Por José de Alencar (1875)
— Quer alguma coisa de mim, sr. Manuel Abreu? perguntou o sertanejo.
— O senhor capitão-mór mandou-me procurar o velho Jó que deitou fogo no mato da fazenda.
— Procure-o; disse Arnaldo laconicamente.
— Não está má a encomenda! Que temos feito desde o romper do dia? Mas o renegado do bruxo abandonou a toca e sumiu-se.
— Cá para mim é trabalho perdido. O velho está nas profundas. Tinha-lhe chegado a hora e êle estourou. O fogo foi pegado pelo ênxofre que êle tinha no corpo, o canalha do bruxo.
— Deixe-se dessas histórias de feitiçaria agora, João Coité, que arrepiam os cabelos da gente, ponderou o feitor.
— É mesmo: fica um homem com as pernas bambas, como se tivesse no bucho uma vez de cachaça.
— Uma não terá você, Burití; mas duas, com certeza.
— Pois é isso, homem. O primeiro trago é que põe a gente banana; o outro conserta.
— Que é que está bolindo alí no mato? Não ouviram gemer?
— Há de ser o caipora; respondeu um mais desabusado.
— Nicácio! Não brinque com estas coisas.
Entretanto Arnaldo seguia adiante sem preocupar-se com os outros. Nesse momento havia parado, com os olhos fitos em uma moita de mimosas, plantas a que o povo dá o nome de malícia de mulher por descobrir no súbito fechar das fôlhas de leve tocadas uma semelhança com as esquivanças das meninas sonsas.
O arbusto, exposto aos raios do sol, tinha em geral os folíolos abertos; mas justamente do lado do nascente um olhar atilado notaria certa flacidez dos pecíolos, que todavia não bastava ainda para murchar as ramas.
— Chuva!
Arnaldo proferiu esta palavra, dirigindo-se a Nicácio que estava ao seu lado; possuído do vivo prazer que a vinda do inverno desperta sempre no homem do sertão, sua alma expandiu-se para dar aos outros as alvíçaras dessa alegria.
— Deus a traga! disse Nicácio.
— Esta noite! tornou o mancebo mostrando ao longe no horizonte um nimbo, tão pequeno, que parecia antes um gavião pairando.
— Porisso eu vi esta manhã uma formiga de asas, acudiu o Burití.
— Mas então, amigo Arnaldo, que nos diz? Sabe ou não sabe onde está o diabo do velho? Voltou-se o mancebo com um modo frio:
— Quando o senhor capitão-mór Campelo m’o perguntar, eu lhe responderei.
— Ah! É isto? Pois tenha paciência, que lhe vamos na cola. Não o largo enquanto não me der conta da carcaça do Jó, que a leve o demo logo duma feita.
Arnaldo encolheu os ombros e continuou a andar mui descansado e indiferente por entre as árvores. O feitor e seus acólitos iam-lhe no encalço, quando súbito o perderam de vista. Correramlhe sus, bateram o mato; mas nem sombra lobrigaram mais do mancebo.
— É à-toa! disse o João Coité. Se o diabo do surrão velho já o embruxou também.
X – O rosário
Era por formosa manhã de dezembro, a terceira que raiava depois da chegada do fazendeiro à sua casa da Oiticica.
Assomando sôbre o capitel da floresta erguida no oriente como o pórtico do deserto, o sol coroado da magnificência tropical dardejava o olhar brilhante e majestoso pela terra, que se toucara de toda a sua louçania para receber no tálamo da criação ao rei da luz.
Na umbria da serra e da espêssa mata que a cinge, a fazenda ainda permanece no crepúsculo da alvoroçada, quando já o dia fulgura pelas várzeas e campinas dalém.
Mas ao fluxo da luz, que sobe e a inunda como a corrente de um rio caudal, aquela zona ensombrada vai rapidamente imergindo-se nos esplendores da aurora.
Com a irradiação da manhã derrama-se a aura que anima a solidão. Dessa terra combusta por longo e abrasado estio, já reçumam os viços que anunciam a poderosa expansão de sua fecundidade.
Na noite seguinte à chegada, como previra Arnaldo, tinha caído a primeira chuva. Desde então, com pequenos intervalos, passavam os aguaeiros do natal que são os repiquetes do inverno.
Embora falhem muitas vezes essas promessas, o sertanejo, como os animais e toda a natureza que o cerca, recebe sempre com intenso prazer as alvíçaras de bom ano.
A primavera do Brasil, desconhecida na maior parte do seu território, cuja natureza nunca em estação alguma do ano despe a verde túnica, só existe nessas regiões, onde a vegetação dorme como nos climas da zona fria. Lá a hibernação do gêlo; no sertão a estuação do sol.
A primeira gota d’água que cai das nuvens é para as várzeas cearenses como o primeiro raio do sol nos vales cobertos de neve: é o beijo de amor trocado entre o céu e a terra, o santo himeneu do verbo criador com a Eva sempre virgem e sempre mãe.
Nunca vi o despertar da natureza depois da hibernação. Não creio, porém, que seja mais encantador e para admirar-se do que a primavera do sertão. Aquí a transição se opera com tal energia que assemelhava-se de certo modo à mutação.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.