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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Nas margens desse arroio pelejou-se, em 26 de maio de 1843, um combate, em que Bento Manuel derrotou as forças rebeldes sob o comando de Davi Canabarro. Foi este o prólogo da campanha que pôs termo à revolução; o epílogo coube ao bravo barão de Jacuí escrevê-lo com a brilhante vitória de Porongos. 

Além, onde a campina se alomba, como o dorso de uma anta, próximo à foz do arroio, havia uma casa com alpendre para o nascente. À direita pequeno curral, a que na província dão o nome de mangueira: na frente uma grande figueira, isolada em meio do campo; à esquerda uma ramada ou choça para os animais. 

Embaixo, já na margem do Ibicuí, viam-se cinco ou seis ranchos esparsos pela campina; alguns pertenciam à estância cuja casaria destacava-se no horizonte, em meio de um bosque de arvoredos frutíferos; outros, à gente pobre a quem o proprietário consentia habitarem em suas terras.  

O mais próximo povoado ficava a duas léguas de distância, no passo de D. Pedrito, sobre o Ibicuí, onde mais tarde se erigiu a freguesia de N. S. do Patrocínio. Era sobretarde. 

Estavam no alpendre da casa duas mulheres. A mais idosa, viúva de quarenta e cinco anos, conservava na tez o lustre da mocidade: tinha ainda uma bela fisionomia e passaria por formosa se não fora a excessiva gordura. Quanto à outra, era menina de quinze anos, e muito linda. 

Não tinham a mínima semelhança: e contudo ao vê-las ambas ao lado uma da outra se conhecia logo que eram mãe e filha. Os afetos de que estamos possuídos exalam constantemente de nosso íntimo uma perspiração moral. Talvez haja em torno de nós uma atmosfera de sentimento para a alma, como há uma para o pulmão. 

Sentada em um banco, de mãos enlaçadas sobre o regaço, acompanhava a mãe os graciosos movimentos da filha, a folgar pelo gramado. Um terneiro alvo e brincão tentava escapar-se para correr após a vaca; porém a travessa menina, atalhando-lhe o passo e cingindo-lhe os braços pelo colo, impedia o intento. 

Ouviu-se relinchar ao longe um cavalo. Erguendo os olhos deu a menina com um cavaleiro que transmontara a fronteira eminência. Distraída do folguedo, ficou um instante imóvel, com as mãos juntas e a vista atenta. Logo após, exclamou batendo palmas: — Manuel!... Manuel!... 

— Onde, Jacintinha? 

— Olhe mãezita! Respondeu apontando. 

— Vejo! 

Voltara a mãe os olhos na direção do cavaleiro; a filha deitou a correr e foi com sensíveis mostras de prazer, caminho da tronqueira, a encontrar-se com a pessoa que chegava. 

Com pouco ali apareceu o Canho, montado no Morzelo e seguido da Morena e do poldrinho, que trotavam no meio da tropilha. Apeou o gaúcho para apertar a mão de Jacintinha, e dirigiram-se ambos ao alpendre, depois de algumas palavras trocadas. Quem observasse a menina naquele instante, havia de reparar na sua expressão constrangida. Um motivo qualquer retinhalhe nos lábios, e até no gesto, a efusão de sentimento, que só pelos olhos e a furto lhe escapava. Manuel, porém, não se apercebia disso; da irmã não vira mais que o vulto; se lhe perguntassem de repente a cor de seu vestido, com certeza não soubera responder. 

Saiu a viúva ao encontro do filho, logo que ele passou a tronqueira. A dois terços do caminho se encontraram, nenhum porém se havia apressado; o gaúcho adiantou-se porque seu andar era naturalmente mais desembaraçado do que o da matrona.  

— Adeus, meu filho. Estais bom de saúde? 

— Bom, minha mãe, obrigado. E Vm.cê, como lhe vai?  

— Sempre na mesma, graças a Deus! 

Subiram ao alpendre. 

Deixara-se Jacinta ficar atrás, para correr ao poldrinho e o abraçar enchendo-o de meiguices. Dir-se-ia que reconhecera o animalzinho a irmã de seu amigo, ou se embelezara pela gentileza da donzela. Apesar de sua arisca braveza, consentiu em ser acariciado; e chegou mesmo a brincar com sua nova companheira. 

— Que bonito poldrinho, que ele trouxe, mãezita”! exclamou Jacinta. Tão engraçadinho! 

Manuel, voltando para o grupo original, envolveu num olhar de ternura as duas juventudes, da irmã e do animalzinho. 

— Fizestes bom negócio com a égua, Manuel? Quanto destes por ela?

— Nada, minha mãe. 

— Ah! Foi presente que vos fizeram? Por quanto pretendeis vendê-la? Alguns vinte patacões?... 

— Não é de venda! respondeu o gaúcho laconicamente, descendo ao pátio. 

Nem sinal deu a viúva de estranheza por aqueles modos, aos quais sem dúvida estava mais que habituada. Chamou a filha para mandar aprontar a ceia. 

— Manuel há de estar com fome! Sem dúvida não jantastes, meu filho? 

— Pouco e cedo. 

— Então vai, Jacintinha. 

Tudo isto era dito com o tom calmo e frio das coisas costumeiras. Ninguém acreditara que ali estavam mãe e filho, no primeiro instante de chegada, após uma ausência de meses. 

(continua...)

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