Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Criado (da porta) O senhor doutor André de Araújo. (vai-se —cumprimento geral)
Firmino Tenha V.S.ª a bondade de sentar-se. André V.S.ª me desculpe: sou um cavalheiro que profundamente ofendido vem dar e exigir contas.
Firmino Exigir?...
André
Amo sua pupila e por ela autorizado, pedi-lha em casamento: V.S.ª negou-ma: não quero esclarecer o motivo; sou, porém, tão conhecido e, direi, tão estimado nesta capital, que ter-me-ia sido fácil obrigá-lo a sujeitar-se ao que me recusou.
Firmino Senhor doutor...
André
Não quis fazê-lo: confiando plenamente na senhora que amo, preferi esperar a expô-la e exporme às discussões públicas sobre a noiva em depósito e o casamento com intervenção da autoridade. Eu desejava receber minha esposa no altar, sem notoriedade de oposição e de contendas; para que não atacasse de leve nem o mais rápido olhar de reparo injustamente malicioso. V.S.ª me obrigou ao contrário.
Firmino Tutor de Corina, só darei ao juiz dos órfãos contas do meu proceder, enquanto ela for solteira, e de sua fortuna a seu marido logo que se case. Não tenho a honra de ver em V.S.ª nem juiz, nem marido.
André
Venho da casa do juiz dos órfãos que condenando a recusa, com que V.S.ª me repeliu, ofereceume toda ação da sua autoridade e nem para isso precisei mostrar-lhe o que o meu amor e o santo pudor de sua honestíssima pupila impunham-me o dever de ocultar. V.S.ª sabe o que é...
Firmino Mas ignoro ainda o fim da acerba visita de V.S.ª
André
Exigir explicações desta carta anônima, caluniosa e malvada que hoje recebi. (apresenta a carta) Tenha a bondade de lê-la! V.S.ª, como tutor, tem obrigação de destruir torpes falsidades e de vingar a honra ultrajada da sua pupila. Senhor Firmino! Vim pedir-lhe... quero o nome do difamador aleivoso... quero-o! porque em falta do tutor... eu, o noivo de Corina, tenho o direito e o dever de punir o miserável...
Teóf.
André!...
Firmino V. Sª. certamente não teve a idéia de referir-se a mim, quando pronunciou as palavras difamador e miserável...
Teóf.
É preciso não esquecer que ele ama d. Corina, e que o seu coração deve estar abrasado de cólera... André! André!...
André
(a Firmino) Eu não estaria falando a V.S.ª se o julgasse autor desta afronta: as culpas do tutor são grandes... mas são outras: tenha a bondade de ler. (apresenta a carta)
Firmino Uma carta anônima rasga-se e despreza-se.
André
Mas eu li esta carta, senhor! V.S.ª deve lê-la também! Ela mancha a sua casa... traz uma nódoa para a sua família... deve lê-la...
Firmino V.S.ª tem necessidade de acalmar-se: quero ceder... lerei este vergonhoso escrito. (recebe a carta e lê: Teóf. procura sossegar André: comoção geral)
Cena 7ª
Teodora - Júlia - Corina - Suzana - Teófilo - Firmino - André e Peregrino
Peregrino (indo a Júlia) Que é isto aqui por casa?
Júlia (a Pereg.) Começo a crer que é a providência que vai entrar nela.
Peregr.
(a Júlia) A providência? Não conheço tal senhora.
Júlia (a Pereg.) Pois talvez tenhas de sentir que ela te conhece.
Firmino (rasgando a carta) É uma falsidade indigna que, despedaçada pelo desprezo, o meu criado varrerá do chão.
André
Mas eu não posso prescindir do nome e da confissão do caluniador!...
Cena 8ª
Teodora - Júlia - Corina - Suzana - Teófilo - Firmino - André - Peregrino - Carlos - Estefânia e Simão de Souza
Carlos E ei-los aqui minha mãe.
Teodora (correndo a porta) Bem-vindos sejam! (toma as mãos de Estef. e Simão, vem com eles à frente) Senhor doutor André de Araújo, quer o nome e a confissão do caluniador?... (ajoelha-se) a caluniadora fui eu! Mas que castigo! Meu filho, sem o pensar, maldisse de mim; minha filha, sem o pensar, chamou-me perversa! (comoção dos filhos) Deus puniu a mãe com a sentença dos filhos!...
Estef. Teodora... eu não compreendo... Simão E eu ainda menos...
Teodora Com o fim de arredar pretendentes de Corina, a quem eu por vil ambição destinava para a esposa de meu filho, disse em pérfido segredo a Estefânia e ao sr. Simão de Souza que essa aliás, virtuosa donzela, entretinha relações secretas... era... oh!...perdão!... Estefânia! Senhor Simão de Souza! Eu menti!... caluniei a pupila do meu marido!... Perdão... oh... e tu, Corina, pelo amor de Deus, perdão... (chorando)
Corina (Correndo a ela) Minha mãe... eu lhe perdôo e a amo!... (abraça Teod - Carlos e Júlia vão levantar Teod: Carlos beija a mão de Corina)
Firmino Basta, Teodora.
Teodora Não: confessei o meu crime; não carregarei, porém, com o de outrem. Eu não fui autora da carta anônima, em que se explorou a minha calúnia; não fui: juro-o!... André Quem foi então o desgraçado?...
Carlos (olhando Peregr) Se ele está presente, e não ousa declarar-se, é muito infame!... (confusão de Peregrino)
Teodora (com os olhos em Peregrino) É muito infame!
Corina (voltando o rosto com desprezo) É muito infame!...
André
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.