Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Entretanto, o que não se pôde bem comprehender, o que a propria D. Violante com toda a sua experiência de 61 annos não seria capaz de explicar, é a festa, a corte, o agrado, o affecto com que dous dias depois no Club Fluminense foi Clemência obsequiada pelos tres pretendentes á mão da velha.
Não foi um só, fórão todos tres que cercarão e renderão mil finezas á formosa moça, que a principio mostrou-se um pouco resentida, e afinal deixou-se commover por elles.
Dir-se-hia que cada um por sua vez se esforçava por demonstrar a Clemência que nunca deixara de morrer de amores por ella.
Antônio, Ambrosio e Claudiano forão iguaes no proceder, no fallar, e no requestar Clemência: erão tres homens com a mesma alma e o mesmo coração. Cada um d'elles mereceu da bella moça uma contradansa, uma valsa, e um passeio ; cada um d'elles, como se todos tres se houvessem para isso ajustado, declarou a Clemência, jurando por todos os santos do céo, que pedira Violante em casamento levado pelo desespero de não poder merecer a mão da formosa joven ; e o que esta respondeu muito em segredo a cada um d'elles foi um doce mysterio, que o Sr. Antônio
encobrio cuidadoso do Dr. Ambrosio e de Claudiano, que o Dr. Ambrosio occultou cora o maior empenho de Antônio e de Claudiano, e que Claudiano não diria a Antônio e ao Dr. Ambrosio, nem mesmo a preço de vinte cartadas felizes e consecutivas no lansquenet.
Ainda bem que a velha D. Violante não foi ao Club Fluminense n'aquella noite.
Parece que a moça preparava uma batalha decisiva contra a velha.
Quaes os seus meios de acção ?... o poder dos seus encantos triumpharia em fim da portentosa influencia dos trezentos contos de réis de D. Violante?... Não é licito acredital-o.
Como então vai Clemência conseguindo operar tão notavel transformação no espirito dos tres calculistas ?...
É um mysterio.
Dizem que as moças não sabem guardar segredo: sabem, sabem : quando lhes faz conta, sabem.
Moças !... Pensão alguns que essas borboletas que adejão ligeiras e inconstantes, são incapazes de forjar planos intrincados e difficeis, e mais incapazes ainda de preparar uma vingança calculada e habil. Engano : quando se trata de amor, ellas todas são mais astutas do que o mais adextrado diplomata, e feridas em sua vaidade sabemvingar-se dextramente, e ás vezes sem piedade. São rosas, sim ; mas por ventura as rosas não têm espinhos ? ..
O dia da segunda-feira chegou, e Clemência
não se fez esperar por Violante.
— A que horas devem chegar os seus tres
pretendentes, perguntou a moça.
— Pois já te não lembras ?... ás duas horas,
minha sobrinha esquecida.
— Ainda bem : temos tres horas diante de nós.
Então conta com elles minha tia ?
— Não ha duvida possível, visto que não me tornei pobre de rica que era. Conto com elles e até lhes mandei preparar um bom jantar.
— Deus queira que não jantemos sós, minha tia
— Incredula !...
A despeito das suas esperanças, Clemência estava um pouco receiosa ; Violante porém confiava na sua boa fortuna.
— Já tomou a sua resolução, minha tia ?...
— Caso-me decididamente, respondeu Violante, rindo.
— E qual dos tres prefere ?...
— Na questão de preferencia é que está o meu unico embaraço : creio que o melhor dos tres é o doutor...
Entrou n'esse momento um escravo na sala e entregou umac arta a Violante
— Vê o que contem esta carta, disse a velha á sobrinha. Clemência abrio e leu sem hesitar :
« Minha senhora. — Com o mais profundo pezar e cedendo a circumstancias com que não contava, sou obrigado a desistir das minhas pretenções á mão de V. Ex. Não podendo ser o esposo, será sempre o mais obediente escravo de V. Ex.
— O Dr. Ambrosio.
— E esta! ..exclamou Violante, tomado a carta da mão de Clemência e lendo-a quasi com incredulidade.
— É um de menos, minha tia : mas ainda lhe ficão dous.
— Sim, e preferirei o negociante que me há de augmentar a fortuna.
O escravo entrou outra vez com uma segunda carta.
Violante não deu mais a carta á sobrinha: abrio-a e leu : era do Sr. Antônio, e dizia pouco mais ou menos o mesmo que dissera na sua o Dr. Ambrosio.
A velha não pronunciou uma unica palavra : poz-se a arranjar a touca eos óculos.
— Lá se foi o segundo ! mas ainda bem que ainda lhe resta um ; observou Clemência.
— Sim... o peior de todos... o jogador que esbanjaria a minha fortuna em poucos mezes :
está visto que esse não me voltará as costas... e...
E o escravo entrou na sala pela terceira vez, trazendo uma terceira carta.
— Lê... lê, Clemência, porque eu não acreditaria nos meus oculos.
Clemência abrio a carta e leu : tal e qual como as duas primeiras, essa continha uma despedida formal e as desculpas de Claudiano.
— Todos tres!... exclamou a velha ; todos tres!... mas é inacreditavel!...
— Minha tia, a verdade não é sempre verosimil.
— Porém todos tres !... ah ! sim... adivinho
— Adivinha o que ?...
— N'estes ultimos tres dias os calculistas descobrirão uma velha mais rica do que eu sou.
Clemência desatou a rir.
— De que ris ?...
— Da sua derrota, minha tia.
— Tu porém não venceste ..
— Quem sabe ?...
— Falia.
— Ainda é cedo: o seu dia foi hoje, segundafeira : o meu é amanhã, terça-feira.
— Mas então que faremos hoje ?. .
— Jantaremos sós, minha tia.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.