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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Helena – Ela coitadinha, a princípio fingiu não se importar; mas depois veio-lhe uma febre... Esteve à morte. Com a moléstia gastamos o que tínhamos; vendemos tudo, e alugamos este cochicholo onde mal cabemos.

Meneses – Com efeito não parece habitação de gente.

Helena – Que remédio?... mas o pior é que não temos nem o que comer! Se ao menos ela já estivesse boa... Neste desespero lembrei-me de escrever àqueles que tínhamos conhecido em outros tempos, ao senhor, ao Araújo, ao Ribeiro, ao Viana...Escrevi até ao próprio Vieirinha!

Meneses – Depois do que ele fez?

Helena – Talvez esteja arrependido, e restitua uma parte do que roubou.

Meneses – Duvido muito; mas fica descansada. Falarei aos outros. Entretanto deve ter necessidades de algum dinheiro... (batem)

Helena – Há de ser algum deles!

Meneses – É natural.

CENA II

(Os mesmos, Luís e Araújo)

Luís – Onde está Carolina?

Helena – Dorme; não a acorde. É o único momento de alívio que tem.

Luís – Está muito doente?

Helena – Agora vai um pouco melhor; mas ainda sofre bastante.

Araújo (a Meneses) – Foi depois daquele dia que estivemos juntos em casa dela.

Meneses – É verdade.

Araújo – Soubeste hoje.

Meneses – Porque Helena me escreveu!

Luís – Eu já sabia há dias; porém não me foi possível descobrir a casa.

Helena – Uma rua tão esquisita!... Quando pensaria eu morar no Saco do Alferes!...

Meneses – Não se acaba por onde se começa, Helena.

Luís – Que é feito do homem que praticou esse roubo infame?

Meneses – Anda por aí muito satisfeito; vai casar-se...

Helena – Que feliz mulher!...

Araújo – E deixa-se que um indivíduo desses goze tranqüilamente do fruto do seu crime? Não havia meio de levá-lo à polícia?

Helena – Com o vexame da doença de Carolina, nem me lembrei de semelhante coisa. Demais, que lucrávamos nós com isso? Faltavam as provas; e quem se prestaria a ir jurar a nosso favor contra um homem conhecido?...

Araújo – Conhecido como um tratante!

Helena – Mas sempre tem amigos; ninguém acreditaria...

Araújo – Não estou por isso.

Meneses – Helena tem razão. Araújo; ninguém lhe daria crédito, ninguém juraria a seu favor; e eu estimo bem que ela tenha consciência de quanto desceu, que a sociedade nem ouve as suas queixas.

Helena – Não falemos nestas coisas agora, Sr. Meneses; já não têm volta...

Araújo – O arrependimento nunca vem tarde.

Helena– Por isso eu vou passando muito bem sem ele.

Araújo – Que mulherzinha!

Meneses – Quantas não existem assim.

CENA III

(Os mesmos e Ribeiro)

Meneses – Oh!... Ribeiro...

Ribeiro – Também vieste?...

Meneses – O mesmo motivo nos trouxe a todos.

Ribeiro – Ah! Mas não se incomodem; eu me encarrego do que for preciso.

Luís – Perdão, Sr. Ribeiro; aprecio a sua delicadeza; mas ela não me dispensa de cumprir o meu dever.

Ribeiro – Creio que é a mim que pertence como pai de sua filha...

Luís – Não senhor: a obrigação de ampará-la é minha e ninguém ma pode contestar. Sou seu parente; e represento aqui sua família.

Meneses – Não há dúvida, Sr. Viana; mas permita-me que lhe diga também que quando se trata de uma boa ação não reconheço em ninguém o direito de excluir-me dela. Sou pobre...

Ribeiro – Não se trata de fortuna, Sr. Meneses: nem um de nós é rico.

Araújo – Pois então façamos uma coisa: associemo-nos, e partilhemos todos o prazer de fazer o bem.

Luís – Não é necessário.

Ribeiro – É ser egoísta, Sr. Viana.

Luís– Desculpe: se estivesse no meu lugar faria o mesmo.

Ribeiro – Estão batendo.

Helena – Vou ver.

Meneses – Pois advirto-lhe que não me sujeito.

Luís – Se o senhor tivesse prometido a uma mãe quase moribunda restituir-lhe sua filha, consentiria que outros a ajudassem a cumprir essa promessa?

Meneses – Por que não? Seria orgulho...

Luís – Talvez, Sr. Meneses; mas um orgulho legítimo. O que sofri por ela dá-me esse direito.

Meneses – Compreendo e respeito essa dor.

CENA IV

(Os mesmos e Vieirinha)

Ribeiro – Que vem fazer aqui?

Vieirinha – O meu negócio não é com o senhor.

Helena – É comigo.

Vieirinha – Justamente. Saiba que fez muito mal em escrever-me.

Meneses – Já eu o tinha dito.

Vieirinha – Ah! Está por aqui, Meneses?

Meneses – Peço-lhe que esqueça do meu nome.

Vieirinha – Que quer dizer isto?

Araújo – Quer dizer que há certos conhecimentos que desonram um homem honesto.

Vieirinha – Não entendo.

Luís – Eu lhe explico. Tenha a bondade de retirar-se.

Vieirinha – Depois de dizer algumas palavras a esta mulher.

Helena – Já não sabe como me chamo?

Ribeiro – De que te admiras? Já não tens dinheiro para dar-lhe.

Helena – Que quer de mim? Vem restituir o que roubou?... Quanto ao que lhe dei não é necessário.

Vieirinha – Não quero que me escreva. Suas cartas podem comprometer-me; estou em vésperas de casar-me.

Helena – Que tem isso?...

Vieirinha – Podem suspeitar que tenho relações com gente de tal qualidade.

Helena – E o senhor envergonha-se?...

Vieirinha – Não lhe parece que é uma honra...

(continua...)

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