Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Clarinha (toca a campainha) — Joaquim o achou esta manha no jardim. (Entra um escravo) Chama Joaquim. (A Sales) A pessoa a quem o Senhor o destinava não lhe há de perdoar semelhante esquecimento.

Sales — Não o destinava a ninguém. Deram-me e não tinha nem um apreço para mim.

Clarinha (a Joaquim) — Entrega o ramo do Senhor Sales.

Sales — Não precisa. (Joaquim entrega)

Clarinha — Inda pode aproveitá-lo. É bom guardar! (Joaquim sai) O Senhor não sabe que desgraça ia causando esse ramo inocente.

Henrique (a meia voz) — Clarinha!

Clarinha — O Senhor Sales é de segredo. (A Sales) Eu lhe conto. Henrique chegou da caça e estava no jardim conversando, quando não sei como tropeçou no seu ramo. A espingarda embaraçou-se no bolso do paletó e disparou!

Sales — Estava carregada?

Henrique — E com um quarto de bala, Senhor Sales.

Clarinha — É verdade! Foi um estrondo. A bala atravessou de banda a banda a cabana... Aquela, o Senhor sabe, que há no jardim. Se estivesse dentro alguma pessoa, morria decerto.

Henrique — Quando o Senhor sair examine por fora que há de ver o rombo.

Sales — Acredito, não é necessário.

Clarinha — Foi uma felicidade ter eu fechado a cabana logo que o Senhor saiu, e dado a chave a Henrique, senão podia alguém entrar e acontecer uma desgraça.

Sales — Que perigo!... A Senhora me dá licença?

Clarinha — Pois não!.... Mas agora é que reparo; o Senhor está hoje tão pálido, Senhor Sales.

Sales — Não é nada, minha Senhora. É o meu natural.

Clarinha — Não; o Senhor anda doente. Aconselho-lhe que faça outra viagem à Europa.

Sales — Agradeço muito o conselho, D. Clarinha.

Clarinha — E desta vez, demore-se uns cinco anos pelo menos. Com a saúde não se brinca.

Sales — Passe muito bem, minha Senhora. Senhor Henrique.

Henrique — Então até a volta da Europa.

Sales — Se for eu virei despedir-me.

Clarinha — Mas ele já não pode receber visitas, Senhor Sales; perdeu a aposta.

Henrique (rindo) — Que tirania!



CENA X

Os mesmos e Miranda

Henrique — E era disto que querias que eu tivesse ciúmes?

Clarinha — Então!... Se fosses a esperar por um que te valesse, nunca terias.

(Entra Miranda)

Henrique (a Augusto) — Está vendo como se zomba de um marido!

Clarinha — Aqui o Senhor, também acreditou! Estou-lhe muito obrigada!

Henrique — Divertiu-se à nossa custa! Vingou-se dos dois dias que passei fora de casa.

Miranda — Assim estás completamente dissuadido? Esse bilhete não era para Clarinha?

Henrique — Esse bilhete foi uma insolência daquele tolo, e a Senhora sem dó, nem compaixão, aproveitou-se dele para zombar de mim!... Diga-lhe o que eu sofri.

Clarinha — Chamou-me de pérfida, cruel, perjura e indigna!... Acusou-me de ter traído o seu amor, de não ter respeitado a sua honra... Não foi?...

Miranda — Ainda bem que não passou de um gracejo. Compraste, com algumas horas de inquietação, o que muitos não conseguem com anos de experiência e sofrimento... Visto como todo o teu futuro podia ter sido devorado por um momento de alucinação!... Vela sobre a tua felicidade, Henrique. Ela vale bem a pena.

Clarinha — Mas, por isso não precisa ficar triste! Ralhe comigo que fui a causa de tudo; porém tenha dó de Bela.

Henrique — Realmente, acho-o abatido, meu tio!

Miranda — Trabalhei muito esta noite; sinto-me fatigado.

Henrique — Talvez a emoção que ontem sentiu.

Clarinha — Vamos dar um passeio pelo jardim. O ar da manhã lhe fará bem.

Miranda — Não; preciso estar só. (Toca a campainha)

Henrique (a meia voz) — Diga-me, meu tio, diga-me com franqueza... Nada o aflige, neste momento?

Miranda — Não faças caso disto. É fadiga apenas.

Clarinha (a Henrique) — Vamos ver Bela; também não a acho boa hoje! Aquele susto...

Henrique (baixo) — E pensas que fosse somente o susto...

Clarinha — Sabes de alguma cousa?

Henrique — Não, não sei nada.



CENA XI

Miranda e Joaquim

Miranda — Compraste os bilhetes para amanhã?

Joaquim — Sim, Senhor. (Entrega)

Miranda — Bem: vai arrumar tudo o que me pertence na mala. Hás de levá-la daqui a pouco à Estação.

Joaquim — Meu Senhor não volta mais a Petrópolis?

Miranda — Não sei... Preciso do que é meu na cidade... Talvez volte; porém mais tarde.

Joaquim — Minha Senhora viu os bilhetes, e disse que não queria ficar aqui.

Miranda — Tua Senhora precisa ficar por causa de sua saúde; os médicos aconselham. Não quero que em casa saibam de minha resolução.

Joaquim — Sim, meu Senhor.

Miranda — Dize a tua Senhora que eu desejo falar-lhe. Dize-lhe baixo que D. Clarinha não ouça. (Miranda fecha uma porta lateral da Esq., escreve o sobrescrito e vai lacrar quando Isabel aparece)



CENA XII

Miranda e Isabel


Isabel — Mandou-me chamar, Senhor?

Miranda — Disse-lhe há pouco que mais tarde lhe comunicaria minha resolução... Já a tomei: é necessário que nos separemos, Senhora.

Isabel — Para que, Senhor?... Essa separação não tardará muito. Eu lhe prometo que breve, mais breve do que pensa, ficará livre de mim.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2122232425...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →