Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Suzana Não é sua filha, é sua vítima!
Teod.
Minha tia, não estamos sós...
Suzana Que todos me ouçam! Esta inocente menina é uma vítima, para quem dois abismos estão cavados pelo crime: um deles se preparava na chácara maldita, para onde não irei, nem ela irá...
Firmino Senhora... senhora...
Suzana O outro é a difamação aleivosa, com que para arredar o mancebo honesto que o céu lhe destina para esposo atacam, despedaçam o seu crédito, e com a mais vil calúnia ultrajam a sua pureza!...
Júlia Corina!... A pureza de um anjo. (abraça Corina)
Firmino Senhor Teófilo, não posso explicar o que diz esta senhora... sou alheio a tudo... minha pupila está consternada: enquanto me informo do que se passa, ela vai recolher-se ao seu quarto.
Teóf.
Não, senhor Firmino; o assunto é gravíssimo: trata-se da honra de sua pupila, e ela deve estar presente ao processo e à sentença. Aquela carta é do doutor André de Araújo que nela expôs à protetora de d. Corina horríveis informações que recebeu hoje em outra carta anônima.
Firmino (tomando a carta da mão de Suzana) Quero ver... (lê) Corina... amante de Peregrino!... Oh!... como isto é inf... (encarando Teodora) Eu juro que é falso!
Júlia (com veemência) Que aleive infernal! Que perversidade!... Veja, minha mãe! Veja aquela carta!...
Teodora (luta íntima) Já sei tudo... delírio de ambição...
Júlia Perversidade!... veja!...
Teodora Oh, minha filha... sim... perversidade... perversidade... e castigo de Deus!... (Senta-se à mesa e escreve agitada duas cartas)
Suzana Mas a honra de Corina?... Quem a caluniou?... Quem lhe arma traição? É preciso tudo patente e claro, ou eu sairei à rua, e bradarei pela justiça da terra!
Carlos Sim; porque eu também maldigo do caluniador e quero minha reputação ilesa: qual é o crime que se preparava na chácara?... Devo saber...
Firmino É inútil e imprudente explorar seguidos sinistros, ou suspeitas indecorosas: a partida para a chácara não se efetuará: deixemos isso de parte... está acabado: já tenho confusão e vergonha de sobra...
Teóf.
Sim; esqueçamos o mistério da chácara: seja o que for, esqueçamo-lo pelo brio da família a que vou pertencer; a carta anônima, porém, compromete o nome e a honra de uma donzela inocente... ei-la em torturas de aflição...
Júlia Minha Corina! Minha irmã...
Suzana Cada tormento da inocência vale uma coroa no céu. Levanta a cabeça menina!
Corina Quando minha mãe morreu, eu tinha seis anos: ela me chamou para junto de si... olhou-me... disse chorando: “pobre mártir”... e em um beijo — o último — exalou a vida nos meus lábios. Quando meu pai morreu, eu tinha dez anos... em seu agonizar... ( a Firmino) o senhor estava lá... ele lhe disse: —seja-lhe pai, meu amigo! Lembra-se?... Depois encostando a cabeça no meu seio... murmurou quase já sem voz —coitadinha! — e... (em pranto) adeus, meu pai... adeus, meu pai!...
Júlia Corina!... (chorando)
Corina Palavras proféticas de minha mãe e de meu pai: previram na hora da morte: — pobre mártir, coitadinha — eis o que sou. (Júlia abraça-a)
Teodora (da mesa) Carlos! (Carlos chega-se) Por todo o amor que me deves, por compaixão ao menos, vai a correr e entrega estas duas cartas... depressa... tu sabes onde... aí vai indicado no sobrescrito de ambas: uma no escritório comercial: a outra é para Estefânia: corre, meu filho; eu te peço que corras.
Carlos Sim, minha mãe... seja o que for... devo correr. (vai-se)
Teod.
(à Corina, pondo-lhe a mão no ombro) Corina!... Tu és inocente e casta, como Júlia! A calúnia será destruída...
Teóf.
D. Corina, tranquilize-se: ninguém crê nessa aleivosia satânica; ninguém a ofenderia com uma suspeita, ou eu faria ajoelhar a seus pés o miserável ofensor.
Corina (levantando a cabeça) Mas a aleivosia feriu a triste órfã; e que ela diga mil vezes — é falso — a malícia de uns... a simples dúvida de outros, abafadas, embora no silêncio, estarão sempre a procurar a mancha negra no véu branco da donzela... oh!... Uma pobre menina que já não tem pai, nem mãe, devia ser objeto da compaixão de todos!... Como é que me assassinam assim!...
Firmino Corina... minha filha...
Corina (forte) Sua filha?... E a minha reputação?... Oh!... Tome para seu filho toda a riqueza que meus pais me deixaram; mas eu quero insuspeita a minha honra: eu quero!... Meu tutor! A honra da sua pupila?... Amigo suposto de meu pai! A honra da filha do seu amigo?... Meu Deus!... (com desespero) A minha pureza aos olhos do mundo?... Eu sou inocente!... Sou inocente!...
Cena 6ª
Teodora - Júlia - Corina - Suzana - Teófilo -Firmino - Criado que logo se retira - e André
Criado O senhor doutor André de Araújo pede para ser recebido. (sensação geral)
Corina Oh! (cobrindo o rosto com as mãos)
Firmino Dá-lhe entrada.
Suzana
(à Corina, apertando-lhe as mãos) Filha! Tem
fé!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.