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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— Em minhas mãos! - exclamou o senhor do engenho com manifesta estranheza. O que está em minhas mãos ou eu já fiz, ou o farei oportunamente. Põe em dúvida o empenho que tenho empregado em trazer a harmonia onde ainda reina contra a minha vontade a desinteligência mantida por uma das duas partes? Queira a senhora renunciar ao seu capricho, que verá amanhã mudada toda esta situação desagradável. Queira-o, que terá em poucos dias casa para morar com seu marido, e ele terá meio de vida pouco rendoso, mas decente. Queira-o, que sua filha dentro em pouco estará amparada e verá o seu futuro inteiramente livre das incertezas que atualmente o escravizam.

— Permita-me fraqueza?

— Pode dizer o que quiser.

— Não vejo razão, Sr. Albuquerque, em fazer depender de um passo que me repugna, porque nele adivinho o meu acabamento, a sorte de minha filha a quem vota sentimentos paternais de que tem dado manifestos testemunhos.

— Não vê razão!

— Que é que tem, senhor, que eu continue separada do meu marido, para que Virgínia não seja digna de Paulo?

Ouvindo tais palavras, Albuquerque franziu os sobrolhos com evidente mostras de desagrado. Neste franzir subira-lhe à face o preconceito de muitos anos. O passado orgulho da família estava ali expresso.

— A senhora teve coragem de me dizer isto? — perguntou ele, inteiramente mudado. Repugna à senhora renunciar a uma opinião pouco justificável e muito prejudicial à sua reputação de discreta e ajuizada; a mim, porém, não deve repugnar, no seu entender, a ligação de meu filho com uma família que, se a alguns pode parecer simplesmente infeliz, pode parecer a outros, por esta mesma infelicidade, inferior a uma aliança sem nota! Vejo que não nos entendemos. Proceda como quiser, minha senhora. Tenha, porém, uma certeza, que Deus queira não lhe seja fatal: se sua filha vier a ser infeliz, não serei eu vítima do remorso que esta eventualidade deve ocasionar.

Albuquerque saiu sem dizer mais uma palavra. Maurícia e Virgínia, também, nada disseram, mas, enquanto a primeira parecia absorta em ocultos e imperscrutáveis pensamentos, a última desafogava em lágrimas e soluços a sua desventura.

Seriam oito horas da noite quando um novo personagem foi introduzido no aposento de Maurícia. De todos era o que mais temia. Era Paulo.

Trazia no gesto a expressão de indescritível tormento interior.

Tanto que ele entrou, Virgínia correu a encontrá-lo; abraçou-se com ele; e confundiu com as lágrimas dele as suas lágrimas.

— É seu pai que quer esta desgraça, Paulo — disse-lhe Maurícia.

— Como tudo se mudou num instante! — respondeu o rapaz. Éramos tão felizes, e de repente a desgraça veio sentar-se entre nós. Meu Deus, eu não hei de ter ânimo para ver esta separação.

— Não havemos de separar-nos, não havemos de separar-nos! - exclamou Virgínia. Paulo, Paulo, eu não posso viver um momento sem você.

— Nem eu sem você, Virgínia.

— Mas se o Sr. Albuquerque assim o quer... - acrescentou Maurícia.

— A senhora não há de sair daqui, D. Maurícia. Não haverá forças humanas que possam tirá-la da casa de meu pai. Seria preciso que eu morresse primeiro. Antes disso, não. Virgínia não sairá daqui!

Estes e outros juramentos, estas e outras exclamações, repetiram-se várias vezes, por entre lágrimas, que confundiam os três personagens de tão comovedora cena.

Às nove horas, vieram chamar Paulo da parte de Albuquerque. Ele começava a condenar aquelas demonstrações.

Querendo D. Carolina repetir com Alice pela quarta ou quinta vez a sua visita ao aposento de Maurícia, a fim de tentar novamente resolvê-la a realizar o que ela recusava por considerar tal realização a prática do seu suicídio, Albuquerque proibiu positivamente que levasse a efeito esta nova tentativa.

— Já não é digno de nós, nem decente qualquer esforço neste sentido.

No outro dia, ainda muito cedo, Paulo subiu ao quarto de Maurícia.

Ele tinha passado a noite em claro. Trazia as feições demudadas da longa insônia e das lágrimas choradas.

(continua...)

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