Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Leonina — A cabeça pesa-me horrivelmente...como que os olhos se vão fechando...
Fabiana — É um incômodo passageiro; havia de ser a emoção que lhe causou o pedido do casamento...
Leonina — Não...não...mas é impossível resistir ao sono que sinto; eu vou retirarme para o meu quarto..
Fabiana — Não faça tal, o calor aumentaria este pequeno incômodo. Olhe, descanse antes ao pé de mim, no banco do caramanchão.
Leonina — É melhor que eu me vá deitar...não posso...quero dormir.
Fabiana (Puxando-a) — Venha...eu me sentarei a seu lado.
Leonina (Cedendo) — Oh! é muito! É demais!...
Fabiana — Venha!...(Leva-a para o banco do caramanchão; Leonina reclina-se sobre Fabiana)
Leonina — Pesam-me os olhos...ah...se eu dormir...acorde-me...
Fabiana — Sim...descanse; esta aragem suave que sopra lhe fará bem, durma bem, durma...no meio das flores...como um anjo...como...e dormiu! Dona Leonina! Minha boa amiga! Dona Leonina! Qual! Dorme profundamente. Bem! A hora da ceia deixa o jardim em solidão; eu tinha calculado com isso; mas é preciso não perder um instante. Psiu! Psiu! É tempo.
Frederico (Aparecendo) — Pronto; dê-me esse precioso tesouro!
Fabiana — Espere, atemos-lhe primeiro este lenço na boca; podia por acaso despertar, e, se gritasse, ficaríamos perdidos. (Atam o lenço) Frederico — Sim...mas não magoemos estes lábios de rosa...
Fabiana —Como já está zeloso da sua noiva! Ei-lo atado de leve; mas ao primeiro movimento aperte com força o nó.
Frederico — Hei de, durante quinze dias, ser o mais apaixonado e constante dos maridos. (Tomando com cuidado Leonina nos braços)
Fabiana — Enfim...ei-la aí.
Frederico — Leonina! És minha!
CENA XVII
Fabiana, Leonina, Frederico, Anastácio e Henrique.
Anastácio — Ainda não.
Fabiana — Oh!...
Frederico (Descansando Leonina no banco e avançando com um punhal) —
Sempre ele! Miserável, morre!...(Ferindo)
Henrique (Suspendendo o golpe) — Assassino! Somos dois!...(Subjuga Frederico)
Anastácio (Arrancando a máscara de Fabiana)— Ei-la, a traição!...(O mesmo a Frederico) Ei-lo, a libertinagem!... Infames, fugi!...(Vão-se Fabiana e Frederico.
Anastácio e Henrique correm a Leonina) Oh!...este sono é sinistro...
Henrique — Leonina!...meu Deus!...permiti que nós a salvemos.
FIM DO QUARTO ATO
ATO V
Sala em casa de Maurício; ainda riqueza e luxo; agora porém sinais de alguma desordem; sobre uma mesa vê-se uma pêndula de primoroso gosto.
CENA I
Hortênsia, e logo depois Maurício.
Hortênsia — Só! Abandonada! Debatendo-me se esperança nas garras da miséria e da vergonha! Oh! é horrível! E minha filha...a minha Leonina...meu Deus! Se ao menos me restasse minha filha!...(Silêncio) Todos os meus cálculos destruídos como nuvens desfeitas pelo vento! Misericórdia, meu Deus!...(Vendo entrar Maurício) E
Leonina?...e nossa filha?...
Maurício — Perdi os meus passos, e as minhas lágrimas; ninguém sabe de Leonina.
Hortênsia — O nome do infame raptor ao menos...
Maurício — Hortênsia, não houve rapto, houve fuga. Qual é a mulher que se deixa roubar sem que solte um grito ou brade por socorro?...Não houve rapto; Leonina fugiu-nos e fez bem; queríamos sacrificá-la e ela salvou-se; fez bem.
Hortênsia — Mas desonrou-se...e desonrou-nos...
Maurício — Desonrados estamos nós desde o dia em que sem medir os nossos recursos nos atiramos no golfão do luxo e da vaidade, e nos carregamos de dívidas, que não podíamos remir. Hortênsia! Olha aquela pêndula, ela marca onze horas; ao meio-dia, em ponto, virão pedir-me o pagamento de uma dívida sagrada, e os meus credores terão o direito de chamar-me ladrão; porque eu vendi escravos que tinha hipotecado,e me utilizei do seu dinheiro, enganando-os com essa fraude vergonhosa.
Hortênsia — Oh, Maurício! E não temos esperança, não temos recurso algum?...as minhas jóias?...
Maurício — As tuas jóias! Eis aí o seu produto; importaram em mais de doze contos de réis, e deram-me por elas menos de cinco!Aqui estão; uma gota d’água no oceano!
Hortênsia — Se te dessem algum tempo de espera, Maurício...
Maurício — E com que fim o pediria eu?...daqui a um ano estarei em melhores circunstâncias do que hoje?... Não, Hortênsia, basta de enganar; em minha própria consciência fui até agora apenas um louco, e de agora em diante seria um velhaco.
Hortênsia — E te u irmão tão rico! Por que não te abres com o mano
Anastácio?...no fundo do coração ele é bom.
Maurício — Meu irmão não pode ignorar em que situação nos achamos, e se quisesse socorrer-nos, não precisava que eu lho pedisse.
Hortênsia — Falaste a algum dos nossos amigos?...
Maurício — Os nossos amigos! A minha desgraça já é conhecida: bati em dez portas e achei-as todas fechadas, ou glacial frieza naqueles que ainda me quiseram receber. Entendi que não me devia expor a outras desilusões.
Hortênsia — Oh! o mano Anastácio tinha razão.
CENA II
Maurício, Hortênsia e Petit.
Petit — Senhor barão do rio Mirim não recebe ninguém hoje.
Hortênsia —
Também ele!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.