Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

—Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem havéra de dizer que até com isso se pode bichar! Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo atrás de vaga-lumes e voadores do mato, como menino às voltas com cigarras! Muito se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa? Se eu não tivesse família, era capaz de ir com vosmecê por esses fundões afora, porque sempre gostei de lidar com pessoas de qualidade e instrução... Eu sou assim... Quem me conhece, bem sabe. Homem de repentes... Vem-me cá uma idéia muito estrambótica às vezes, mas embirro e acabou-se; porque, se há alguém esturrado e teimoso, é este seu criado... Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse no tempo de solteiro, e eu me botava com o senhor a catar toda essa bicharada dos sertões. Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua terra... Não me olhe pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que tivesse de passar canseiras como ninguém... O caso era meter-se-me a tenção nos cascos... Dito e feito; acabou-se... Fossem buscar o remédio onde quisessem... mas duvido que o achassem.

—Como vai a doente? perguntou distraidamente Cirino, cortando aquela catadupa de palavras.

—Ora estou muito contente. Já tomou nova dose, e parece quase boa. Está com outra feição. O senhor fez um milagre...

—Abaixo de Deus e da Virgem puríssima, concordou Cirino com toda a modéstia.

—O senhor não cura? perguntou Pereira a Meyer.

—No senhor. Sou doutor em filosofia pela universidade de Iena, onde...

—Isso é nome de bicho? atalhou o mineiro.

—No senhor. É uma cidade.

—Ninguém diria... Pois, Senhor Mata, continuou Pereira apontando para Cirino, ali está um com quem moléstias não brincam.

—Ah! rouquejou o alemão abrindo ainda mais os olhos. Estimo muito conhecê-lo como notabilidade... Nestes lugares aqui é muito raro...

—Se é.! exclamou Pereira. Felizmente passou por cá nem de propósito, para pôr de pé a menina... uma filha minha... Caiu-me a talho de foice e...

Não pôde Cirino furtar-se a um movimento de vanglória. Com ar grave interrompeu:

—Não fale nisso, Senhor Pereira; o caso era simples. Febre das enchentes... não vale quase nada. Vi logo o que era de urgência; um simples suador, duas ou três doses de sulfato de quinina... e ficou tudo sanado... E simplicíssimo... O estômago não estava sujo... não havia necessidade de vomitório...

Ouvira Meyer estas indicações terapêuticas com os olhos muito fitos em quem as dava: depois, voltando-se para Pereira, disse com um aprobatório aceno de cabeça:

—Pom médico! Com médico!

Desse momento em diante, votou Cirino ao alemão a mais decidida da simpatia; e Pereira, presenciando o congraçamento daqueles dois homens, de si pára si ilustres e incontestáveis sabichões, sentiu-se feliz por abrigá-los a um tempo em sua humilde vivenda.

—Então, disse o mineiro voltando à questão das borboletas, com o que seu governo paga-lhe bem, não senhor Maia?

—Suficientemente... demais, todas as autoridades deste belo pais muito me ajudam. Tenho muitos ofícios... cartas de recomendação. Olhe, quer ver? Juque, Juque! chamou Meyer, sem reparar que o criado há muito se fora do quarto, dê-me...

É verdade, foi levar os burrinhos à água. .. Não faz mal... Mostro-lhe já tudo...

—E, procurando entre as cargas uma malinha coberta de pano impermeável, abriu-a e tirou um maço de cartas cuidadosamente numeradas, com fitas de diversas cores.

—Isto é para Miranda, em Mato Grosso. Isto para Coxim, Cuiabá... para Poconé, Diamantina... isto são cartas cujos donos não encontrei, e que hão de voltar para as pessoas que as escreveram.

—E são muitas? perguntou Pereira.

— Três ou quatro. Vejamos... uma é para o senhor João Manuel Quaresma, no Pitangui; esta, para o senhor Martinho dos Santos Perreira, em Piumi...

—Que é? perguntou o mineiro levantando-se de um pulo e mostrando muita admiração. Leia outra vez... leia por favor...

Meyer obedeceu.

—Mas este nome é o meu! exclamou Pereira. Esta carta então é para mim...

—Hu, hu! gaguejou o alemão boquiaberto. É muito curioso isto!

—Sou eu, sou eu mesmo! continuou o mineiro abrindo os diques à volubilidade. Está claro, claríssimo!... Quando me escreveram, pensavam que eu ainda morava lá em Piumi. Pois, se nunca contei a ninguém em que buraqueira me vim meter... Abra a carta sem susto... Oh! Senhora Sant'Ana, que dia hoje! Quem diria? Uma carta! Uma carta nestas alturas! Pode ler, senhor Maia... Estou doido por saber quem se deu ao trabalho de me escrever... Martinho dos Santos Pereira, de Piumi... sou eu! Que dúvida: não há dois. Veja só o nome... pelo amor de Deus, o nome de quem me dirige a carta.

Rompeu o alemão com alguma dúvida e escrúpulo o selo; correndo com os olhos a lauda escrita, procurou a assinatura e pausadamente leu "Francisco dos Santos Pereira".

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1920212223...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →