paternais solicitudes. Não haverá nisso nada que se possa estranhar. Albuquerque não as recebeu em casa, não as trata como pessoas da família?
Era evidente a exaltação cerebral do advogado.
Ao sair, disse a D. Rosalina que não esperasse por ele para jantar. Disse mais que devia voltar de noite; que tinha saudades dos pais; que talvez, muito breve, realizasse uma viagem à povoação, onde moravam. Três horas depois, tinha contratado com um barcaceiro da sua confiança uma viagem àquela povoação para qualquer dos próximos dias.
Ângelo delirava. O seu talento enfraquecia e deixava se vencer na luta com o seu amor. Não podia ser diferente o resultado dessa luta, visto que ele tinha o coração virgem, e aquele amor era o primeiro que aí despertava. Posto que poeta, nenhuma das belezas humildes da povoação o apaixonara no meio dos passados dissabores. Alguma vez em que os seus afetos, quase afogados nas ondas do infortúnio, sobrenadavam como náufragos, e demandavam região hospitaleira, onde aportarem, esse região não era o amor; a mulher não era o fanal que surdia diante dos olhos do desnorteado, prestes a submergir-se no iroso pélago; o seu fanal era a Natureza, para qual o náufrago se voltava com confiança que não se divide, antes se concentra em um ponto único.
Ângelo fora do Recife, onde se acostumara a ver mulheres de sedutora beleza, que ostentavam, com suas graças naturais, os ouropéis do luxo e as galas com que a vaidade se alimenta.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.