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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

O imediato do corpo de caçadores, Antônio da Cunha deveu a vida à dedicação de um dos seus soldados. Deu-se em outro ponto um episódio freqüentemente relatado mais tarde. Parecia o capitão Costa Pereira o alvo dileto dos assaltos de possante cavalariano; quis com isto e, abrindo espaço, lançou-se fora do movido de tal ímpeto que o adversário, intimidado, deu de rédeas a fugir, com grande aplauso dos nossos.

Neste ínterim chegara, a toque-toque, o reforço pedido por José Rufino; e isto precisamente quando lhe iam os cartuchos acabar. Trazia um canhão a primeira companhia que entrou em linha; e uma de suas granadas foi arrebentar no ponto em que mais se adensavam os assaltantes. Esta arma, introduzida inesperadamente na ação, produziu o costumeiro efeito. Espalhou imediatamente a desordem na tropa já abalada pela aparição do socorro; e toda a cavalaria paraguaia desapareceu, deixando um segundo acampamento em nosso poder. Custou-nos isto quatorze mortos e muitos feridos.

Entre estes últimos não podemos esquecer um jovem soldado, Laurindo José Ferreira, que, cercado por quatro inimigos e apenas tendo o fuzil para se defender, todo golpeado de sabraços, com a mão esquerda atingida, braço direito profundamente retalhado em diversos lugares e o ombro quase arrancado por um lançasso, assim mesmo se não rendeu. Só muito mais tarde veio a restabelecer-se de tantas feridas; a firmeza na ambulância em nada lhe desmentira a bravura ante o inimigo.

Fora o pessoal do nosso serviço médico muito perseguido pelas febres palustres de Miranda. Haviam-nos deixado vários de seus membros; além de tudo as nossas caixas de cirurgia e de farmácia tinham-se todas perdido ou deteriorado, devido aos acidentes da viagem.

Puderam, contudo, os nossos feridos receber ainda todos os socorros de que precisavam, graças aos esforços da engenhosa humanidade de que foram alvos. Superintendera o comandante, sempre, este serviço, e tivéramos a felicidade de conservar dois hábeis clínicos, os doutores Quintana e Gesteira. Pertencia este último ao corpo empenhado no embate de 6, e, sob as balas, dera provas de dedicação e sangue-frio, como verdadeiro discípulo do grande Larrey.

Os cadáveres paraguaios não arrastados pelo laço dos compatriotas foram, todos, achados mutilados e de modo hediondo. A propósito de tais profanações fez o Coronel violentas exprobrações aos índios, acenando-lhes até com a pena capital, se acaso, dai em diante, desrespeitassem os mortos. Tais a sua indignação e o pavor aos selvagens incutido, que até o fim da campanha, ficamos livres de semelhante espetáculo, e isto quando já o nosso chefe deixara de existir.

Juntando o exemplo às palavras fez o coronel Camisâo inumar, sem exceção, todos os corpos achados no campo de batalha, com o zelo da escrupulosa piedade que tanto era da sua índole. Duas horas se consagraram à triste contingência de entregar os nossos infelizes patrícios à terra inimiga. Que tristeza vê-los assim desaparecer; e que choque não deveria ter sentido um de nossos oficiais ao fazer questão de sepultar, ele próprio, o irmão mais moço, Bueno, voluntário paulista!

Cumprido este dever, recomeçamos a marcha, desta vez seguindo a ordem recentemente adotada.

Dera-se uma peça ao corpo de caçadores, que ainda formava a vanguarda; o 17.° batalhão, dos voluntários de Minas, que também tinha um canhão, compunha a retaguarda. No centro, o 20.° batalhão e o 21.o, cada qual com a sua boca de fogo, escoltavam, à direita e à esquerda, a bagagem flanqueada de duas filas de carretas puxadas por bois. O conjunto desta massa movediça parecia um grande quadrado que, em cada face, tinha um menor diante de si; judiciosa formatura para nos proteger das cargas de cavalaria; porquanto podiam as quatro frentes ser varridas pelo fogo cruzado de nossa infantaria. Enfim, para maior segurança, linhas de atiradores circulavam em torno do corpo do exército. Desde este primeiro dia verificou-se quão vantajosa era tal disposição porquanto estava a cavalaria inimiga, por toda a parte, em torno de nós: à frente, sobre os flancos; atrás, ora longe, ora quase a nos tocar. Nossos soldados, marchando sempre, afastavam-na por meio de descargas, freqüentes, e tanto mais profícuas quanto ao resultado quanto mais se aproximavam os paraguaios. Algumas de suas balas também atravessavam as nossas fileiras, mas sem grande dano pela incerteza do tiro disparado a galope. Entretanto, acabaram as balas de artilharia por visitar-nos.

Atravessávamos, então, o terreno lamacento, fundo, de planície cortada de estreitas esplanadas, paralelos umas às outras, e uma peça paraguaia de 3, sucessivamente assestada nestes pontos, abriu fogo contra nós; mas, ou porque a sorte neste particular ao menos nos favorecesse, ou graças à inexperiência dos artilheiros inimigos, iam-lhe os projetis enterrar-se na lama que nos rodeava; ou, então, os menos inofensivos caiam no meio do nosso gado com mais estrépito do que prejuízo.

Os nossos soldados, cuja primeira impressão fora bastante viva, não tardaram a rir do que viam e até as próprias mulheres acharam nisto assunto de mofa comparando estas balas, que faziam repuxar a água, aos limões-de-cheiro do velho carnaval brasileiro. Demais tínhamos boa réplica á "palavra do bronze"; da linguagem imaginosa do velho Lopes.

(continua...)

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