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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

— Bem! Disse o velho caudilho apenas Gonçalo deu por terminada a sua narração; os teus infortúnios me tocam, e tuas palavras parecem-me ser inspiradas pelo espírito da verdade. Itajiba, tu és um bravo, e as façanhas que tens praticado são dignas dos mais valentes caciques. Mas antes de seres adotado em nossa tribo, como pareces desejar, é mister que proves com os teus feitos e com serviços reais, que não com meras palavras, a força de teu braço, a valentia de teu ânimo, e a lealdade de teu coração. Por agora porém cumpre que continues o teu curativo, e que recuperes completamente com o sangue vazado por tantas e tão graves feridas a saúde e as forças de que haverás mister para te sujeitares a essas provações, e mostrares o que podes e sabes fazer. Não serás mais tratado como prisioneiro; és livre; as florestas e as campinas te são francas; podes por elas vagar e caçar a teu sabor, como se estivesses em teu país natal, pois que essa formosa criatura, a quem por felicidade tua soubeste inspirar interesse e piedade, garante a sinceridade de tuas palavras, e a minha Guaraciaba, que conversa com os manitós celestes, e escuta as falas dos sagrados pajés, não costuma iludir-se.

Gonçalo ou Itajiba, como se chamou durante o tempo que esteve entre os Chavantes, restituído à liberdade, e tratado com o mais carinhoso desvelo na taba do velho Oriçanga, sentia de dia em dia renascerem-lhe as forças e vigorar-se-lhe a saúde. Viu com prazer que todas as suas armas lhe tinham sido fielmente conservadas. Mas suas armas de fogo se lhe tornavam daí em diante completamente inúteis, pois estavam vazias, e nenhuma munição lhe restava para de novo carregá-las; isto causava-lhe bastante pesar, pois essas armas com suas temerosas detonações e seu maravilhoso mecanismo seriam um objeto de assombro para aqueles selvagens e mais um meio para atrair seu respeito e admiração, e dar a Gonçalo ainda mais prestígio entre eles.

Notou ainda mais, com íntima satisfação, que lhe tinham deixado intacto o sagrado talismã objeto de seu fervoroso culto, a imagem de sua celestial protetora em todos os trabalhos e perigos da vida. A curiosa Guaraciaba não pôde deixar de perguntar-lhe o que significava aquele objeto com aquela linda imagenzinha de ouro, que sempre trazia pendente ao pescoço.

— É um precioso e sagrado manitó, que me legaram meus pais, respondeu-lhe Gonçalo, é ele quem me protege, e noite e dia vela sobre meus passos, e quem leva minhas rogativas até o trono do Grande Tupá. Sem ele há muito teria sucumbido aos imensos trabalhos e perigos que me têm atribulado a existência.

Dizendo isto Gonçalo levou aos lábios respeitosamente a santa imagem, e a apresentou à filha de Oriçanga, para que fizesse o mesmo. Guaraciaba imitou-o com gesto tímido, e disse:

— Eu também quisera ter um lindo manitó como este; mas dar-se-á caso que ele também me proteja, como protege a ti?

— E por que não, uma vez que o veneres com sincero amor e respeito, e invoques com fé viva a sua proteção? Se ele atende à rogativa do infeliz foragido, a quem as paixões e os desatinos da mocidade arrojaram num pego de desgraças, muito mais piedoso ouvido prestará sem dúvida à tímida súplica da casta e formosa virgem do deserto. Tu o terás um dia, eu to prometo, e sentirás os salutares efeitos de sua miraculosa proteção.

Guaraciaba, que desde a primeira vista sentira pelo jovem estrangeiro uma súbita e viva afeição, ingênua e singela como todas as filhas da floresta, abandonava-se sem escrúpulo a esse sentimento, de que apenas tinha consciência e nem procurava dissimulá-lo. Sua união com Inimá, a quem ela não votava nem ódio nem afeição, era apenas um projeto de família, de que ouvia falar desde o berço, e do qual na infantil singeleza de sua alma não compreendia ainda nem a importância nem o alcance, e assim a inocente dando folgas a essa paixão, que começava a germinar com intensidade em seu coração, mal pensava que criava um insuperável obstáculo à sua união com o jovem cacique. Não assim Gonçalo, que não podendo ser insensível a tão casto e tão sincero amor da virgem indiana, bem previa que esse amor devia tornar-se um dia a origem de tristes complicações e fatais conflitos, e olhava com inquietação para o futuro, que antevia eriçado de dificuldades e perigos; por isso quase sempre uma nuvem de tristeza pairava em sua fronte grave e pensativa.

CAPÍTULO V

O TRANSVIO

Logo que Itajiba mais vigoroso se achou em estado de encurvar um arco e ensaiar seus passos pelas sendas da floresta, Guaraciaba, para distraí-lo de sua inação e dos cuidados que pareciam atormentá-lo, convidou-o a um passeio e caçada de aves pelas selvas circunvizinhas. Itajiba teve logo ensejo de mostrar sua maravilhosa destreza em atirar a flecha, com grande prazer de Guaraciaba, que saltava de contente conduzindo para a sua taba uma chusma de avezinhas de variadas cores, derribadas pelas certeiras flechadas de Itajiba.

As roupas velhas e dilaceradas, que Gonçalo trouxera consigo, já não podiam servir a Itajiba; tendo de ser adotado na tribo dos Chavantes forçoso lhe era que se trajasse à maneira dos selvagens. Guaraciaba, auxiliada por suas companheiras, incumbiu-se de vesti-lo e armá-lo com todo o esplendor do luxo selvático. Uma túnica, que lhe descia até os joelhos, enfeitada de penas de brilhantes cores, lhe rodeava a cintura; um carcás formado de pele de uma monstruosa jibóia lhe pendia dos ombros recheado de mortíferas setas.

(continua...)

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