Por Bernardo Guimarães (1872)
Ia-se formar nova roda de dançadores; Luciano, que tinha a viola em punho, dirigiu-se a Margarida, e convidou-a para a dança. Ela recusou-se protestando já ter dançado muito e achar-se fatigada.
— Então venha esse mocinho, que aí está com a senhora — disse Luciano.
Com este convite o rapaz procurava mesmo ocasião de travar-se de razões com o estudante, a fim de desabafar o ciúme e o despeito que por dentro o corroíam.
— Eu não sei dançar — respondeu Eugênio com timidez.
— Deveras!... não me diga isso, moço; isso é desculpa; falta-nos uma pessoa; venha... não se faça de rogado.
— É deveras; não sei dançar, nunca dancei em dias de minha vida.
— Então para que vem a estas funções?...
— Ora essa é boa!... para ver...
— Como quem vem aqui ver... mas ah! já o estou conhecendo; o senhor não é aquele coroinha, que ultimamente tem ajudado à missa ao vigário lá na vila?
— É ele mesmo — acudiu Margarida, que já se impacientava com as grosserias, — é o filho do sr. capitão Antunes.
— Do capitão Antunes?... ah!... e o que vem ele aqui fazer?... decerto aqui veio fugido de casa, e há de ser bem feito que o pai lhe passe uma dúzia de bolos, quando souber que já anda metido em súcias...
Eugênio, por efeito da sua índole e mais ainda de sua educação de seminário, era uma tímida criança para responder às insolências de seu interlocutor. Margarida, porém, que com ser mulher e mais moça tinha o sangue mais quente, e mais altivez e resolução, tomou as dores por ele, e não pôde deixar de repelir tão grosseira chocarrice.
— Súcias não senhor!... veja como fala... bradou ela pondo-se em pé e alçando-se crespa e altaneira como seriema enraivecida. — Este moço foi criado junto comigo, e sempre vem à nossa casa. O pai dele não se importa com isso, e o senhor quem é para lhe vir tomar contas?...
— Bravo, minha rica!... não pensei que o maganão era tanto do seu peito!... por isso!... por isso é que a senhora anda tão soberba com os outros!...
— Senhor Luciano!... gritou a moça indignada, e ia responder; o moço, porém, satisfeito com o remoque que acabava de atirar, voltou-lhe rapidamente as costas, e foi para o meio do terreiro acender o cigarro na fogueira.
Luciano estava cruelmente ferido em sua fatuidade e amor-próprio, mordiase de raiva e de ciúme, e só procurava uma ocasião de vingar-se do desdém de Margarida sobre o pobre e inofensivo estudante.
Eugênio por sua parte achava-se muito mal satisfeito de si mesmo e envergonhado do papel covarde que fizera perante sua amada, tornando necessário que esta acudisse em sua defesa. Estava agora resolvido a responder com quatro pedras na mão, se Luciano outra vez tivesse a audácia de o provocar.
Ia-se organizar nova quatragem, e de novo o terrível competidor de Eugênio dirigiu-se a Margarida. Esta, já sumamente agastada com ele, desta vez sem desculpas nem satisfações respondeu-lhe secamente:
— Não quero!
— Não quero?... retorquiu o rapaz com um sorriso forçado e gutural; — em má hora entrou aqui este fedelho, esse chupa-galhetas, que veio pôr a senhora assim tão altanada e tão cheia de fidúcias!
— O senhor é bem atrevido!... foi a frase mais enérgica, o doesto mais furibundo, que Eugênio levantando-se trêmulo e vermelho encontrou no vocabulário dos impropérios para atirar ao seu insolente rival.
Mas considere-se que Luciano era um homem no vigor da idade, alto e de compleição atlética, de barbas negras e cerradas, e que Eugênio era um menino imberbe e delicado. O epíteto de atrevido que lhe atirou à cara, foi portanto um rasgo de coragem admirável e Deus sabe quanto custou ao pobre estudante!
— Como é isso?... faça o favor de repetir se é capaz.. replicou Luciano pondo-se diante de Eugênio de mãos nas cadeiras e com ar ameaçador... — Olhem a figura de quem quer se empertigar diante de mim!... este fedelho.... este rato de sacristia!... se me diz mais uma palavra, escovo-lhe aqui mesmo as orelhas...
— Alto lá, senhor — bradou uma voz, ao mesmo tempo que uma mão vigorosa agarrava o braço de Luciano... — Que lucro tira o senhor de estar desfeiteando uma criança?... se lhe puser as mãos é comigo que tem de se haver.
— Pronto!... respondeu voltando-se rapidamente para o seu interruptor. — Mas quem o chamou cá?... porventura o senhor é pai da criança?...
Daqui originou-se uma pendência, que durou alguns minutos sem passar de doestos, provocações e fanfarronadas em que todos tomaram parte, fazendo as mulheres uma pavorosa algazarra.
— Ora! ora! com efeito, senhor Luciano! — dizia a tia Umbelina altamente escandalizada com o negócio. — Nunca pensei que fosse o senhor o primeiro a vir armar barulhos e desordens nesta casa, onde até o dia de hoje — louvado seja Deus — não se sabia o que era a mais pequena rusga. E com quem vem mostrar-se valente? com a coitada de uma criança, que ainda ontem deixou os cueiros!
— Fie-se nisso... não está ele nos cueiros para lhe andar namorando a
filha...
— Senhor Luciano, isso não são coisas que se digam! Estes meninos foram criados juntos, querem-se muito e...
— Bravo!... atalhou o rapaz com um riso de galhofa... Ainda mais essa!
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.