Por José de Alencar (1860)
Helena – Não se envergonha, porém, do que praticou; não se lembra que, por mais de um ano, foi sustentado por uma mulher da minha qualidade.
Vieirinha– Não dou peso ao que diz.
Helena – E não deve dar mesmo: porque a mulher que chega a amar um homem como o senhor é bem desprezível!... (Vieirinha quer sair)
CENA V
(Os mesmos e Carolina)
Helena – Pois não! Agora há de ouvir-me!
Araújo (à Carolina) – Sente-se melhor?
Carolina – Pouco... Mas os senhores aqui... Luís... Sr. Ribeiro...
Ribeiro – Incomoda-lhe a minha presença?
Carolina – Não!... Mas por que não a trouxe?
Ribeiro – Nossa... Sua filha?...
Carolina – Tinha tanta vontade de vê-la!...
Ribeiro – Espere!... Voltarei antes de uma hora com ela.
Helena – Por que te levantaste, Carolina? Estás tão fraca!....
Carolina – Falavas tão alto!...
Helena – É este sujeitinho... Tu o conheces bem! Fez-me exasperar!... diz que se envergonha de conhecer-me... porque vai casar-se.
Carolina – Casar-se?... Ele!... Com quem, meu Deus?
Meneses – Com a filha de um homem de bem.
Araújo – Que não o conhece certamente.
CENA VI (Carolina, Luís, Meneses, Araújo, Helena e Vieirinha)
Helena – Hei de contar-lhe uma história. Ah! As minhas cartas o comprometem!...
Veremos as suas...
Vieirinha – As minhas?...
Helena – Os bilhetinhos que me escrevia pedindo-me que lhe valesse, que fosse desempenhar o seu relógio.
Araújo – Serão um bom presente para o futuro sogro do senhor.
Helena – Está dito; vou mandá-las amanhã! Tenho-as aqui.
Vieirinha – Helena!...
Meneses (a Araújo) – Como lhe avivou a memória. Já sabe o nome.
Vieirinha – Escuta!
Helena – Não me comprometa, meu senhor!
Carolina – Vem cá, Helena.
Helena – O que queres?
Carolina – Nunca te pedi nada. Dá-me estas cartas.
Helena – Para quê?
Carolina – Dá-me!
Luís – Que vai fazer?
Carolina – Vingar-me!... Aí tem!... rasgue essas provas que o podem denunciar; case-se com a filha desse homem de bem; entre no seio de uma família honrada; adquira amigos!...É a minha vingança contra essa gente orgulhosa que se julga superior às fraquezas humanas.
Luís – Não fale assim, Carolina; a sociedade perdoa muitas vezes.
Carolina – Perdoa a um homem como este; recebe-o sem indagar do seu passado, sem perguntar-lhe o que foi; contanto que tenha dinheiro, ninguém se importa que a origem dessa riqueza seja um crime ou uma infâmia. Mas, para a pobre moça que cometeu uma falta, para o ente fraco que se deixou iludir, a sociedade é inexorável! Por que razão? Pois a mulher que se perde é mais culpada do que o homem que furta e rouba?
Meneses – Não, decerto!
Carolina – Entretanto, ele tem um lugar nessa sociedade, pode possuir família! E a nós, negam-nos até o direito de amar! A nossa afeição é uma injúria! Se alguma se arrependesse, se procurasse reabilitar-se, seria repelida; ninguém a animaria com uma palavra, ninguém lhe estenderia a mão... (Vieirinha sai, deixando aberta a rótula)
CENA VII
(Carolina, Luís, Meneses, Araújo e Helena)
Meneses – Talvez seja uma injustiça, Carolina; mas não sabes a causa?... É o grande respeito, a espécie de culto, que o homem civilizado consagra à mulher. Entre os povos bárbaros ela é apenas escrava ou amante; o seu valor está na sua beleza. Para nós, é a tríplice imagem da maternidade, do amor e da inocência. Estamos habituados a venerar nela a virtude na sua forma a mais perfeita. Por isso na mulher a menor falta mancha também o corpo, enquanto que no homem mancha apenas a alma. A alma purifica-se porque é espírito, o corpo não!... Eis por que o arrependimento apaga a nódoa do homem, e nunca a da mulher; eis por que a sociedade recebe o homem que se regenera, e repele sempre aquela que traz em sua pessoa os traços indeléveis do seu erro.
Carolina – É um triste privilégio!...
Meneses – Compensado pelo orgulho de haver inspirado ao homem as coisas mais sublimes que ele tem criado.
Luís – Penso diversamente, Sr. Meneses. Por mais injusto que seja o mundo, há sempre nele perdão e esquecimento para aqueles que se arrependem sinceramente: onde não o há é na consciência. Mas não se preocupe com isto agora, Carolina; vê que não lhe faltam amigos, e essa mão que deseja, aqui a tem!
Carolina – Deixa-me beijá-la!
Luís – Não se beija a mão de um irmão; aperta-se!
CENA VIII
(Os mesmos e Pinheiro)
Helena – Quem é o senhor?
Pinheiro – Um moço que veio no meu tílburi entrou aqui... Não posso esperar mais tempo; são nove horas.
Helena – Como se chama?
Pinheiro – Vieirinha.
Helena – Ah! Já saiu! Pregou um calote!
Araújo – Para não perder o costume.
Meneses – Helena não lhe deu os dez tostões!
Pinheiro – Helena!... Os senhores!... Aqui!... E ela! Carolina!...
Carolina – Quem me chama?
Pinheiro – Ah!
Helena – Sr. Pinheiro!...
Pinheiro – Como
está magra e pálida!... Oh!... Deus é justo!
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.