Por José de Alencar (1864)
Se eu me agastava, escarnecia de mim; se me resignava e esquecia sua recusa, vinha espontaneamente com uns singela, mas altiva dignidade, conceder-me alguma prova de afeição, tal que eu nunca me animara a esperar.
Lembra-me de uma vez, que, insistindo eu por um botão de rosa que ela tinha nos cabelos, Emília conservou-o no seu penteado por muitos dias até secar; como se achasse um prazer infinito em prolongar assim tacitamente a sua recusa. Dias depois, sem que eu lhe pedisse, de improviso, deu-me o seu retrato.
—Guarde-o para lembrar-se de mim! Depois da noite em que estivemos juntos à, borda do lago, Emília parecia evitar-me. Tinha decorrido uma semana. Eram oito horas da manhã; manhã de inverno, coberta de espessa cerração, que peneirava no ar uma garoa finíssima.
Resolvido a não ir à cidade senão mais tarde, estava eu sentado à janela, donde avistava a casa de Duarte. Esperando ver Emília passar na varanda e cortejar-me de longe, como às vezes costumava, eu refletia sem querer sobre esse caráter original de moça.
De repente sou arrancado às minhas reflexões por uma chuva de bogarins; e ouço perto o gorjeio de um riso melodioso, que os ecos de minha alma tanto conheciam. Emília estava defronte, além da cerca de espinheiros que dividia o meu jardim da sua chácara. Uma capa de caxemira escura cobria-lhe quase todo o vestido, e o capuz meio erguido moldurava graciosamente seu rosto divino.
O exercício lhe avivara o saboroso encarnado das faces, onde tremulavam algumas gotas da chuva. Seus olhos negros saltitavam de prazer, como dous colibris voando ao meu encontro. Curvava-se para colher os botões de bogarim que me atirava; e tão suaves eram as flexões desse talhe, que apesar das largas roupagens percebia-se a doce vibração do movimento revelado exteriormente por um harmonioso ondulado.
Eu devera já estar habituado aos caprichos dessa moça; mas tudo quanto ela fazia era tão desusado, que me levava de surpresa em surpresa. Assim correndo ao seu encontro, não achei palavras, mas unicamente sorrisos para acolhê-la.
—Está admirado de me ver aqui? disse ela. Não gosto de ser contrariada, nem mesmo pelo céu. Acordei hoje com uma alegria de passarinho! Tinha saudade das árvores!... Abri a minha janela; estava chovendo. Ora! Para que se inventaram as capas e os guarda-chuvas? Vi-o de lá pensativo... Em que estava pensando? —É preciso perguntar-me? Em que penso eu sempre e a todas as horas? —Em mim?... Pois aqui estou! —Que imprudência!...
—Deveras! —Oh! não me chame de ingrato para a felicidade! Mas se ela deve custar-lhe o menor dissabor!... não a quero! Podia alguém vê-la!...
—Eu não me escondo!... respondeu Emília com altivez.
Depois velando-se de súbita melancolia, acrescentou com um sorriso:
—Não tenha cuidado. Eu sou rica; não me comprometo.
—Que significam estas palavras, D. Emília? —Vamos nós agora discutir aqui, de um e outro lado da cerca?...
atalhou ela rindo francamente. Já não me lembra o que disse! Mas com efeito o senhor é bem pouco amável! Nem sequer ainda me convidou para entrar! —Eu não me animava! —Foi bom então que me animasse eu, do contrário ficaríamos aqui, à chuva! Está bem! Faça-me o favor de abaixar a cabeça.
Tirou o seu lenço, e vendou-me com ele. Depois calcando a mão sobre o meu ombro, percebi que ela saltava a cerca. Creio que sua botina resvalando pelos galhos úmidos do espinheiro lhe traiu o elance, porque senti no meu peito a doce pressão de seu talhe.
Repeliu-me logo. Ouvindo o ai que soltaram seus lábios, arranquei o lenço arrebatadamente, e surpreendi seu olhar... Que olhar, meu Deus!... A voragem de uma alma revolta pela paixão, e abrindo-se para tragar a vítima! Mas foi tão instantâneo, que eu não posso afirmar que vi. Já ela se tinha afastado bruscamente dilacerando entre os dedos os renovos das plantas, que sua mão trêmula encontrava na passagem.
O capuz lhe descera, deixando a cabeça exposta à chuva e à brisa cortante.
Depois de algumas voltas pelo jardim voltou calma, serena e risonha; dirigiu-se à porta, indicando-me com um aceno gracioso que a seguisse. Na sala de jantar onde entramos, estava uma cafeteira; ela encheu uma xícara e bebeu dous ou três goles frios e sem açúcar.
—Ah! Aqui é o gabinete, onde se estuda! disse parando no lumiar. Pode-se entrar? Eu tinha vergonha da minha modesta habitação, que não era digna daquela honra. Confuso, acompanhava quase como um autômato a ela, que vagava de um para outro lado, naturalmente, sem o menor vexame. Meu gabinete de trabalho era nesse tempo muito pobre; o que havia de melhor estava na cidade. Emília correu a estante com os olhos, lendo o título das poucas obras literárias, com esse tom afetuoso com que saudamos antigos amigos.
—O senhor nunca fez versos? —Quem é que não os fez aos dezoito anos? —Eu!... Tenho dezoito anos e nunca fiz um só.
—Inspira-os, que é melhor.
—Obrigada! Já lhe inspirei alguns? —A senhora... D. Emília?...
—A senhora... Por que não me chama Mila? É como me tratam os que me querem bem.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.