Por José de Alencar (1870)
Durante dois dias o gaúcho velou sobre o doente, como faria por um amigo. A mulher já reanimada cobrara sua atividade; mas espavoria-se com a idéia de ficar só, e pediu ao Canho que não se fosse antes de ceder de todo a moléstia.
Ao terceiro dia já Barreda, apesar de muito fraco, dava acordo de si e atendia ao que se passava em torno. A primeira coisa em que reparou foi naquele sujeito, cujas feições não podia distinguir, pela obscuridade do aposento e debilidade de sua vista. Além disso o desconhecido calcara o chapéu desabado e erguera a gola do ponche.
— Quem é? perguntou o enfermo com voz extenuada.
Canho estremeceu.
— O senhor não me conhece. Vinha para tratar um negócio, mas encontrei-o de cama. Ficará para outra vez.
— É verdade. Estou aqui de molho, que não sei se arribarei desta.
— O pior já passou, agora é ter paciência
— Que remédio! Olhe, que foi uma boa peça que me pregou esta macacoa! Precisava ir à casa do Perez receber um dinheiro que me deve um chileno; se não, é capaz de abalar sem pagarme.
— Já ele o fez! Encontrei-o ontem caminho de Corrientes.
— Diabo! Faz-me falta esse dinheiro, disse Barreda agitando-se na cama.
— Não se agonie; vou buscá-lo.
— Como?
— Alcançarei o homem. Dê-me o sinal.
O doente chamou a mulher, que tirou da mala um vale assinado por D. Romero e o entregou a Manuel. Este partiu, no encalço do mascate.
Quatro dias depois estava de volta com o dinheiro. O doente dormia; Manuel não quis vêlo; falou à mulher. Pela primeira vez, depois de tantos dias, Manuel olhou de frente para essa criatura, que fora a causa involuntária da morte de seu pai. Ainda mostrava quanto devia ser bonita há dez anos passados.
O gaúcho desviou a vista com repugnância; e entregando as moedas que recebera do chileno, tratou de pôr-se novamente a caminho. Esse lugar, que já não era o da caridade e não podia ainda ser o da vingança, causava-lhe horror.
Quando se dirigia ao potreiro para montar, encontrou o menino com que falara no primeiro dia.
— Então vai embora?
— Vou; mas voltarei logo. É pena que você não tenha mais dez anos.
O menino estremeceu com o olhar que lhe deitou o gaúcho.
Em caminho, pela primeira vez, refletiu Manuel sobre os últimos acontecimentos, em que se achara envolvido, sem o esperar. Até então não se dera ao trabalho de pensar a este respeito; mas agora, na monotonia de uma jornada perdida, seu espírito era arrastado malgrado pelas recordações tão vivas ainda.
Era possível que ele, filho de João Canho, houvesse um momento sustido nos braços o assassino de seu pai; e não para matá-lo, mas para servi-lo?
Acreditaria alguém que ele, trazido àquele lugar pelo desejo da vingança, se tivesse desvelado durante alguns dias pela salvação do causador de sua desgraça?
Sua própria razão não concebia como isso acontecera. Às vezes vinham assomos de dúvida, que se desvaneciam logo ante a realidade tão recente. Manuel tinha a consciência de sua natureza ríspida e concentrada; a indiferença e frieza que mostrava em seu trato, não provinham de um hábito somente; eram a repercussão interior da pouca estima em que o gaúcho tinha geralmente a raça humana.
Entretanto, nos últimos dias ele fora tão outro, do que era realmente! Desvelos e solicitude que nunca tivera por pessoas de sua família, como os sentira por um estranho, pelo homem que maior mal lhe fizera neste mundo?
O espírito de Manuel agitou-se algum tempo nesse caos de seu coração; até que afinal, desprendeu-se uma centelha e os lábios murmuraram:
— Eu tenho de matá-lo!
Aí estava a razão. Aquele homem era sagrado para ele como a vítima já votada ao sacrifício. Aquela vida lhe pertencia; fazia parte de sua alma; pois era o objeto de uma vingança tanto tempo afagada.
A idéia de que ele havia de matar o Barreda, tornava Manuel compassivo não para o assassino de seu pai, mas para o enfermo que se revolvia no leito de dores.
LIVRO SEGUNDO
JUCA
I
PONCHE-VERDE
Ponche-Verde é o nome de um arroio que deságua no grande rio Ibicuí, próximo a suas nascentes.
Não há melhor arquivo para guardar as tradições e costumes de um povo, do que seja uma etimologia topográfica. Na página imensa do solo nacional, escreve a imaginação popular a crônica íntima das gerações. Cada nome de localidade encerra uma recordação, quando não é uma lenda ou mito, que se vai transmitindo de idade em idade até perder-se nas obscuridades do tempo
Quem sabe hoje por que chamaram ao arroio — Ponche-Verde? Acaso o banhado onde ele nasce, coberto de limo, traça a forma característica daquele trajo? Ou será a fina relva das margens, que de longe imita a lustrosa pelúcia do pano?
Talvez nem uma, nem outra coisa. Porventura algum drama vivo, onde representou sinistro papel aquela parte do vestuário nacional do gaúcho, imprimiu à localidade o nome simbólico, hoje vago e incompreendido.
Em todo caso aí está um traço fisionômico da campanha rio-grandense: o tipo gaúcho.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.