Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CINCINATO – Para dª. Helena não ficar viúva... em toda esta meada eu sinto a mão de Deus sobre a cabeça do anjo.
ADRIANO – O jogo e uma mulher perdida, destruíram em breves semanas, como dois incêndios, a minha fortuna, a minha honra e mancharam o meu amor... e pelo jogo, que é vício aviltante, e por essa mulher, que todos podem comprar, hoje um usurário me faria recolher à prisão e marcar na minha fronte o selo da maior ignomínia; porque hoje ele poderia ter-me chamado... estelionatário... ladrão... Oh!... eu começo a pressentir que estou salvo; mas a vergonha e o opróbrio estão aqui! (Aponta o coração.) na consciência algoz.
CENA IX
ADRIANO, CINCINATO e CLARIMUNDO
CLARIMUNDO (Dando um papel a Adriano.) – Entrega esta carta de ordem à casa comercial a que é dirigida, e que a espera desde ontem: em meia hora no teu escritório, em uma aqui. Se tens a desgraça de dever a Fábio, manda imediatamente pagar-lhe: Cincinato, acompanha-o e volta com ele. Vai... apresenta-te... (A Adriano.) então?... vai! (Adriano ajoelha-se.) Que é isto? ...
ADRIANO (Trêmulo e comovido.) – Helena... que eu não vi... (Soluçando.)
CINCINATO – Ele tem razão!... (Enternecido.)
CLARIMUNDO (Comovido.) – Vem... um instante só... da porta do quarto...
(Leva-o pela mão; e logo depois volta, trazendo-lhe um pouco à força.)
CINCINATO (Comovido.) – Querem atirar-me no sentimental... eu protesto.
CLARIMUNDO (Abraçando Adriano.) – Vai com Deus!... (Cincinato vai-se, levando Adriano.)
CENA X
CLARIMUNDO e logo JOSÉ
CLARIMUNDO (Acompanha os dois até à porta; enxuga as lágrimas; senta-se, parece sofrer; levanta-se, vai à porta do interior e chama com voz abafada.) – José! (Entra José.) Dize à sra. d. Úrsula que eu lhe peço o favor de dar-me uma palavra. (Vaise José; Clarimundo vai trancar a porta de entrada e senta-se até que Úrsula entra.)
CENA XI
CLARIMUNDO e ÚRSULA
ÚRSULA – Aqui estou.
CLARIMUNDO – E Helena dorme ainda?...
ÚRSULA – Dorme: deixei a criada no quarto para que ela, no caso de despertar, não se assuste, vendo-se a sós com o doutor que lhe é desconhecido. (Clarimundo vai trancar a porta do interior) Porque tranca a porta?...
CLARIMUNDO – Para que ninguém perturbe a nossa conversação. v. ex. fazme a graça de sentar-se? (Aproximando sua cadeira.)
ÚRSULA (Sentando-se.) – E o senhor?
CLARIMUNDO – Ficarei de pé.
ÚRSULA – O senhor me confunde...
CLARIMUNDO – Confundi-la-ei talvez. O que me trouxe do Rio da Prata, minha senhora, foi o cuidado da sorte de Helena e de Adriano; a este vim achar arruinado pelo jogo e pela ligação com uma mulher corrupta; àquela encontrei resistindo nobremente a um plano infame de sedução e martirizada pelo conhecimento da infidelidade do marido. É v. ex. quem me pode explicar completamente estes fatos.
ÚRSULA – É uma inquirição! com que direito?...
CLARIMUNDO – Com o direito do passado que a acusa nas circunstâncias do presente! v. ex. não há de matar impune uma virtuosa esposa.
ÚRSULA – Senhor!... (Levantando-se).
CLARIMUNDO – Há vinte e seis anos v. ex., que então contava com dezessete, casou (Com abalo.) com um velho... miserável milionário... de quem enviuvou dois anos depois, herdando-lhe toda a fortuna...
ÚRSULA – Meus pais pobríssimos me impuseram esse sacrifício... sabe-o!...
CLARIMUNDO – Não me importa isso! mas v. ex, viúva, bela e rica, apaixonou-se pelo mais nobre e distinto cavalheiro, por Maurício de Araújo, que teria sido seu marido, se não fosse eu, que o arredei desse enlace, e que o fiz desposar a linda, a fiel e honestíssima Helena...
ÚRSULA – Sr. Clarimundo!
CLARIMUNDO – Daí dois ódios... a mim, ódio à rival preferida! v. ex. não o pode negar, perseguiu Helena com a intriga, com o aleive, procurou nodoá-la, atentou contra a mais pura amizade e chegou ao ponto de denunciar-me a Maurício como o amante de sua mulher...
ÚRSULA – Oh!... eu o acreditei e tinha raiva, porque eu me supunha duas vezes ofendida... duas vezes... e era demais para uma mulher que havia sido amada!
CLARIMUNDO – E agora?... eu fui desde vinte anos o tutor de Helena, filha da pobre Helena que morreu como seu nobilíssimo esposo há vinte anos; e agora? que explica esse ódio de além túmulo?... por que agora é v. ex. que se finge amiga de Helena, e é seu irmão que perverte Adriano, e que se empenha em seduzir-lhe a esposa?... por que agora é v. ex. que excita aos ciúmes da infeliz filha da sua antiga rival, e é o seu dinheiro, minha senhora que paga as traições de Fábio, e o envenenamento moral de Adriano?... Úrsula! és tu, Úrsula, que estás assassinando Helena!...
ÚRSULA – Não! por Deus, eu juro que não! odiei Helena, a mãe, eu amo Helena, a filha... sr. Clarimundo, é verdade: Fábio me arrastou a esta casa... me comprometeu... me expôs a injustíssimas suspeitas... oh! tudo mais é falso... dou dinheiro a meu irmão, porque é ele só o único amor que me deixaram no mundo! mas eu não atraiçoei Helena! é falso!...
CLARIMUNDO – E Adriano... o pervertido...
ÚRSULA – Não sei... não sei... mas... Adriano... Adriano...
CLARIMUNDO – Verdade, Úrsula!...
ÚRSULA – É seu protegido... talvez seu filho... eu queria detestá-lo...e não posso!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.