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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

De fora, disse a Maurícia que lhe queria revelar uma coisa antes de ir para o serviço. Tinha natural explicação esta visita matinal. Ao descer na véspera para o seu dormitório, Faustino, moleque de serviço da casa, muito pegado com Paulo, da sua mesma idade, lhe revelara em segredo uma suspeita que tinha. Parecia-lhe que Maurícia deixaria o engenho naquele dia, depois que Paulo partisse para as lavouras e Albuquerque para a cidade. A suspeita de Faustino tinha racional fundamento. No dia anterior, Maurícia mandara uma carta por ele a certa senhora, que morava na cidade, a qual, ao entregar a resposta, lhe dissera: — “Diga a D. Maurícia que pode vir amanhã sem susto. Há de achar-me com as portas e os braços abertos para recebê-la.” Essa senhora - D. Joaquina Vilares - era mãe de uma condiscípula de Maurícia, com a qual tivera boas relações no colégio. A amiga de Maurícia falecera, quando ainda ela estava no Pará; mas, ultimamente, por ocasião de uma reunião familiar em casa de uma amiga comum, Maurícia e D. Joaquina se tinham dado a conhecer. D. Joaquina era viúva, não tinha filhos, e vivia pobremente de fazer doces de carregação. No engenho, ninguém conhecia essas relações.

Paulo, achando jeito no que Faustino lhe dissera, quis voltar imediatamente ao pavimento superior, mas a vontade de seu pai era para ele a mais sagrada das leis. Pôs-se, então, a pensar no que havia de sobrevir-lhe depois da ausência de Virgínia. O pensamento que lhe ocorreu foi o de que não teria forças para sobreviver a semelhante desgraça. Dócil, brando, terno como era, em vão procurou em si espíritos em que se elevar até à altura das circunstâncias. -“Hei de morrer, hei de morrer de desgostos, de saudades” - dissera ele. Para acrescentar o vulto do fantasma que encheu a sua imaginação, antes povoada de risonhas formas em que se refletiam todas as luzes do primeiro amor e se desenhavam todos os sorrisos dos vinte anos inocentes que ainda passaram sobre uma cândida existência, acudiu-lhe à lembrança um fato que muito o impressionara alguns anos antes. O seu professor, talvez para lisonjear o amor-próprio de Albuquerque, se não foi por natural prazer de proporcionar ao discípulo uma lição sã e edificante, escolhera a história de “Paulo e Virgínia” para um livro de leitura. Paulo nunca mais se esqueceu de tão sublime história, e o que nela mais o impressionara fora a morte do seu homônimo - e a morte pelas saudades, pela perda daquela a quem dedicava o seu insigne afeto. Agora todo o poema de Saint-Pierre surgiu-lhe na imaginação como uma ameaça, como um estranho agouro. Mais de uma coincidência aumentou não sem razão os seus supersticiosos pavores. Seu nome, o da menina, a ausência desta eram reais; por que razão não havia de realizar-se e também o de seu acabamento, como o do Paulo da história, que ele julgava tão verdadeira como a sua própria história? Entrando no quarto de Maurícia, as palavras que proferiu foram estas:

— Virgínia, Virgínia, eu sei que não nos havemos de ver mais.

— Quem lhe disse isto, Paulo? - atalhou Maurícia.

— Quem me disse? Ninguém, mas eu sei que há de ser assim. Eu sei que a senhora deixará hoje o engenho e me levará Virgínia. Não tenho forças para impedir esta separação; quem tem não a quer impedir; o que me resta pois?

— O que lhe resta? Crer no futuro. trabalhar e esperar.

— Então a senhora cuida que sem Virgínia eu poderia trabalhar e esperar? Eu não quero a vida sem Virgínia, não quero viver um momento sem ela.

— Que está dizendo, Paulo? - interrogou Maurícia com sobressalto, que não pode disfarçar.

— E porque não hei de viver muito tempo sem Virgínia, aqui lhe trago o que eu estava ajuntando para lhe dar no dia do meu casamento.

Paulo tendo dito tais palavras, apresentou a Maurícia, para que a recebesse, uma caixinha preta sem entalhes e sem relevos.

— Mas o que vem a ser isto?

— Há de achar aqui o dinheiro que há três anos eu guardo. Ele pertence à Virgínia. Para que o quero, se ela me é arrebatada, e eu fico só e triste? Receba este penhor da minha infeliz afeição. Eu não quero nada para mim desde que perco Virgínia para sempre.

— Para sempre! - exclamou banhada de lágrimas a inocente menina. Paulo, Paulo, não diga isto. Não repita estas palavras que não terei forças para as ouvir sem morrer.

Paulo e Virgínia estavam abraçados, e as suas lágrimas pareciam-se com dias fontes que deviam não secar nunca mais.

A luz risonha do sol que nesse momento penetrou no quarto, através dos vidros da janela, veio tirar o rapaz do longo e desalentado amplexo. Em baixo, já se ouviu a voz de Albuquerque. Os negros tinham partido para o serviço.

Era tempo de deixar o aposento.

Paulo pode separar-se de Virgínia, mas não pode ainda suster o pranto. Deu o andar para a porta, procurando encobrir o rosto aos olhos de Maurícia. esta chorava como ele, e tinha como ele, na alma a maior das angústias.

Quando Paulo ia já a desaparecer, Maurícia percorreu com um olhar o âmbito do aposento. Virgínia estava caída com a cabeça entre as mãos sobre a cama, onde curtira durante a noite a sua imensa dor. Seus soluços abafados repercutiram no coração de Maurícia como os ecos de fúnebre surdina. Em presença desta cena angustiosa, ela - a comovida mãe - não pode senhorear o seu sentimento. Chamou Paulo.

— Paulo, venha cá. Não se entristeça. A tristeza não quadra bem a vocês, meigas crianças. Sua felicidade triunfou. A vencida sou eu. O meu sossego, a minha liberdade, estes imensos bens da vida, este, sim, acabo de perdê-los neste momento. Sobre as suas ruínas levantam vocês o edifício de sua ventura, que Deus há de abençoar. Sustenham as lágrimas. Seja eu a única pessoa que nunca as tenha estanques senão na sepultura. Leve consigo as suas economias, e diga a seu pai que estou resolvida a reconciliar-me com o pai de Virgínia. Não posso mais resistir.

Paulo e Virgínia, por impulso simultâneo, difícil de explicar-se, mas fácil de compreender-se, correram a abraçar aquela que tinha o poder de os fazer chorar e de os fazer sorrir como se fora uma divindade misteriosa e fatal.

CAPÍTULO X

(continua...)

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