Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)
Algum braço, ou perna, ou outro qualquer pedaço de carne costumam assar no fumo, e te-lo guardado alguns meses, para depois quando o quiserem comer, fazerem novas festas, e com as mesmas cerimonias tornarem a renovar outra vez o gosto desta vingança, como no dia em que o mataram, e depois que assim chegam a comer a carne de seus contrários, ficam os ódios confirmados perpetuamente, porque sentem muito esta injuria, e por isso andam sempre a vingar-se uns dos outros, como já tenho dito. E se a mulher que foi do cativo acerta de ficar prenhe, aquela criança que pare, depois de criada matam-na, e comem-na sem haver entre eles pessoa alguma que se compadeça de tão injusta morte. Antes seus próprios avós, a quem mais devia chegar esta mágoa, são aqueles que com maior gosto o ajudam a comer, e dizem que como filho de seu pai se vingam dele, tendo para si que em tal caso não toma esta criatura nada da mãe, nem crêem que aquela inimiga semente pode ter mistura com seu sangue. E por este respeito, somente lhe dão esta mulher com que converse: porque na verdade são eles tais, que não se haveriam de todo ainda por vingados do pai se no inocente filho não executassem esta crueldade. Mas porque a mãe sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes quando se sente prenhe mata-a dentro da barriga e faz com que não venha à luz. Também acontece algumas vezes afeiçoar-se tanto ao marido, que chega a fugir para sua terra pelo livrar da morte. E assim alguns Portugueses desta maneira escaparam que ainda hoje em dia vivem . Porem o que por esta via senão salva ou por outra qualquer manha oculta, será cousa impossível escapar de suas mãos com vida, porque não costumam da-na a nenhum cativo, nem desistirão da vingança que esperam tomar dele por nenhuma riqueza do mundo, quer seja macho, quer fêmea, salvo se o principal, ou outro qualquer da aldêa acerta de casar com alguma escrava sua contraria, como muitas vezes acontece, pelo mesmo caso fica libertada, e assentam em não pretenderem vingança dela, por comprazerem aquele que a tomou por mulher, mas tanto que morre de sua morte natural, por cumprirem as leis da sua crueldade, havendo que já nisto não ofendem ao marido costumam quebrarlhe a cabeça, ainda que isto raras vezes, porque se tem filhos não deixam chegar ninguém a ela, e estão guardando seu corpo até que o dêem á sepultura.
Outros Índios doutra nação diferente, se acham nestas partes ainda que mais ferozes, e de menos razão que estes. Chamam-se Aimorés, os quais andam por esta costa como salteadores e habitam da Capitania dos Ilhéus até a de Porto Seguro, aonde vieram ter do sertão no ano de 55 pouco mais ou menos. A causa de residirem nesta parte mais que nas outras, é por serem aqui as terras mais acomodadas a seu propósito, assim pelos grandes matos que tem onde sempre andam emboscados, como pela muita caça que ha nelas que é seu principal mantimento de que se sustentam.
Estes Aimorés são mais alvos e de maior estatura que os outros Índios da terra, com a língua dos quais não tem a destes nenhuma semelhança nem parentesco. Vivem todos entre os matos como brutos animais, sem terem povoações, nem casas em que se recolham. São mui forçosos em extremo e trazem uns arcos mui compridos e grossos conformes a suas forças, e a frecha da mesma maneira. Estes alarves têm feito muito dano nestas Capitanias depois que desceram a esta costa e mortos alguns Portugueses e escravos, porque são mui bárbaros, e toda a gente da terra lhes é odiosa: não pelejam em campo nem têm anima para isso; põem-se entre o mato junto de algum caminho, e tanto que alguém passa atiram-lhe ao coração ou a parte onde o matem, e não despedem frecha que não na empreguem. As mulheres trazem uns paus grossos á maneira de maças, com que o ajudam a matar algumas pessoas quando se oferece ocasião. Até agora não se pode achar nenhum remedio para destruir esta pérfida gente, porque tanto que vem tempo oportuno fazem seus saltos, e logo se recolhem ao mato mui depressa, onde são tão ligeiros e manhosos, que quando cuidamos que vão fugindo ante quem os persegue, então ficam atras escondidos atirando aos que passam descuidados: e desta maneira matam muita gente. Pela qual razão todos quantos Portugueses e Índios ha na terra, os temem muito, e assim onde os ha nenhum morador vai a sua fazenda por terra, que não leve consigo quinze, vinte escravos de arcos e frechas para sua defensão. O mais do tempo andam derramados por diversas partes, e quando se querem ajuntar assoviam como pássaros, ou como bugios, de maneira que uns aos outros se entendem e conhecem, sem serem da outra gente conhecidos. Não dam vida uma só hora a ninguém, porque são mui repentinos e acelerados no tomar de suas vinganças, e tanto que muitas vezes estando a pessoa viva, lhe cortam a carne, e lha estão assando comendo á vista de seus olhos. São finalmente estes selvagens tão ásperos e cureis, que não se pode com palavras encarecer sua dureza. Alguns deles houveram já os Portugueses ás mãos: mas como sejam tão bravos e de condição tão esquiva nunca o poderão amansar, nem so meter a nenhuma servidão como os outros Índios da terra que não recusam como estes a sujeição do cativeiro.
Tão bem ha uns certos Índios junto do rio do Maranhão da banda do Oriente, em altura de dous grãos pouco mais ou menos, que se chamam Tapuyas, os quais dizem que são da mesma nação destes Aimorés ou pelo menos irmãos em armas, porque ainda que se encontrem, não ofendem uns a outros. Esses tapuyas não comem a carne de nenhuns contrários, antes são inimigos capitães daqueles que a costumam comer, e os perseguem com mortal ódio. Porem pelo contrario têm outro rito muito mais feio e diabólico, contra a natureza, e digno de maior espanto. E é que quando algum chega a estar doente de maneira que se desconfia de sua vida, seu pai, ou mãe, irmãos ou irmãs, ou quaisquer outros parentes mais chegados o acabam de matar com suas próprias mãos, havendo que usam assim com ele de mais piedade, que consentirem que a morte o esteja senhoreando e consumindo por termos tão vagarosos. E o pior que é que depois disso o assam e cozem, e lhe comem toda a carne, e dizem que não hão de sofrer que cousa tão baixa e vil como é a terra lhe coma o corpo de quem eles tanto amam, e que pois é seu parente e entre eles ha tanta razão de amor, que sepultura mais honrada lhe podem dar que mete-lo dentro em si , e agasalha-lo para sempre em suas entranhas.
(continua...)
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Lisboa: Oficina de António Gonçalves, 1576. Disponível em domínio público em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17411. Acesso em: 26 nov. 2025.