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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

CLARIMUNDO – Úrsula!... tu foste má... tu és... tu mentes, e Deus te castiga, Úrsula! antes do teu casamento nós nos amamos.

ÚRSULA – Clarimundo! eu quero sair... abre-me a porta...

CLARIMUNDO – Houve em nosso amor uma hora de delírio...

ÚRSULA – Oh! eu quero sair.. . abra-me a porta, ou grito!

CLARIMUNDO – O fruto do amor criminoso que se escondeu ao mundo, me foi confiado... depois a traição do casamento com a riqueza do velho milionário fulminou o meu amor... o que eu senti então foi ódio e raiva... Úrsula! eu te supus mãe desnaturada, e vinguei-me!... recebeste o anúncio da morte de nosso filho... mas...

ÚRSULA – E... então?... (Ansiosa.)

CLARIMUNDO – Meu filho... não... não... tu foste má... tu és má... (Indo abrir a porta.) podes sair...

ÚRSULA – Oh! não!... fala!... não quero sair... acaba!

CLARIMUNDO – Pois bem... eu menti... nosso filho vive!...

ÚRSULA – Meu filho!...

CLARIMUNDO – Castigo de Deus! tu lhe cavaste a perdição... procuraste perverter-lhe a esposa... armaste contra ele com o teu dinheiro a perversidade de teu irmão...

ÚRSULA – Adriano!... meu filho!...

CLARIMUNDO – Castigo de Deus! é completa a ruína de nosso filho, e hoje, atraiçoado por Fábio, perseguido pelos credores, já suspeito de um crime... a prisão... a desonra.

ÚRSULA – Oh! é falso! é impossível! inda há pouco ele estava aqui...

CLARIMUNDO – Sim e foi escapar à perseguição que o ameaçava aqui mesmo...

ÚRSULA – E tu que és seu pai... e tu?...

CLARIMUNDO – Não te disseram que estou pobre? ...

ÚRSULA – Oh! tanto melhor! eu ainda sou rica... eu somente o salvarei! onde está meu filho?... onde está?...

CLARIMUNDO – Úrsula! os compromissos são enormes...

ÚRSULA – Não excederão ao que possuo... e Adriano é meu filho... é... eu o sinto no coração... e tu não sabes talvez... mas tenho um sinal para reconhecê-lo... onde está ele?... depressa... eu quero ter a dita de salvar meu filho!...

CLARIMUNDO – Úrsula!... serás capaz de tão grande sacrifício?...

ÚRSULA – Tudo... tudo... tudo... e não é sacrifício... é glória... depressa...

CLARIMUNDO – Deus negou-te essa consolação: sou mais rico do que tu,

Adriano está salvo.

ÚRSULA – Ah!... embora!... abençoado sejas!... abençoado em nome de meu

filho...

ADRIANO (Batendo devagar) – José... abre, José!

ÚRSULA (Querendo correr.) – Meu...

CLARIMUNDO (Detendo-a.) – Contenha-se: Adriano sabe já que sou seu pai, mas deve ignorar quem é sua mãe, até que Helena esteja livre de perigo. (Em meia voz.) ÚRSULA (Abatendo-se.) – Ah!

ADRIANO (Batendo devagar) – José... José...

CLARIMUNDO – É preciso mesmo que ele a não encontre ao lado de Helena:

profundamente ressentido da mais vil perfídia de Fábio, volta sem dúvida suspeitoso...

desabrido... e seria cruel para todos nós... e sobretudo para ti... Úrsula.

ÚRSULA – Meu Deus!... meu filho me aborrece...

ADRIANO (Dentro.) – Quem fala aí?... José! abre.

CLARIMUNDO – Confia em mim, Úrsula: entra neste gabinete e espera-me.

ÚRSULA – Tenha compaixão da mãe de seu filho. (Entra no gabinete.)

CENA XII

CLARIMUNDO, que abre a porta, e ADRIANO

ADRIANO – Meu pai! e Helena?

CLARIMUNDO – Não há novidade.

ADRIANO – Ah!... (Respirando.) mas quando cheguei à porta do quarto antes de sair, estava lá dª. Úrsula... já se retirou?...

CLARIMUNDO (Afastando-o do gabinete.) – Fala baixo: porque o perguntas?...

ADRIANO – Eu não quero a irmã de Fábio junto de minha mulher.

CLARIMUNDO – Mais baixo: que sabes de dª. Úrsula?

ADRIANO – Acabo de abrir os olhos... fui indignamente comprometido e atraiçoado por Fábio; não creio que essa mulher seja alheia...

CLARIMUNDO – Simples desconfiança... eu também desconfiei; mas reconheci que fui injusto. Dª. Úrsula está inocente; deves respeitá-la.

ADRIANO – É irmã de Fábio: rogar-lhe-ei o favor...

CLARIMUNDO – Adriano... quero que ames e veneres essa senhora...

ADRIANO – Oh! mas é impossível!... meu pai... ela deve sair da minha casa.

CLARIMUNDO – Silêncio! És capaz de dominar-te para obedecer-me?...

ADRIANO – Meu pai...

CLARIMUNDO – Tu não podes fechar a porta de tua casa a dª. Úrsula... deves respeitá-la e amá-la, porque... silêncio... domina-te... ela é tua mãe... (Em voz muito baixa.)

ADRIANO – Oh!... minha... (Grande comoção.)

CLARIMUNDO – Silêncio! Há vinte e seis anos que eu a fiz acreditar na tua morte... agora escuta: as emoções do reconhecimento da mãe e do filho poderiam ser fatais a Helena; tu, Adriano, domina-te: filho do amor misterioso, não podes ser o primeiro a romper o segredo do teu nascimento, envergonhando tua mãe e abatendo-a na sociedade. Espera que Úrsula fale... é o seu dever de mãe, e o seu direito de senhora....

ADRIANO (Com esforço.) – Obedecerei... ela porém... (Com doçura.) minha mãe já sabe... que eu sou seu filho?...

CLARIMUNDO (Pronto.) – Não... e portanto bem vês que não podes... oh! sinto rumor lá dentro...

ADRIANO – Eu vou..

CLARIMUNDO – Espera a ordem do médico: o rumor não é de aflição... foi

Helena que despertou... eu volto para levar-te. (Vai-se.)

ADRIANO – Meu Deus...

CENA XIII

ADRIANO e logo ÚRSULA

(continua...)

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