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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

– Por que não, meu filho? quem te estorva?...

– São contos largos, minha mãe!

– Pois venham esses contos largos; tens porventura segredos para mim?...

– Nenhum por certo, e peço-lhe perdão por não lhe ter contado tudo há mais tempo.

Eduardo contou então a sua mãe fiel e minuciosamente, tudo quanto lhe acontecera na fazenda de Joaquim Ribeiro desde a caçada da onça até à sua retirada.

– Já vê portanto minha mãe; – concluiu ele, – que não me é possível por forma nenhuma pretender jamais a mão dessa moça.

– Ora valha-me Deus!... aí temos outra. Pois menino, não se está vendo pela pintura que me fizeste desse Roberto, que é impossível que a moça o queira para marido, e que te prefere um milhão de vezes? Que te importa esse paspalhão do primo? não sejas tolo; deixa-te de escrúpulos; vai lá, e pede-a em casamento, e dá uma figa a esse Roberto.

– Eu faltar à minha palavra, quebrar um juramento!...

– Qual juramento! isso foi um juramento louco, que Deus não ouviu, nem aceitou.

– Louco ou não, é um juramento, minha mãe; devo cumpri-lo.

– Será, mas... meu filho, uma promessa, um juramento o padre pode, quando seja preciso, comutá-lo em penitências, jejuns e romarias.

– Quando a violação dele a ninguém prejudica, pode ser, minha mãe; mas neste caso?...

– És um louco, Eduardo; – eu creio que desejo mais do que tu mesmo a tua felicidade – Em nome de teu pai, por cujas cinzas juraste, eu te desobrigo desse juramento.

– Pelo amor de Deus, minha mãe, não me obrigue a lhe desobedecer pela primeira vez em minha vida.

– Valha-te Deus, filho!... pois bem? já que assim te emperras no teu juramento, faze o que entenderes. Mas tudo isto é culpa tua, por não teres me dado ouvidos; não te enfades, se te falo assim. Se me ouvisses e não ficasses embasbacado diante daquela enfatuada Lucinda, não andarias agora enredado em tantos desgostos. O teu exemplo deve servir de lição mestra para os rapazolas, que entendem que a primeira mocetona bonita que lhes enche os olhos, deve ser por força sua mulher.

– Ora, minha mãe, quem não cai nessas?...

– Isso é verdade; são todos assim, e é malhar em ferro frio. Mas agora se queres um conselho, vai-te embora, meu filho. É tempo de feira; pega no dinheiro que tens, e se não tens eu te darei, e vai para Sorocaba. Vai negociar, vai girar, vai correr mundo para te distrair. Vai divertir-te, demora-te por lá o tempo que quiseres, e volta, não macambúzio e triste como agora, mas alegre, fresco e bem-disposto, como foi antigamente o meu Eduardo.

– Isso pretendo eu fazer, minha mãe, e desde já vou dispor os preparativos da viagem.

Capítulo IX

O noivo

Uma paixão infeliz alimentada na solidão, na monótona serenidade de um lar doméstico quase vazio, quando após um passado de inocência, remanso e alegria nos embebemos em um futuro onde só vemos lágrimas e dores, quando a desesperança com sopro de fogo vem secar uma lágrima consoladora, que a saudade talvez quisesse fazer brotar nas pálpebras lívidas, essa paixão é um cancro que rói as fibras do coração, um sopro de morte, que desseca e estanca a seiva da existência.

Tal era o viver da mísera Paulina, depois que vira transpor as últimas colinas o vulto de Eduardo, e com ele todas as suas esperanças. Uma tristeza profunda, indizível, lhe envolvia a alma como um crepe negro. Todos os encantos da solidão que habitava, aqueles largos e luminosos horizontes e aquelas pitorescas campinas, que a rodeavam de risonhas perspectivas, aquelas tardes mornas e voluptuosas, tão prenhes de perfumes e canções, tudo isso tinha-se extinguido para aquela alma, que recolhida em si mesma só via o horizonte turvo e funéreo de suas agonias. Erra, quem pensa que o espetáculo da natureza na solidão, que a mudez e remanso dos ermos pode adormecer as dores fundas do coração, consolar os grandes infortúnios; a solidão tem para o desgraçado o olhar impassível de uma companheira, que nos sorri e nos afaga na adversidade com o mesmo sorriso, com que nos afagou em horas de ventura e de alegria.

Os sofrimentos da alma se faziam sentir de um modo assustador na organização física de Paulina. O verme peçonhento tinha pousado no âmago da tenra e mimosa flor do deserto e, devorando-lhe a seiva da vida, deixava nele o gérmen da morte. Já ninguém a via como outrora esbelta e ágil como a ema percorrer as campinas em busca de flores e frutas, nem ir sentar-se corada e risonha à sombra do laranjal, ou na relva da fonte a coser e a cantar entre as escravas. Quando saía do seu quarto, onde passava os dias a coser ou a ler maquinalmente, viam-na pálida e vacilante arrastar-se a passos lentos ao longo dos corredores, descer ao curral, procurar a sombra da gameleira, sentar-se sobre a mesa do mesmo carro onde ouvira da boca de Eduardo a fatal revelação, que a tornara infeliz para sempre, e ali com as mãos agarradas a um dos fueiros e a face encostada a elas, os olhos fixos ao longe pela estrada que se perdia serpeando pelas colinas, ficar horas e horas entregue a um torpor melancólico, que a tornava como estátua.

(continua...)

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