Por Bernardo Guimarães (1872)
Certo de não poder obter o consentimento de seus pais, Eugênio tomou o partido de enganá-los. Como estava em vésperas de partir para o seminário, mostrou-se com grande desejo de ir passar um dia e uma noite com um primo seu, que morava na vila e a que de fato era sumamente afeiçoado, e para esse fim pediu permissão a seus pais. Estes, vendo o estado de tristeza e abatimento em que ia caindo seu filho, e considerando que aquele passeio poderia ser uma salutar distração para fazê-lo esquecer-se de Margarida, não ousaram negar a permissão pedida; antes a concederam com sumo gosto, e até o autorizaram a ficar na vila os dias que quisesse.
À tardinha desse mesmo dia, o rapaz montou a cavalo, e tomou o caminho da vila, mas lá não chegou. O caminho, que se dirigia da fazenda de Antunes para a vila Tamanduá, ia ganhar a estrada real meia légua além da casa de Umbelina, pela frente da qual, como já sabemos, passava essa mesma estrada. Apenas Eugênio nela entrou, colheu as rédeas ao animal, retardando-lhe o passo o mais que podia. Quando porém a noite de todo se fechou, voltou de súbito as rédeas, e voltando a galope pela estrada real voou direito à casa de Umbelina.
Pretendia ali passar a noite, enquanto durassem os divertimentos, findos os quais montaria de novo a cavalo e viria amanhecer na vila.
Ressoavam as violas e adufes; o folguedo já tinha começado à sombra da figueira do terreiro.
Além do luar, que estava soberbo, duas grandes fogueiras acesas no terreiro a alguma distância, iluminavam de modo original e pitoresco o âmbito, dentro do qual se desenhavam destacando-se vivamente as figuras daquela curiosa e interessante reunião, uns no centro, dançando, outros em derredor, sentados pelo chão ou em tamboretes e cepos de pau. O clarão das fogueiras avermelhava a cúpula gigantesca da figueira, que com sua espessa folhagem abrigava os convivas do orvalho frio da noite.
Eugênio chegou-se à roda tolhido e ressabiado. Porém Margarida, que apenas o avistou, soltou um grito de alegre surpresa, e veio imediatamente colocarse ao pé dele, fez com que logo cobrasse ânimo e presença de espírito, e tomasse assento na roda com todo o desembaraço.
Atraídos pela beleza de Margarida, como dissemos, alguns rapazes freqüentavam a casa de Umbelina, e lhe requestavam a filha. Esta, porém, não lhes dava a mínima atenção, e em sua cândida inocência nem mesmo suspeitava o verdadeiro motivo, por que tanto a festejavam.
Entre esses aspirantes ao amor da rapariga, o que mais padecia era um certo rapaz por nome Luciano. Era um moço que teria a rigor os seus vinte e cinco anos, de bonita e agradável presença, tropeiro bem principiado, que já tinha alguns lotes de burros no caminho do Rio, e que além de tudo se tinha em grande conta de bonito, de rico e de bem nascido, pelo que não deixava de ser sumamente ridículo, quando não era insolente.
Cheio de si olhava os demais pretendentes por cima dos ombros, e sorria-se deles no intimo da alma com desdém e compaixão, porque estava profundamente convencido que ninguém mais do que ele estava no caso de merecer a preferência da encantadora menina e as boas graças da senhora Umbelina. No meio de todos aqueles pés-rapados que ali andavam, quase todos gente de cor e sem eira nem beira, ele, o único que possuía alguma coisa, e que se trajava com decência, ele, o único branco legítimo que ali pisava, não tinha o menor receio de ser preterido por quem quer que fosse; pelo menos esta era a sua firme convicção.
Luciano não conhecia a Eugênio, a quem nunca em sua vida tinha visto, e estava muito longe de suspeitar que Margarida tivesse um amante, cujo amor corresponde-se. Quando viu pois a não disfarçada e especial predileção de que Margarida o rodeava, o tom de íntima familiaridade com que conversavam, e mais certos sinais inequívocos de uma mútua e ardente afeição entre os dois, Luciano foi aos ares; sentiu ferver-lhe no coração o veneno do ciúme, e a muito custo pôde abafar no peito um bramido de cólera e despeito.
CAPÍTULO XII
A quatragem é a dança pitoresca dos nossos camponeses, dança favorita do roceiro em seus dias de festa, e que faz as delicias do tropeiro nos serões do rancho após as fadigas da jornada.
Dança vistosa e variegada, entremeada de cantares e tangeres, cantiga maviosa, já freneticamente sapateada ao ruído de palmas, adufes e tambores.
Sem ter o desgarre e desenvoltura do batuque brutal, não é também arrastada e enfadonha como a quadrilha de salão; ora salta e brinca estrepitosa e alegre, ora se requebra em mórbidas e compassadas evoluções.
Como o próprio nome indica, forma-se de um grupo de quatro pessoas. A música é desempenhada pelos dançantes que além de uma garganta bem limpa e afinada, devem ter nas mãos ao menos uma viola e um adufe. Há uma quantidade incalculável de coplas para acompanhar esta dança, e a musa popular cada dia engendra novas. São pela maior parte toscas e mesmo burlescas e extravagantes; todavia algumas há impregnadas dessa maviosa e singela poesia, que só a natureza sabe inspirar.
Dançava-se a quatragem no mutirão da tia Umbelina.
Margarida estava sentada junto de Eugênio, de cujo lado não se arredara, desde que este havia chegado.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.