Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CLARIMUNDO (Impaciente.) E Helena poderá esperar?...
CINCINATO (Entrando.) – Boletim da batalha de ontem...
CLARIMUNDO (A José.) – Vai-te. (A Cincinato.) Tu aqui?... e essa maldita mulher.
CINCINATO – Estamos livres dela: pensou que fugia comigo e achou-se em caminho com um substituto que arranjei do pé para a mão.
CLARIMUNDO – E Adriano?
CINCINATO – Ainda não voltou?...
CLARIMUNDO – Desde ontem de manhã... o ingrato!... enquanto a esposa ameaçada talvez da morte.
CINCINATO – Dª. Helena!
CLARIMUNDO – Passou horrível a noite: o médico deixou-a adormecida ao amanhecer; ela, porém, despertou uma hora depois em novo ataque nervoso, e esperem lá o doutor!... agora dormiu outra vez... embora... eu quero um médico à sua cabeceira.
CINCINATO – Em dez minutos está servido... (Tomando o chapéu.)
CLARIMUNDO – Merece confiança? (Para um carro.)
CINCINATO – É moço; mas vale um velho sábio... um carro... e talvez o médico...
CLARIMUNDO – Que seja... vai buscar o outro... um há de ficar aqui.
CINCINATO – Vou como se fosse em velocípede. (Vai-se.)
CENA II
CLARIMUNDO, que acompanha Cincinato até a porta – ÚRSULA
CLARIMUNDO (Ao ver Úrsula.) – Ah! minha senhora...
ÚRSULA (Entrando.) – Sr. Clarimundo. (Dá-lhe a mão) dª. Helena?... o seu médico, que também é o meu, acaba de dar-me notícias que me afligiram... e corri...
CLARIMUNDO – Que pensa ele?...
ÚRSULA – Por ora nada de positivo; porque, pelo que diz, nem pode fazer perfeito exame da doente no estado em que ela se achava..
CLARIMUNDO – É verdade... terríveis fenômenos nervosos...
ÚRSULA – E agora? como está dª. Helena?
CLARIMUNDO – Dorme sossegada.
ÚRSULA – Se o permite, esperarei que ela acorde.
CLARIMUNDO – Oh! eu agradeço muito a v. ex. o interesse que toma por Helena... o dia vai ser talvez de amargurado pranto... v. ex. também há de chorar... pois que é sensível... quer ver... minha filha no horror dos seus tormentos... Adriano sobe a escada... venha... entre...
ÚRSULA – Sr. Clarimundo...
CLARIMUNDO – Por quem é... (Oferece-lhe a mão.) Desejo ficar só com Adriano.
CENA III
CLARIMUNDO, que conduz Úrsula até à porta e volta severo de braços cruzados – ADRIANO pálido e desfigurado.
ADRIANO – Sr. Clarimundo... (Silêncio de Clarimundo.) foi-me de martírios a noite... (Silêncio.) tenho sofrido muito... (Silêncio.) porque me olha assim?... poupeme... (Silêncio.) ah sr. Clarimundo... (Clarimundo vai fechar e tira a chave da porta do interior) Por que fecha essa porta?...
CLARIMUNDO – Ontem um homem que eu supunha honrado, e a quem ofereci o perdão de vergonhosos desatinos, prometeu-me solenemente não tornar a jogar, e ser digno de sua esposa; e ontem mesmo ele jogou, e mentiu à fidelidade conjugal, à honestidade, e ao brio: como é que devo hoje qualificar esse homem?...
ADRIANO – Sr. Clarimundo! v. s. me insulta!...
CLARIMUNDO – Fale baixo...
ADRIANO – Abusa do respeito talvez excessivo...
CLARIMUNDO – Desgraçado! Helena está em perigo de morte, e aos gritos do algoz.
ADRIANO (Correndo à porta.) – Helena!... (Volta.) a chave daquela porta!... a chave!...
CLARIMUNDO – Jogador desenfreado e vicioso, deixa que morra em paz a tua vítima antes de sentir a fome e o horror da miséria a que a reduziste! amante da mundanaria: adúltero ostentoso, o teu lugar não é mais ao lado da honestíssima esposa que ultrajaste, é no lodo do lupanar e nas orgias da devassidão!...
ADRIANO – Oh!... é muito!... é muito!... mas... a chave daquela porta! eu quero ver Helena...
CLARIMUNDO – De joelhos, réprobo da sociedade e de Deus! de joelhos! e verte lágrimas que te queimem tanto as faces, e rompe em gemidos, que te rasguem tanto o peito, que possam merecer o perdão da tua ignomínia!...
ADRIANO – Sr. Clarimundo! é demais!... quaisquer que sejam os meus erros...
as minhas loucuras, só meu pai poderia impunemente injuriar-me assim... proíbo-lhe que me fale desse modo!
CLARIMUNDO – Teu pai!... teu pai se envergonharia de tal filho... teu pai te amaldi... talvez te amaldiçoasse... se eu fosse teu pai...
ADRIANO – Não! não!... meu pai não me falaria tão cruelmente!... meu pai se arrependeria de me haver deixado vinte e seis anos no deserto do desprezo e sem a sua bênção!... meu pai encontrando-me envilecido, culpado, se faria meu juiz; mas só para absolver-me num grito do coração!...
CLARIMUNDO – Desgraçado!... e tu... (Em crescente comoção.)
ADRIANO – Não! não!... meu pai não seria execrador implacável; meu pai sentiria no seu seio os tormentos que dilaceram o seio de seu filho!... meu pai, revoltado contra mim, no ímpeto de cólera justíssima levantaria a mão para amaldiçoar-me; mas a sua mão descendo sobre a minha cabeça, faria o sinal de bênção...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.