Por José de Alencar (1875)
- O Recife é realmente tão bonito como dizem?
- Creio que poucas cidades do mundo lhe poderão disputar em encantos de perspectiva e beleza de situação.
- Nem o nosso Rio de Janeiro? Perguntou Aurélia com um sorriso.
- O Rio de Janeiro é sem dúvida superior na majestade da natureza; o Recife porém prima pela graça e louçania. A nossa corte parece uma rainha altiva em seu trono de montanhas; a capital de Pernambuco será a princesa gentil que se debruça sobre as ondas dentre as moitas de seus jardins.
- É por isso que a chamam de Veneza brasileira.
- Não conheço Veneza; mas pelo que sei dela, não posso compreender que se compare a um acervo de mármore levantado sobre o lodo das restingas, com as lindas várzeas do Capiberibe, toucadas de seus verdes coqueirais, a cuja sombra a campina e o mar se abraçam carinhosamente.
- Já vejo que o senhor encontrou a musa no Recife, observou Aurélia gracejando.
- Acha-me poético? Não fiz senão repetir o que provavelmente já disse algum vate pernambucano. Quanto à minha musa... ficou anjinho: morreu de sete dias e jas enterrada na poeira da secretária! Respondeu Seixas no mesmo tom.
Tinham entrado várias visitas, cuja chegada interrompeu este diálogo. Aurélia ergueu-se para receber as senhoras, enquanto os cavalheiros se derramavam pela sala esperando o momento de apresentar suas homenagens à dona da casa.
Notava-se a completa ausência dos pretendentes declarados de Aurélia; se algum conseguira ser convidado, devia o favor à circunstância de não revelado ainda suas intenções.
Fatigada das adorações de que era alvo nos bailes e que se transformavam em verdadeira perseguição, Aurélia fizera dessas reuniões em família um como remanso onde se abrigava da obsessão do mundo.
Aproveitando a confusão, Lemos levou Seixas à janela:
- Então enganei-o?
- Ao contrário; nunca eu poderia supor que fosse ela.
- Pois agora que a conhece, é tempo de saber que sou eu o feliz tutor deste amorzinho; e que chamo-me Lemos e não Ramos. Diferença de duas letras apenas.
Enquanto não se fechava o negócio, era preciso guardar o segredo. Compreende? Hein?
Maganão!...
E Lemos beliscou o braço de Seixas, o que era uma das mais significativas demonstrações de sua amizade.
Por meio da noite, a moça ao atravessar a sala quando voltava de despedir-se de uma senhora, viu Seixas recostado a uma janela, pela parte de fora.
A pretexto de fumar, o moço tinha saído ao jardim; e para de todo não seqüestrar-se da sociedade, tomara aquela posição da qual parecia acompanhar com a vista o que se fazia na sala; mas era como se ali não estivesse pela preocupação que nesse momento o reconcentrava.
Essa primeira pausa que lhe deixavam os deveres da sociedade de pois da entrada de Aurélia na sala, seu pensamento a aproveitou para bem compenetrar-se dos fatos que acabavam de passar e aos quais buscava uma causa ou uma explicação.
A moça a pretexto de olhar para o céu veio debruçar-se à mesma janela:
- Está tão retirado! Também cultiva as estrelas?
- Quais? As do céu?
- Pois há outras?
- Nunca lho disseram?
- Talvez alguém se lembrasse disso; mas ainda não achei quem mo fizesse acreditar, respondeu a moça com um sorriso.
Seixas calou-se. Seu espírito além de pouco propenso a esses torneios da palavra, estava cativo de uma idéia importuna.
- Quem sabe se vim perturbar alguma visão encantadora? Insistiu Aurélia.
- Não a tenho. Estava pensando nos caprichos da fortuna que me trouxe esta noite à sua casa. É isto uma graça ou uma ironia da sorte? A senhora é quem poderá dizer-me.
Aurélia desatou a rir:
- Era preciso que eu estivesse na intimidade dessa senhora, para conhecer-lhe as intenções; e apesar de muita gente considerar-me uma de suas prediletas, acredite que no fundo não gostamos.
Isto disse-o a moça galanteando; mas logo ficou séria e prosseguiu:
- O que eu compreendo dessas palavras é que o Sr. Seixas arrependeu-se de não haver empregado melhor seu tempo.
- E tenho eu o direito de arrepender-me! Disso o moço em voz baixa, como temendo
que ouvissem.
- Como está misterioso, meu Deus! Não fala senão por enigmas. Confesso que não o entendo. Carece alguém de direito para arrepender-se de uma coisa tão simples como uma visita!
- Tem razão, D. Aurélia. Desculpe; ainda não me recobrei da surpresa. Vindo a esta casa, não esperava encontrá-la. Estava longe de pensar...
- Tanto lhe desagradou o encontro? Perguntou Aurélia sorrindo.
- Se eu ainda acreditasse em felicidade, diria que ela me tinha sorrido.
- E por que descreu?
Seixas fitou um olhar melancólico no semblante da moça:
- Que interesse lhe pode isso inspirar?... Questão de gênio; a alguns nunca a esperança os abandona, a outros falta de todo a fé, e desanimam com a menor decepção. E a senhora, D. Aurélia? Há pouco ouvi-lhe uma alusão; foi de certo gracejo! Diga-me, é feliz?
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.