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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Será que o gênero humano esteja assim todo, todo pervertido?... não. Em regra geral, cada homem individualmente tomado, cada um de per si repele a teoria infernal, mas vai realizá-la na prática; porque cada um de per si diz que não é ele que há de emendar o mundo, e, em uma palavra, porque esse ente abstrato, pervertido, degenerado, imundo, a nossa sociedade enfim, aceita, abraça a teoria, e, como já dissemos, horrivelmente a pratica.

É por isso que a sociedade não discute entre o rico estúpido e o pobre instruído: a vitória cabe sempre ao primeiro.

É por isso que ela, sem pudor, deixa a um canto a pobreza honrada, e festeja, lambe os pés da riqueza, mesmo indignamente adquirida.

É por isso que a porta que se não abre ao pobre modesto e nobre, se escancara

ante o milionário imoral, cuja presença em uma casa é ás vezes o anúncio da desonra.

É por isso... mas basta. E se a sociedade disser que mentimos, nós a mandaremos olhar para si mesma; e ela há de por força corar de vergonha, observando-se.

Ainda se o caminho da fortuna e da riqueza se facilitasse a todos os homens...

mas não; uma porta de ferro a fecha, e o pobre não pode vencê-la, porque não tem a chave que abre todas as portas... o dinheiro.

E agora pensareis que por isso maldizemos a sociedade geral?... que sobre os ombros lhe lançamos a pesada culpa de tanta miséria?... Não, mil vezes, não!

Não deve ser maldita a sociedade geral; sê-lo deve somente a sociedade que governa.

Aí está o poeta nacional que brada:

“Nasce de cima a corrução dos povos”.

E aí está a sociedade que governa, justificando o bradar do poeta:

Com a impunidade espantosa do rico.

Com o patronato, o escândalo, e a servidão vergonhosa que se presta ao rico.

Com a preferência inaudita que em tudo se dá mil vezes ao rico sem mérito algum, sobre o homem que, sendo embora distinto, é todavia pobre.

O que queríeis que fizesse a sociedade geral?... ela hoje, como sempre, arremeda a sociedade que governa.

É o governo quem desmoraliza quem tem desmoralizado o povo; o erro vem daqueles a quem cumpria mostrar o bom caminho, caminhando eles mesmos adiante.

Mas seja de quem for a culpa, o resultado é sempre o mesmo. A sociedade, geralmente pervertida, repele a pobreza o desvalimento.

E agora compreendei conosco o homem pobre lançado aí no meio da sociedade que o rejeita. Entrai conosco dentro do seu coração para poder bem sentir o que se passa nele.

Em conseqüência desse constante sofrer, em conseqüência da inabalável firmeza com que a sociedade desenvolve o nefando programa da onipotência da riqueza, resulta que profundas e terríveis convicções se imprimem no coração do pobre. Ele se acha convencido que nas relações políticas não se dá jamais igualdade de lei entre rico e pobre, quer se deva “proteger”, quer “castigar”. Há iniqüidade sempre; porque para o pobre não há proteção, mas há castigo, e para o rico há proteção, há patronato, e há impunidade.

Nas relações domésticas, em conseqüência dessa depravação pública, tributase um culto espantoso à riqueza, e o homem pobre acha quase sempre naqueles que mais têm, ou desprezo, ou um esquecimento involuntário, que dói ainda mais, porque é a demonstração viva da própria miséria.

Sabeis qual é, e qual será o resultado de tudo isto?...

É que hoje o pobre não tem amor às instituições, nem confiança no governo; porque as leis servem somente de puni-lo, e o governo não cura de protegê-lo.

É que amanhã o pobre terá em desprezo a lei, e há de desconfiar da sociedade que governa; e depois de amanhã... e no futuro, num dia enfim que felizmente bem longe está ainda, o povo pobre que é muito mais numeroso do que o dos povo rico, perguntará àqueles que estão de cima – se ainda não é tempo de minorar-se o peso de sua cruz, se o seu calvário não se acaba de subir nunca.

É que hoje o pobre indiferente e sofredor, carrega o seu peso silencioso como o camelo, e um dia mais tarde, – ai de nós se ele chegar! – levantará a cabeça, orgulhoso como o leão, e terrível como o tigre.

Não se diga que o mundo é hoje como fora ontem, e como será amanhã; não! No mundo tudo sobe e desce gradualmente, e neste caso é preciso convir que a perversão e a imoralidade tem ido subindo de grau em grau. Deus permita que também a paciência dos que sofrem não tenha ido igualmente de grau em grau subindo; porque então, quando o termômetro terrível marcar o último e mais alto grau de perversão, marcará também o último e mais alto de paciência.

E essa repulsão, esse desvalimento, o homem pobre encontra por toda a parte. No corpo abstrato que representa a grande família, no alto corpo social recebe ele esses golpes terríveis e mortais, que ferem seus direitos naturais e civis, que destroem a igualdade do gênero humano, que dividem os filhos de Deus em dois bandos: – protegidos e repelidos.

E na pequena sociedade das famílias dos ricos, o homem pobre se atira a um canto; vê rir, vê brincar, vê gozar, vê ser feliz; e quase nunca ri, goza ou brinca, e jamais é feliz. Algumas vezes desprezado, quase sempre involuntariamente esquecido, ele fica ao canto com a convicção de sua miséria. Na pequena sociedade de que falamos, ele sofre pequenos mas repetidos golpes. Pequenos, mas que lhe doem muito, porque lhe vão ferir esses pontos mais dolorosos da sensibilidade.

(continua...)

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