Por Franklin Távora (1878)
- Que dirá minha mãe quando souber do que eu fiz? perguntava ele em silêncio a se mesmo. Para que tomei eu esta vingança? Porque não esqueci de todo a ofensa passada? Minha mãe, meu pai, seu padre Antônio que já me quer tanto bem, que idéia ficarão fazendo de mim d’ora em diante? Um me chamará mau, outro cruel, outro desumano, coração de tigre. Minha mãe dirá que perdeu comigo seus conselhos; meu pai dirá que, em lugar de trabalhar, ando eu fazendo mal aos outros sem me lembrar de que ele só me encaminha para o trabalho. E seu padre Antônio, oh meu Deus, seu padre, que se mostra tão meu amigo, de que modo não me ficará tratando d’ora por diante? Ainda ontem ele me fazia escrever esta passagem da Escritura: “Que homem haverá por acaso entre vós, que tenha uma ovelha, e que, se esta lhe cair no sábado em uma cova, não lhe lance a mão para dai a tirar!”(S.Mat.cap.XII vers.11). Eu fui o primeiro a atirar, por vingança e malvadeza, dentro de uma cova cheia de fogo, não uma ovelha, mas um meu semelhante! Ho meu Deus! Como vai ficar descontente de mim seu padre Antônio por eu ter praticado um ato tão desumano.
Lourenço deitou a correr para que mais depressa chegasse o socorro ao aflito.
Quando Marcelina soube do que acontecera, foi ela própria com o marido e Lourenço buscar o negro queimado para a casa do Cajueiro, a fim de tratar dele, visto que, morando longe da palhoça, não podia estar a tempo e a hora prestando os serviços e cuidados de que precisava o doente.
Lourenço, quando punha os olhos neste, inclinava-os logo abatidos ao chão. O remorso, o desgosto, a vergonha pesavam como anéis de chumbo em suas pálpebras.
- Para que fizeste isto, Lourenço, com o pobre rapaz? perguntou-lhe Francisco. Já me viste fazer alguma vez coisa semelhante?
- Eu não fiz isto por vontade – respondeu ele. Não me pude conter quando o vi. Lembrei-me do que tinha acontecido, e tive ímpetos de vingar-me. O ensino que vosmecê e minha mãe me deram, não pôde vencer em mim o arranco que me atirou para aquele de quem eu guardava uma grande ofensa. Além disso, ele me maltratou de novo, e me descompôs. Mas não foi por vontade, foi sem querer que eu o empurrei para dentro da carvoeira.
Era o mau natural, ainda não vencido de todo pelos edificativos exemplos e ensinos da família, o que tinha levado o rapaz a praticar tão feio ato.
- Que havemos de fazer para castigar a Lourenço sem pau nem pedra? perguntou Marcelina a Francisco.
- Procura lá em teu juízo um meio, Marcelina. Eu não quero dar-lhe pancadas.
- Eu nunca lhe pus a mão senão para o acomodar ou limpar.
Pois vê lá o que se deve fazer. A ação foi ruim, e deve ter um castigo. Neste momento entrou a Quiteria, que vinha saber como tinha o filho passado a noite.
- Olhe, sinhá Marcelina, disse a negra, o que mais sinto é meu filho perder tantos dias de serviço.
Que quer dizer isto? Inquiriu Marcelina. Pois a única ocupação dele não era botar sentido aos cajueirais?
- Esta era a obrigação que lhe deu meu senhor. Mas o tempo chegava para mais, e Benedicto já tinha ajustado limpar as canas e a roça de um homem chamado seu Zeferino, que tem o sitio nos fundos da campina de meu senhor. Marcelina refletiu um momento, ao cabo do qual tornou á preta:
- Quero dizer-te uma coisa, Quiteria. Se o ajuste está feito, não digas nada ao Zeferino, que eu mando uma pessoa fazer o serviço. A paga fica pertencendo sempre a Benedicto.
Como é isto, sinhá Marcelina? Pois vosmecê me faz esta esmola, minha senhora? Oh! fico-lhe muito agradecida. E quem é a pessoa que vai fazer o serviço em lugar de Benedicto?
- É Lourenço.
- Seu Lourenço?
- É ele mesmo. Não foi ele que o botou dentro da cova?
A negra nada mais disse, e Francisco, sabendo da resolução de Marcelina ou, antes do castigo de Lourenço, aprovou-o com satisfação.
Quando Benedicto se deu por pronto, Quiteria e Moçambique o vieram buscar.
Traziam estampado nos semblantes o contentamento.
Tinham recebido os cobres do Zeferino, o qual só fazia gabar o serviço de Lourenço. Os negros agradeceram pela ultima vez a bondade de Marcelina, e quando iam a sair, esta os fez parar e lhes disse:
- Quando Lourenço foi fazer a limpa no sitio de Zeferino, havia oito dias que Benedicto estava de cama, não é verdade, Quiteria?
- É, sim senhora.
- Eu não quero que Lourenço fique devendo ao filho de vocês nem uma hora.
- Está tudo pago, está tudo pago já e repago, minha senhora – disse Moçambique.
- Não está; eu sei o que estou dizendo. O trabalho de meu filho nesses oito dias é aquele.
E indicou uma porção de cestos e esteiras de cangalhas que estavam amontoados a um canto da casa.
- Tudo isso pertence a Benedicto. Não me deixem uma só esteira, nem um só cesto; levem tudo. Vendam, dêem, façam deles o que quiserem. Está completo o castigo de Lourenço. Com o seu próprio trabalho remiu ele a sua culpa.
Lourenço que assistiu á solene entrega desses objetos, filhos das suas mãos, viu com lagrimas nos olhos eles passarem do seu poder para o daquele cuja vida pusera em perigo, e a quem dera tanto que padecer.
Mas nada disse. Os olhos baixos, o semblante abatido, o coração abalado, compreendeu, do modo mais natural e positivo, que todo mal que praticasse dali por diante a outrem, seria praticado consigo próprio, não resultando em ofensa a sua pessoa, mas privando-o do resultado de sua atividade, que fosse necessário á respectiva indenização.
Nunca ele tinha compreendido tão bem, como nesse momento, que o homem que menos mal faz, é o que está menos sujeito ao mal.
Quando os pretos saíram satisfeitos e agradecidos, Marcelina dirigiu estas palavras ao filho:
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.