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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Leonel continuou a freqüentar ainda com mais assiduidade a casa do Major, onde quase todas as noites havia belas reuniões, tocatas e saraus. Eram essas horas as mais cruéis para Lúcia, como bem se pode avaliar, que em sua nobre e sublime dedicação fazia esforços heróicos para dissimular a angústia que lhe ralava o coração. Não queria que por modo algum seu pai suspeitasse quanto era duro e doloroso o sacrifício que lhe tinha imposto, e procurava fingir que de boa mente se conformava com a sua nova sorte. À força de vontade conseguia dar a seu semblante e a suas palavras um ar, se não de contentamento, ao menos de serenidade melancólica, que dava novo realce à sua nobre e graciosa fisionomia.

Corria então a quaresma, e como nesse tempo são proibidas as bênçãos matrimoniais, forçoso foi adiar para mais tarde o casamento, que pelo voto de Leonel e do Major teria tido lugar imediatamente.

Já uns quinze dias se tinham passado, depois que Lúcia esperava resignada o dia tremendo, em que ia

irrevogavelmente imolar a felicidade de seu coração aos interesses de seu pai e de sua irmã. O altar do himeneu ia ser o patíbulo, e o leito nupcial o túmulo de sua felicidade.

À porta da loja de um dos mais abastados negociantes da Bagagem apeava-se um jovem viajante que, pelo primor de seu trajo e pela luzida bagagem que trazia, mostrava ser homem de fortuna. O tom familiar e o alegre alvoroço com que foi recebido indicavam ser ele um antigo conhecido do negociante.

- Oh! bons olhos o vejam, meu caro senhor Elias, exclamou o negociante abraçando- o com transporte. Não sabe que prazer me dá em torna-lo a ver. veio mais bonito, mais sacudido, e pelo que vejo, fez fortuna lá por onde andou? !

- Não perdi meu tempo, louvado seja Deus! . . . respondeu o moço.

- Entre, entre; venha descansar; depois conversaremos. Mande desarrear seus animais; não consinto que vá pousar em outra parte.

- Obrigado; aceito o seu obséquio.

Tendo saído da Bagagem, levando na algibeira a miséria, e o desespero no coração, depois de dois anos de ausência, Elias voltava com a carteira recheada de boas dezenas de contos de réis, só respirando amor, esperança e felicidade. Com o coração alvoroçado e a transbordar de alegria, durante toda a sua longa viagem não pensava em outra coisa senão no momento feliz de tornar a ver a sua querida Lúcia, e chegara com a cabeça recheada dos mais brilhantes planos de ventura e de amor, planos que para ele já eram uma realidade, pois já estava vencida a barreira que os separava- a pobreza.

Meia hora depois, tendo já Elias acomodado sua bagagem, e dado as necessárias providências para o arranjo de seus animais, o negociante convidou- o para uma sala vizinha.

- Venha para cá tomar algum refresco; venha conversar um pouco, e contar- nos que tal é isso por lá; contam-se maravilhas.

-temos tempo, meu amigo; tenho muito que contar-lhe, mas isso será com mais vagar. Venho de longe, e sou daqui; portanto julgo que tenho direito de perguntar primeiro por notícias da minha terra, que novidades há, se o comércio vai bem, se aparece muito diamante, etc. , etc. .

- Qual! meu amigo; isto aqui vai sempre na mesma pasmaceira, e não promete grande coisa. Vai-se tenteando o negócio. Há mais garimpeiros arruinados do que baguaçus por esses matos. Este garimpo não anima; é como uma loteria, em que só há sortes grandes, e essas muito poucas. Aparecem de tempos a tempos grandes diamantes; mas não há serviço jornaleiro; ganha um por cem que perdem.

- Eu já assim o pensava; nunca tive grande fé neste descoberto. Não acontece assim na Diamantina, e nem tampouco no Sincorá. Quem dá ali um serviço pode ter a certeza de que há de tirar ao menos para salvar as despesas.

- Pois aqui é o contrário; quem garimpa tem noventa e nove probabilidades de perder e uma de ganhar. Os fazendeiros pensaram que garimpar é o mesmo que plantar milho, quiseram colher o que não tinham plantado, e quase todos vão dando com suas fortunas em vaza- barris.

- Entretanto, disse Elias chegando-se a uma janela, noto que a povoação apesar disso não deixa de ir crescendo. Estou vendo muitas casas novas, que não deixei quando daqui saí, e tudo vai a melhor.

- O lugar vai em aumento não há dúvida; mas isso não pode ir longe.

- A propósito. De quem é aquela casinha, que lá está no alto daquele lançante? como está bem situada! . . . dali deve-se gozar a vista de toda a povoação.

- Oh! aquela é de uma das principais vítimas da exploração destas lavras. É do Major ; não o conhece? . . .

-muito! Muito! . . . mas que me diz? pois o Major também se arruinou? !

A conversação caía enfim casualmente no ponto a que queria leva-la Elias, que ardia por ter novas do Major e de sua filha, os quais já sabia que se achavam na Bagagem. Pode-se pois facilmente imaginar com que avidez curiosa, com que mal disfarçada sofreguidão dirigiu ao negociante a última pergunta.

- Consta, respondeu este com toda fleuma, que todos os seus bens estão empenhados e que, se forem liquidar os seus negócios, não lhe ficará um real, e a propósito, por falarmos no Major, perguntava o senhor há pouco por novidades. Pois saiba que a mais importante que temos, e que agora anda por aí pela boca de todos, é o casamento de sua filha. . .

- De Lúcia? . . . atalhou vivamente o moço.

(continua...)

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