Por José de Alencar (1878)
Pensativa, reservada, seguiu a mãe durante a visita minuciosa, que fez ao resto da casa. Hermano, ocupado em mostrar à senhora os vários objetos do trem doméstico, não teve ensejo de reparar na frieza da noiva. Se alguma vez achou-a recolhida e silenciosa, atribuiu sua timidez ao recato natural da menina, ante esse prólogo da vida conjugal, que se desdobra aos seus olhos de virgem noiva.
Nesse dia, quando Amália, só e em liberdade, pôde coligir suas impressões e refletir sobre o incidente da visita, a suspeita que se aninhava em seu espírito cresceu, e tornou-se em certeza. A alma de Hermano estava escrita naquele símbolo, que ela a princípio não pudera decifrar.
Julieta ainda tinha naquela casa um templo onde era adorada; ainda ela dominava e possuía tão completamente o coração do marido que este, apaixonado por outra mulher a quem ia ligar-se eternamente e na véspera dessa união, não podia banir de si o passado e divorciar-se do primeiro amor.
Era por isso, era para conjurar as recordações implacáveis que surgiam a cada instante; para iludir-se emprestando uma virgindade artificial a emoções já outrora sentidas, que Hermano recorrera calculadamente àquela diversidade dos objetos que deviam cercá-lo na fase nova de sua vida.
Tinha feito como o pintor que, obrigado a repetir um quadro histórico, buscasse na divergência das cores e na mudança das posições uma novidade que faltava ao assunto; e sem a qual a monotonia lhe mataria a inspiração.
Amália recordava-se de uma observação anterior quando pintava-se a casa, notou que a asa direita do edifício continuava fechada; mas não deu a isso nenhuma importância, distraída como andava com outros cuidados. Agora tinha a explicação. Essa parte da casa, que fora particularmente habitada por Julieta, ficara intata. Era uma relíquia.
— É preciso romper este casamento! disse então Amália consigo.
Tomada a resolução, ela espreitou o ensejo de levá-la a efeito, de modo que poupasse a suscetibilidade de Hermano. Quando estava só, fortalecia-se no seu intento; mas quando chegava o noivo e ela o via tão feliz e tão regenerado por seu amor, não tinha ânimo de precipitá-lo daquele fagueiro transporte, que também a arrebatava.
Uma vez o amante exprobrou-lhe a esquivança que ela mostrava acerca desses projetos de futuro, os quais não passam muitas vezes de fantasias, mas são para os noivos como uma antecipação da felicidade conjugal.
— Quer saber a razão? disse Amália.
— Não é preciso que o diga. Se me amasse como eu a amo, acharia o mesmo prazer nestas futilidades.
A moça respondeu-lhe com uma expressão grave e um olhar repassado de tristeza:
— Se não o amasse, como o amo, acharia decerto prazer em falar nessas esperanças e promessas de uma ventura que é o meu sonho. Mas ao contrário, elas me entristecem.
— Por que, Amália? perguntou ele surpreso e inquieto.
— Tenho um pressentimento.
— Não diga isto!
— Não serei sua mulher, Hermano.
O amante adivinhou a razão dessa dúvida que afligia o espírito da moça; e respondeu-lhe com uma queixa:
— Mostrei-lhe acaso, Amália, o menor indício de arrependimento e hesitação para que retire o consentimento que me deu?
— Não o retiro; dei-lhe a minha mão; ela pertence-lhe.
— Mas então quem se oporá à nossa felicidade?
— Não sei; mas tenho medo que ela não se realize.
— Faltam tão poucos dias!
— Até à hora, ninguém sabe o que pode acontecer.
Hermano esforçou-se por dissuadir Amália daquela idéia, e com tanta efusão falou-lhe de seu amor, que ela deixou-se convencer, e crer enfim na possibilidade de ser feliz.
Se a moça cogitasse em um meio de fascinar o seu amante, de o prender ainda mais a si, não poderia escolher melhor do que este receio sincero por ela manifestado. Desde aquele diálogo Hermano redobrou de extremos; e se já havia resumido sua existência em Amália, não viveu mais senão das horas que passava junto dela.
Ao chegar interrogava ansiosamente o semblante da moça receoso de ler nele a sua condenação. Depois de retirar-se, inventava pretextos para voltar uma e mais vezes, como para certificar-se de que nenhum acidente ameaçava de novo a sua felicidade.
Esse tempo foi para ele um contínuo sobressalto; e para Amália o mavioso enlevo de sentir-se
amada com todas as emoções e todas as energias dessa alma opulenta. As dúvidas e receios de seu espírito dissiparam-se completamente. Tinha agora a confiança de seu poder, e a convicção de que Hermano lhe pertencia, e a ela unicamente.
E não advertiu que essa impulsão era talvez o efeito de um anelo estremecido pelo temor, e ao qual talvez sucedesse uma reação violenta.
No dia marcado celebrou-se o casamento. Não era um sábado, dia tão impropriamente consagrado pelo uso para esse ato solene. É com efeito difícil atinar com relação que possa haver entre a véspera do repouso e o instante em que principia para o homem a grave responsabilidade de família. Saturno devorando os filhos é um mau signo para a fecundidade do matrimônio.
Amália estava deslumbrante com seu traje de noiva. Os esplendores de sua beleza ardente tomavam através dos cândidos véus uns tons suavíssimos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.